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O.J.C. MORAIS

OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

PhD em Direitos Humanos e Democracia pelo IGC da Faculdade de Direito Coimbra; Doutor em Direito Social (PUC/SP) e Mestre em Direito Constitucional (UFPA); Idealizador-fundador e 1º presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (Cad. 01); Acadêmico perpétuo da Academia Paraense de Letras (Cad. 08), da Academia Paraense de Letras Jurídicas (Cad. 18) e da Academia Paranaense de Jornalismo (Cad. 29) e escritor amazônida. Contato com o escritor pelo Instagram: @oceliojcmorais.escritor

Somos mesmo criados à imagem e semelhança de Deus?

Océlio de Morais

A história registra um sem-número de casos de homens e mulheres extremamente violentos que se notabilizaram por crimes contra a humanidade, extermínios coletivos ou assassinatos em série. 

Não vou citar exemplos, poupando o leitor para evitar a reprodução do mal. Contudo, parto desses episódios para propor uma reflexão sobre duas perguntas recorrentes na existência: se fomos criados à imagem e semelhança de um Deus que é amor supremo, justiça e misericórdia, por qual razão a pessoa se revela com traços destrutivos e comete atos terríveis contra o seu semelhante?

E, paralelamente, o que dizer do questionamento de céticos e ateus: se Deus existe e é bom, por que permite a corrupção das autoridades, a miséria, as desigualdades e as guerras mortíferas?

Todo cristão dedicado a compreender a revelação divina conhece a declaração de Gênesis 1:26:

"Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança."

Mas em que consiste essa imagem? O Salmo 145 nos dá uma resposta ao exaltar a grandeza, a bondade e a justiça de Deus com a criação:

"Misericordioso e compassivo é o Senhor, tardio em irar-se e de grande misericórdia.  O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras.  Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras."

No Novo Testamento, a primeira carta de João complementa esse entendimento ao ressaltar a natureza espiritual e amorosa do Criador:

"Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus;  Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.  Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor..."

A semelhança com Deus não se refere a traços físicos, visto que "Deus é Espírito" (João 4:24). Essa realidade espiritual deve se manifestar de forma concreta no ser humano. 

No Novo Testamento, esse espelho encontra sua nitidez absoluta na pessoa de Jesus: Ele não é apenas alguém moldado à semelhança do Criador, mas a própria encarnação da glória invisível, o arquétipo em que a filosofia e a fé convergem. Ele é o "resplendor da sua glória e a expressão exata do seu ser" (Hebreus 1:3), mostrando que o infinito coube na finitude.

Isso nos leva à segunda questão: como o ser humano pode ter sido criado à semelhança de um Deus espiritual? 

Por ser Espírito de luz, Deus destina às pessoas os Seus próprios valores — o amor, a misericórdia, a bondade, a caridade e a justiça.

Contudo, isso  não significa que o indivíduo vá se tornar um Deus, mas, sim,  que o espírito que habita o corpo pode ser elevado ao reflexo do Criador. Jesus reforça essa dimensão espiritual quando afirma:

"E sereis até conduzidos à presença dos governadores, e dos reis, por causa de mim, para lhes servir de testemunho a eles, e aos gentios. Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer. Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós." (Mateus 10:18-20)

Assim, chegamos ao terceiro ponto: se Deus é bom, por que permite tanta tragédia e tirania no mundo? 

O Criador não comete nem compactua com a injustiça.  O  Salmo o Salmo 145:9 aponta  que o  agir  do Criador Seu é regido pelo amor pleno. "O Senhor é justo em todos os seus caminhos e santo em todas as suas obras. O Senhor é bom e justo para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras".

E  a primeira carta de João desdobra essa dimensão: vemos que o Seu agir é regido pelo amor pleno. A primeira carta de João desdobra essa dimensão:

"Nisto se manifestou o amor de Deus a nós: em que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que vivamos por meio dele a generosidade e o amor. Deus é amor; e quem abita em amor abita em Deus, e Deus nele. No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor."  (1 João 4:9, 16, 18)

Esse amor afasta qualquer tentativa de atribuir ao Criador a responsabilidade pela corrupção humana.

 O ditado popular "não cai uma folha da árvore sem a permissão de Deus" expressa a ideia de soberania, mas não significa que Ele aprove a maldade. É aqui que entra o livre-arbítrio.

A liberdade humana aparece desde Gênesis 2:16-17, na escolha da árvore proibida; passa por Mateus 22:37, ao colocar o amor a Deus como decisão consciente; e alcança Romanos 1:28:

"E como desprezaram o conhecimento a respeito de Deus, o próprio Deus os abandonou e deixou que seguissem seus maus pensamentos para fazerem aquilo que não se deve fazer."

A teologia cristã articula a  relação entre a soberania divina e o livre-arbítrio,  buscando harmonizar o domínio de Deus com a responsabilidade moral do indivíduo. A liberdade humana garante que as escolhas sejam reais, e não meras ilusões teatrais. 

A soberania de Deus não anula essa liberdade, mas a fundamenta: Deus optou por criar seres capazes de escolher e amar de verdade.

Portanto, não se pode colocar na conta de Deus os desvios éticos da humanidade. O ser humano recebeu faculdades especiais — racionalidade, moralidade, livre-arbítrio, criatividade e capacidade de amar — para gerir o mundo:

"Deus abençoou o primeiro homem e a primeira mulher e disse para eles terem filhos, encherem a terra, cuidarem do planeta e dominarem os animais." (Gênesis 1:28)

Jesus encerra qualquer controvérsia sobre a suposta permissividade divina ao estabelecer o princípio da dignidade humana em Mateus 22:39: "amar ao próximo como a si mesmo". 

Esse mandamento exige adotar a empatia e a compaixão como régua ética, reconhecendo no outro a mesma dignidade ontológica que dedicamos a nós mesmos.

 
MORAIS, OJC.
PhD em Democracia e Direitos Humanos (IGC/CDH, instituto associado à Universidade de Coimbra e à FDUC através de protocolos de cooperação institucional.).Doutor em Direito (com ênfase ao princípio da proteção social)  pela  puc/sp; Mestre em Direito pela UFPA, e Acadêmico Perpétuo da APL, da APLJ, da APJ e da ABDSS. Escritor brasileiro.

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Océlio de Morais
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