Do show do Coldplay ao Sermão da Moinha Ocelio de Morais 21.04.26 8h00 Seu maior desejo é ir ao show de rock alternativo da banda Coldplay. E lá você quer apenas um segundo para, se possível, um toque na mão e, quem sabe, uma selfie com o líder da banda, o vocalista Chris Martin. Você faz de tudo e realiza o sonho. Seu sonho temporal foi realizado. O abraço e a fotografia entrarão para a história de sua memória afetiva. Agora, imagine-se transportado para um dos momentos épicos dos tempos de Jesus: uma máquina do tempo que o leva ao ano 32 ou 33 d.C., antes de sua crucificação. Pense que você foi deixado ao pé do Monte Eremos, aquele que, depois do Sermão da Montanha, passou a ser conhecido como Monte das Bem-Aventuranças, localizado na Galileia, próximo ao Mar da Galileia, entre Cafarnaum e Tabgha. Ao pé daquela montanha, você é como os cinco mil famintos, mas também um privilegiado por presenciar o milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. E, mais do que presenciar, você também come e sacia a fome. De repente, quando você ouve Jesus proclamar (sem microfone, sem alto-falante, sem sistema de som) a sexta e a décima bem-aventuranças — “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos” (Mateus 5:6); “bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5:10) —, duas perguntas inquietantes o consomem: — A que justiça Jesus, como mestre das metáforas, se refere para que os bem-aventurados saciem a fome e a sede? Você fica angustiado, porque a resposta não vem de imediato. Seu pensamento permanece apegado à justiça retributiva humana. Incrível! Você está lá, participando daquele momento histórico, mas ainda não está inteiramente conectado — como esteve no show da banda Coldplay —, com o propósito do maior e mais extraordinário mestre das parábolas. Pense comigo: ao adotar como metáfora duas necessidades humanas básicas (fome e sede), Jesus as associa à justiça — valor ético fundamental das relações sociais — para chamar a atenção de que a mais importante fome e sede de justiça é a espiritual, pois está alicerçada no amor e na graça divina. Você continua lá, ao pé da montanha das bem-aventuranças, tentando decifrar o enigma da décima metáfora. Então surge outra inquietação, ainda mais intensa: será mesmo necessário sofrer perseguição por causa da justiça para ser bem-aventurado e alcançar o Reino dos Céus? Sua cabeça — e confesso que comigo já aconteceu isso — entra em parafuso: será que, para ser merecedor do Reino dos Céus, o Criador primeiro permite o sofrimento e, depois, conforme a nossa resiliência, concede o prêmio da justiça divina? Aliás, essa inquietação era constante na minha imaginação nos tempos de seminário. Hoje compreendo — porque o tempo de reflexão foi decisivo para entender a condição material e espiritual de cada pessoa — que Jesus não estabelecia o sofrimento humano como pré-requisito para a bem-aventurança e para o Reino dos Céus. Se assim fosse, ele teria sido um profeta do sofrimento, e não das bem-aventuranças. Pois bem: você ouviu atentamente as bem-aventuranças e refletiu sobre a sexta e a décima. Ali não foi um show, e você não fez uma selfie com Jesus. Mas concluiu que a metáfora sobre os perseguidos por causa da justiça é atemporal: Cristo apontou para a necessidade de vivermos de acordo com valores espirituais, conectados a Deus, em um mundo que frequentemente se opõe a eles e ainda coloca a materialidade como o maior valor da vida. E agora a cápsula do tempo o traz de volta ao século XXI, com o desejo de ser um bem-aventurado que não viola os valores éticos da vida, mas também consciente — e espiritualmente fortalecido —, de que poderá sofrer perseguições por defender sua fé e sua esperança em Deus. Assine O Liberal e confira mais conteúdos e colunistas. 🗞 Entre no nosso grupo de notícias no WhatsApp e Telegram 📱 Palavras-chave ocelio de morais colunas pensata COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA Océlio de Morais . Desculpe pela interrupção. Detectamos que você possui um bloqueador de anúncios ativo! Oferecemos notícia e informação de graça, mas produzir conteúdo de qualidade não é. Os anúncios são uma forma de garantir a receita do portal e o pagamento dos profissionais envolvidos. Por favor, desative ou remova o bloqueador de anúncios do seu navegador para continuar sua navegação sem interrupções. Obrigado! ÚLTIMAS EM OCÉLIO DE MORAIS pensata Do show do Coldplay ao Sermão da Moinha 21.04.26 8h00 pensata Faz algum sentido perdoar quem nos faz tanto mal? 07.04.26 8h00 Océlio de Morais Justo é aquele que busca a verdade como luz ética 17.03.26 9h07 Océlio de Morais Assim eles morreram, pelas virtudes 03.03.26 9h03