Somos mesmo criados à imagem e semelhança de Deus? Océlio de Morais 01.09.26 13h35 A história registra um sem-número de casos de homens e mulheres extremamente violentos que se notabilizaram por crimes contra a humanidade, extermínios coletivos ou assassinatos em série. Não vou citar exemplos, poupando o leitor para evitar a reprodução do mal. Contudo, parto desses episódios para propor uma reflexão sobre duas perguntas recorrentes na existência: se fomos criados à imagem e semelhança de um Deus que é amor supremo, justiça e misericórdia, por qual razão a pessoa se revela com traços destrutivos e comete atos terríveis contra o seu semelhante? E, paralelamente, o que dizer do questionamento de céticos e ateus: se Deus existe e é bom, por que permite a corrupção das autoridades, a miséria, as desigualdades e as guerras mortíferas? Todo cristão dedicado a compreender a revelação divina conhece a declaração de Gênesis 1:26: "Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança." Mas em que consiste essa imagem? O Salmo 145 nos dá uma resposta ao exaltar a grandeza, a bondade e a justiça de Deus com a criação: "Misericordioso e compassivo é o Senhor, tardio em irar-se e de grande misericórdia. O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras. Justo é o Senhor em todos os seus caminhos, e santo em todas as suas obras." No Novo Testamento, a primeira carta de João complementa esse entendimento ao ressaltar a natureza espiritual e amorosa do Criador: "Nisto conhecereis o Espírito de Deus: Todo o espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor..." A semelhança com Deus não se refere a traços físicos, visto que "Deus é Espírito" (João 4:24). Essa realidade espiritual deve se manifestar de forma concreta no ser humano. No Novo Testamento, esse espelho encontra sua nitidez absoluta na pessoa de Jesus: Ele não é apenas alguém moldado à semelhança do Criador, mas a própria encarnação da glória invisível, o arquétipo em que a filosofia e a fé convergem. Ele é o "resplendor da sua glória e a expressão exata do seu ser" (Hebreus 1:3), mostrando que o infinito coube na finitude. Isso nos leva à segunda questão: como o ser humano pode ter sido criado à semelhança de um Deus espiritual? Por ser Espírito de luz, Deus destina às pessoas os Seus próprios valores — o amor, a misericórdia, a bondade, a caridade e a justiça. Contudo, isso não significa que o indivíduo vá se tornar um Deus, mas, sim, que o espírito que habita o corpo pode ser elevado ao reflexo do Criador. Jesus reforça essa dimensão espiritual quando afirma: "E sereis até conduzidos à presença dos governadores, e dos reis, por causa de mim, para lhes servir de testemunho a eles, e aos gentios. Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer. Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é que fala em vós." (Mateus 10:18-20) Assim, chegamos ao terceiro ponto: se Deus é bom, por que permite tanta tragédia e tirania no mundo? O Criador não comete nem compactua com a injustiça. O Salmo o Salmo 145:9 aponta que o agir do Criador Seu é regido pelo amor pleno. "O Senhor é justo em todos os seus caminhos e santo em todas as suas obras. O Senhor é bom e justo para todos, e as suas misericórdias estão sobre todas as suas obras". E a primeira carta de João desdobra essa dimensão: vemos que o Seu agir é regido pelo amor pleno. A primeira carta de João desdobra essa dimensão: "Nisto se manifestou o amor de Deus a nós: em que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que vivamos por meio dele a generosidade e o amor. Deus é amor; e quem abita em amor abita em Deus, e Deus nele. No amor não há temor, antes o perfeito amor lança fora o temor." (1 João 4:9, 16, 18) Esse amor afasta qualquer tentativa de atribuir ao Criador a responsabilidade pela corrupção humana. O ditado popular "não cai uma folha da árvore sem a permissão de Deus" expressa a ideia de soberania, mas não significa que Ele aprove a maldade. É aqui que entra o livre-arbítrio. A liberdade humana aparece desde Gênesis 2:16-17, na escolha da árvore proibida; passa por Mateus 22:37, ao colocar o amor a Deus como decisão consciente; e alcança Romanos 1:28: "E como desprezaram o conhecimento a respeito de Deus, o próprio Deus os abandonou e deixou que seguissem seus maus pensamentos para fazerem aquilo que não se deve fazer." A teologia cristã articula a relação entre a soberania divina e o livre-arbítrio, buscando harmonizar o domínio de Deus com a responsabilidade moral do indivíduo. A liberdade humana garante que as escolhas sejam reais, e não meras ilusões teatrais. A soberania de Deus não anula essa liberdade, mas a fundamenta: Deus optou por criar seres capazes de escolher e amar de verdade. Portanto, não se pode colocar na conta de Deus os desvios éticos da humanidade. O ser humano recebeu faculdades especiais — racionalidade, moralidade, livre-arbítrio, criatividade e capacidade de amar — para gerir o mundo: "Deus abençoou o primeiro homem e a primeira mulher e disse para eles terem filhos, encherem a terra, cuidarem do planeta e dominarem os animais." (Gênesis 1:28) Jesus encerra qualquer controvérsia sobre a suposta permissividade divina ao estabelecer o princípio da dignidade humana em Mateus 22:39: "amar ao próximo como a si mesmo". Esse mandamento exige adotar a empatia e a compaixão como régua ética, reconhecendo no outro a mesma dignidade ontológica que dedicamos a nós mesmos. MORAIS, OJC. PhD em Democracia e Direitos Humanos (IGC/CDH, instituto associado à Universidade de Coimbra e à FDUC através de protocolos de cooperação institucional.).Doutor em Direito (com ênfase ao princípio da proteção social) pela puc/sp; Mestre em Direito pela UFPA, e Acadêmico Perpétuo da APL, da APLJ, da APJ e da ABDSS. Escritor brasileiro. Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas océlio de morais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. 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