Promessa de rei, seja qual for a motivação, justifica uma cabeça numa bandeja? Océlio de Morais 26.08.25 9h52 E Herodes Antipas, depois que se encantou pela beleza da Jovem Salomé, disse-lhe, sem cerimônias, para que todos os convidados da sua festa de aniversário ouvissem: "Peça-me qualquer coisa que você quiser, e eu lhe darei". nE prometeu-lhe sob juramento: "Seja o que for que me pedir, eu lhe darei, até a metade do meu reino", conforme relatou o evangelista Marcos (6: 22-23). Recorde-se: por sugestão da mãe, Herodíades – que tinha um caso amoroso com Antipas, apesar de ser mulher de Filipe, irmão de Herodes – a jovem Salomé disse ao rei, ainda segundo Marcos (6:25): "Desejo que me dês agora mesmo a cabeça de João Batista num prato". João Batista já estava preso por ordem de Herodes, aguardando o julgamento. É que o rei não gostou da admoestação moral de João Batista: "Não te é permitido viver com a mulher do teu irmão" Por isso – conforme (Marcos: 5: 18-19) –Herodíades o odiava e queria matá-lo. Mas não podia fazê-lo”. Ao reler, na Bíblia Sagrada, esse crime bárbaro, cometido por um rei – portanto, uma autoridade que deveria ser a primeira a respeitar as leis, a não cometer crimes e a ser justo com o povo – fiquei a pensar sobre as incontáveis e quase infinitas interpretações que os milhares de bilhões e bilhões de pessoas já fizeram, até os dias atuais, sobre este episódio bíblico, desde que o livro de Marcos foi escrito e desde que ele foi inserido no Novo Testamento. Um parêntesis: Não há uma data exata, mas estima-se que Marcos – um dos discípulos de Jesus – escreveu o evangelho que leva o seu nome entre os anos 50 e 70 d.C, mas somente com as decisões dos concílios de Hipona (393 d.C.) e os de Cartago (397 e 419 d.C.) é que foi incluído no Novo Testamento. Fecho o parêntesis. A perspectiva reflexiva desta crônica teológica - bem diferente daquela que comumente é feita quanto à manipulação perversa de Herodíades, a prepotência soberba de Herodes e a ingenuidade sedutora de Salomé – está relacionada à seguinte questão de ordem moral: deve, um Rei, tão somente porque é rei, manter a palavra empenhada ou a promessa feita, como foi no caso de Herodes? E sobretudo quando a palavra empenhada revela-se impossível de ser cumprida? Ou quando a promessa mostra-se insustentável, porque pode prejudicar direitos e a vida de terceiros? Herodes – apesar de rejeitar as críticas de João Batista ao seu caso amoroso com a mulher de seu irmão e por isso odiá-lo – tinha um temor reverencial pelo profeta, porque acreditava que ele era o profeta Elias, ressuscitado: "João Batista ressuscitou dos mortos! Por isso estão operando nele poderes miraculosos". Outros diziam: "Ele é Elias". E ainda outros afirmavam: "Ele é um profeta, como um dos antigos profetas". (Marcos, 6: 14-16). Por isso, ele hesitou quando Salomé lhe pediu a cabeça de João Batista como prêmio-recompensa pela dança sedutora e pelos possíveis favores amorosos que poderia ter com o enteado. Mas, Herodes não queria passar para a história como um rei sem palavras – e na plenitude de sua arrogância, prepotência, soberba e vaidade – cedeu à trama diabólica de Herodíades. E, assim, a cabeça do profeta (0 primo direto de Jesus Cristo) foi entregue na bandeja para Salomé. A palavra ou a promessa dadas podem revelar muito do caráter da pessoa. Mesmo hesitando, Herodes preferiu ser fiel à sua promessa, fato que, aparentemente, pode até parecer coerência. No entanto, a se considerar que a promessa decorreu da validade, da lascívia e da prepotência – "Peça-me qualquer coisa que você quiser, e eu lhe darei" (...) "Seja o que for que me pedir, eu lhe darei, até a metade do meu reino" – para obter favores amorosos da jovem Salomé, pode-se considerar que nem sempre a palavra ou a promessa devem ser mantidas, se a implementação da promessa trouxe prejuízos a terceiros prejuízos de qualquer ordem, inclusive a morte. Isso quer dizer que a promessa do Rei também pode ser desfeita, mas tal não representa que o monarca seja homem sem palavra ou que seja fraco e medroso. Pelo contrário, se Herodes tivesse quebrado a promessa, apenas poderia perder um prazer amoroso, mas ganharia a fama de rei justo e bondoso. Ao mandar decapitar João Batista, para cumprir a promessa e se mostrar forte, Herodes entrou para a história como rei frívolo e prepotente – Rei que, com todo o seu poder intocável, poderia tirar a vida de qualquer um, com um simples aceno de mão. Esse episódio bíblico mostra que a prudência e sabedoria – não apenas ao Rei, mas qualquer autoridade e para qualquer pessoa nos dias atuais– devem ser as conselheiras das reflexões e das decisões, antes de qualquer promessa a ser feita. E ainda que a promessa seja feita, se a sua implementação projetar prejuízos a terceiros, não consistirá ato de covardia, mas revelará gesto de nobreza e de justiça revê-la. O Rei não deve – ao contrário do que um dia disse Maquiavel – ser mais temido do que amado, pois o monarca (ou autoridade) tirânica fica preso à sua própria arrogância, à própria prepotência e à própria tirania, enquanto que o monarca sábio e prudente será lembrado como justo, e terá como triunfo o respeito e o amor do povo. ATENÇÃO: Em observância à Lei 9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.; Instagram: oceliojcmoraisescritor Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave colunas océlio de morais ocelio de morais COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado! 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