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Acordo UE-Mercosul: o Brasil retoma o centro do tabuleiro global — e agora?

Rodolfo Marques

O anúncio da assinatura do acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul, no sábado (17), após 25 anos de negociações pautadas por idas e vindas, impasses técnicos e resistências políticas, é um dos marcos mais significativos da recente trajetória da política externa brasileira. O pacto, celebrado em Assunção, no Paraguai, não é apenas uma vitória comercial: é um símbolo de que, após décadas de expectativas frustradas, os governos sul-americanos, em especial o Brasil, voltam a pensar estrategicamente sua inserção no sistema global.

O caminho até o acordo foi marcado por desafios que transcendem o econômico: refletiu tensões sobre meio ambiente, agricultura e soberania regulatória que dividiram posições dentro da União Europeia e entre os próprios países do Mercosul. A presença da UE, após décadas de resistência interna e negociações pendentes, reforça que este pacto é mais do que comércio. É uma concessão mútua num cenário de reconfiguração das cadeias globais de valor e de ascensão de políticas protecionistas. 

A escolha de Assunção como palco da assinatura, com o Brasil representado pelo chanceler Mauro Vieira, tem forte carga simbólica e política. O presidente Lula (PT-SP) participou ativamente das negociações até a véspera e recebeu a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen no Rio de Janeiro, no dia 16; ficou clara a premissa de um Brasil protagonista na retomada de sua agenda externa. 

Anfitrião do encontro e presidente pro tempore do Mercosul, o presidente do Paraguai, Santiago Peña, classificou o tratado como um feito histórico e disse que o acordo transmite uma mensagem clara de apoio ao comércio internacional, ao diálogo e à cooperação entre os países. Na cerimônia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que os dois blocos optaram pela parceria em vez do isolamento e pelo comércio justo em lugar das tarifas. Ela acrescentou que a escolha foi por uma relação produtiva e de longo prazo, com o objetivo de gerar benefícios concretos e tangíveis para ambas as partes. 

Politicamente, esse acordo fortalece a posição do governo brasileiro no tabuleiro internacional. Depois de quatro anos de isolamento relativo e rupturas diplomáticas na gestão Bolsonaro (2019-2022), o Brasil voltou a ser ouvido como parceiro confiável no multilateralismo e na integração econômica. A assinatura representa não apenas um ganho concreto para exportadores e empresas brasileiras, mas também um reposicionamento estratégico em um mundo em que rivalidades geopolíticas e blocos concorrentes pressionam por novas alianças. 

Economicamente, os efeitos projetados são substanciais: a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o Brasil, com esse acordo, ampliará seu acesso ao comércio global. O potencial de atrair investimentos, fomentar tecnologia e estruturar cadeias produtivas mais complexas coloca o país em nova fase de competitividade. 

Além disso, logo após a assinatura com a UE, o Mercosul mira novos parceiros, como Canadá, México, Japão, China e outros mercados, sinalizando que o bloco quer responder ao dinamismo global com maior assertividade e diversificação de parcerias. 
Por fim, a dimensão geopolítica também levanta questões: como equilibrar interesses econômicos com preocupações ambientais e sociais? E até que ponto o Brasil está preparado para consolidar uma posição de liderança que responda às exigências de sustentabilidade e inclusão? 

O tempo dirá, mas, considerando-se as atitudes do governo Lula no contexto internacional, o Brasil vem retomando a rota certa, construindo conexões com o futuro.