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Nem sempre Davi vence Golias

Patrícia Caetano

Toda Copa do Mundo nos faz acreditar novamente. Não importa quantos anos passem, quando a Seleção Brasileira entra em campo, levamos conosco muito mais do que uma camisa amarela. Levamos a memória de um país que aprendeu a sonhar através do futebol. Carregamos as lembranças de Pelé, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, Marta e tantos outros que transformaram vitórias em parte da nossa identidade. Talvez seja por isso que cada derrota doa tanto. Ela não fere apenas o placar; ela confronta as expectativas que construímos.

Nesta Copa, ouvimos inúmeras vezes a comparação entre Davi e Golias. A metáfora desperta esperança porque nos lembra que nem sempre a força vence, que a estratégia pode superar o favoritismo e que o improvável também encontra espaço para acontecer. Mas existe uma lição que raramente queremos aceitar: nem sempre Davi ganha de Golias.

Talvez porque, na maioria das vezes, o verdadeiro Golias não seja o adversário. Ele se chama expectativa. Esperamos que cada nova geração da Seleção Brasileira reviva o brilho das gerações que encantaram o mundo. Entramos em campo carregando cinco estrelas no peito, lembranças de grandes ídolos e a certeza de que o passado será suficiente para garantir o futuro. Esquecemos que o futebol evoluiu, que o mundo mudou e que cada geração precisa escrever a própria história. Comparar o presente com o passado é uma das formas mais rápidas de transformar admiração em frustração.

Curiosamente, fazemos a mesma coisa fora dos estádios. Criamos expectativas sobre as pessoas, sobre os relacionamentos, sobre os filhos, sobre os negócios e até sobre nós mesmos. Esperamos resultados extraordinários sem perceber que os desafios mudaram. Insistimos em enfrentar as batalhas de hoje com estratégias que deram certo ontem. E quando a realidade não corresponde ao que imaginávamos, chamamos isso de fracasso, quando talvez seja apenas o anúncio de um novo ciclo.

Toda decepção nasce do encontro entre a expectativa e a realidade. Não sofremos apenas porque perdemos. Sofremos porque acreditávamos que perder não fazia parte da nossa história. Mas perder também ensina. Toda derrota encerra um capítulo, mas também abre espaço para outro. O problema é que insistimos em permanecer na página que a vida já virou. Ficamos olhando para o que passou, tentando reviver tempos que cumpriram seu propósito, enquanto Deus nos convida a construir um futuro diferente.

A eliminação da Seleção não apaga sua história. Ela apenas nos lembra que nenhuma conquista do passado garante a próxima vitória. O sucesso de ontem inspira, mas não sustenta sozinho os desafios de hoje. É preciso evoluir, aprender, adaptar-se e, principalmente, ter humildade para recomeçar.

Talvez essa seja a maior conquista que esta Copa possa nos oferecer. Entender que nem sempre Davi ganha de Golias. Nem sempre venceremos as batalhas para as quais nos preparamos. Nem sempre os nossos planos acontecem como desejamos. Ainda assim, sempre teremos o poder de decidir o que fazer depois da derrota.

Podemos transformar uma perda em ressentimento ou em aprendizado. Podemos permanecer presos ao que acabou ou criar coragem para escrever um novo capítulo. No fim, as maiores vitórias não pertencem àqueles que nunca perderam. Pertencem àqueles que compreenderam que os ciclos mudam, que as expectativas precisam amadurecer e que recomeçar, muitas vezes, é a forma mais bonita de vencer.

PATRÍCIA CAETANO 
patymops@gmail.com 
@patyccaetano