Não é a lei das escritas. Não é a justiça das aparências
E o Mestre dos mestres de todos os tempos falou aos seus discípulos e aos seus seguidores:
— “Vós sois a luz do mundo.” (Mateus 5:14)
— “Vós sois o sal da terra.” (Mateus 5:13)
Os tempos eram de opressão imposta pelo Império Romano e pelo sistema social de castas — este, aquele tipo de sociedade rígida e fechada que definia a posição do indivíduo pela hereditariedade familiar.
E lá estava, ao pé da montanha, a multidão sequiosa de conhecimento para sair da ignorância religiosa, mas igualmente ávida de esperança pela chave que começaria a mudar a história. Paradoxalmente, os tempos de desesperança alimentavam uma esperança.
A força algoz do regime político controlava o povo pelo medo que vinha de tudo e de todos os lados: as perseguições do regime político e militar romano levavam a julgamentos injustos e a penas de morte (crucificações públicas).
O poder religioso — aliado romano — manipulava a consciência coletiva pelo monopólio da “verdade divina”.
Recorde-se: nos tempos de Jesus, no topo da pirâmide da Judeia, estavam os saduceus (a aristocracia sacerdotal), que controlavam o Templo; os fariseus (que constituíam a elite religiosa) e a elite política aliada ao Império Romano e ao rei Herodes.
Lá, ao pé da montanha, estava a base da pirâmide, aqueles que o sistema qualificava como “amaldiçoados” e “impuros”: os gentios (os não judeus); os coletores de impostos traidores, também conhecidos como publicanos; as mulheres, as crianças, os órfãos, as viúvas e os enfermos (como leprosos e cegos).
E o que Jesus fez? Primeiro, mudou a adjetivação ao qualificá-los como “escolhidos do Reino de Deus”, como os "pobres em espírito", os que "choram", os "mansos", “os injustiçados” e os "perseguidos".
Encheu as pessoas de esperança, pois ali Jesus as declarou escolhidas e eleitas para receberem o espírito de luz que poderiam chegar a ser.
Em segundo lugar, apresentou a condição inafastável: somente seriam os “escolhidos do Reino de Deus” desde que não fossem falsos como a “justiça dos escribas”: “Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus”, advertiu Jesus, conforme o relato de Mateus 5:20.
A revolução individual deveria ser total: não era admissível ser igual aos escribas e fariseus hipócritas que — por medidas tortas — faziam da justiça a conveniência de interesses particulares.
Em outras palavras: a justiça dos escribas e fariseus não era um parâmetro a ser seguido como modo de vida por ninguém.
Em terceiro lugar, Jesus definiu categoricamente o que cada um dos discípulos e dos seguidores era: sal e luz do mundo.
Numa perspectiva filosófica, não é um convite para tentar ser, mas uma afirmação do que eles já são: o sal e a luz do mundo, se com convicção decidirem ser Seus discípulos.
É propósito e sentido novo de vida. É mudança. É uma condição existencial. Ser justo é ser justo! Não é uma aparência de justiça. Ser ético é ser ético. Não é uma aparência no espelho; é essência virtuosa que não estilhaça.
Nessa possibilidade, a metáfora do “sal da terra” — nos tempos de Jesus (e ainda hoje) o sal era uma necessidade vital do cotidiano — mandava a mensagem subliminar: a vida de cada um tem sentido, como o sal-tempero que saboriza os alimentos e dá gosto ao paladar.
A projeção teológica desta metáfora alcança dois princípios virtuosos: um, a honestidade (a preservação da vida contra a corrupção dos valores); outro, a essência do Ser (o perigo de viver pelas aparências, de se tornar espiritualmente inútil e, assim, perder a identidade essencial).
A metáfora "Vós sois a luz do mundo" completa a anterior, mas a partir do próprio Mestre como paradigma autoproclamado: "Eu sou a luz do mundo" (João 8:12).
A filosofia desta metáfora é muito profunda. Jesus amplia a identidade que deseja aos Seus discípulos. Em termos práticos, que sejam a luz que ilumina a escuridão, mostrando o caminho seguro a seguir sem tropeçar nos obstáculos encobertos pelas trevas.
Em sentido filosófico, trata-se da luz que expõe a verdade, rompendo as algemas da ignorância que torna as pessoas reféns de todas as espécies de manipulações.
Ser a luz do mundo não é, portanto, uma simples metáfora. É o momento crucial da escolha certa.
É o momento que coloca o indivíduo às claras diante do confessionário da própria consciência. É a sabedoria que compreende que o certo é o certo; que o justo é justo.
Como a principal luz do mundo, Jesus Cristo se dedicou por inteiro às pessoas. E também deixou esse legado à humanidade: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus.” (Mateus 5:16)
Ser “sal da terra e luz do mundo” é, em sentido completo, um convite permanente para ser o diferencial, buscando e vivendo a verdade, promovendo a justiça ética e elegendo o amor como princípio de respeito humano.
Mas, atenção: Jesus também deixou uma interrogação inquietante: "Se o sal perder o seu sabor, com o que se há de salgar?" (Mateus 5:13).
Agora, a reflexão e a resposta são suas, caro leitor.
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