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OCÉLIO DE JESÚS C. MORAIS

Pós-doutor em Direitos Humanos e Democracia pela IGC da Faculdade de Direito Coimbra, doutor em Direito (PUC/SP) e mestre em Direito Constitucional (UFPA); presidente da Academia Brasileira de Direito da Seguridade Social (ABDSS), escritor, poeta e cronista.

Eu queria poder aprisionar as asas do tempo

Océlio de Jesús C. Morais

A fugacidade e a velocidade do tempo sempre  mexeram com o imaginário dos sábios, especialmente, os físicos, os filósofos e os poetas. Ontem e hoje, e também amanhã, o tempo que os calendários marcam  o  tempo que os relógios registram avisam a toda fração de segundos que ele é  inapreensível.

Só mesmo Kairós (o deus do tempo oportuno) e Cronos (o  deus do tempo, destrutivo), mas apenas na antiga mitologia grega, tinham o domínio do tempo.

Porém, na real, a fugacidade e a velocidade do tempo mostram que a gente não passa por ele; antes, ele nos puxa ao segundo seguinte, que se soma aos minutos, às horas, aos dias, às semanas, aos meses e aos anos  daquilo que, em relação ao segundo anterior, já está no passado de nossas existências. 

O sábio rei Salomão, quando escreveu Eclesiastes, entre 450 e 180 a. C, queria refletir sobre o sentido da vida e sobre a  sua melhor forma de viver.

Queria mostrar que o tempo da existência feliz vinha acompanhado da sabedoria em aproveitar o tempo para  plantar e pra colher, porque, “para tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo propósito debaixo do Céu'' (Eclesiastes, 3).

Sócrates e Platão, lá do alto de suas sapienciais inteligências, lidavam bem com o tempo. Sócrates, por exemplo, insinuava que o tempo tinha olhos e ouvidos, e não guardava segredo de ninguém. Por isso, sempre recomendava aos seus discípulos: “Não procures esconder nada; o tempo vê, escuta e revela tudo”.

E Platão, o aluno predileto de Sócrates - ainda hoje todo professor tem ou quer ter um ou vários  alunos prediletos para dar continuidade às suas ideias -  dizia aos seus alunos que “o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”.

Por outras palavras, se entendi bem, Platão queria despertar para o sentido de  que o tempo da vida (que é móvel) conduz à  morte (que é  a “eternidade imóvel”).

E certamente Sêneca, o Moço, deve ter lido e refletido profundamente sobre essas mensagens, visto que também deixou seu recado sobre o tempo: “Apressa-te a viver bem e pensa que cada dia é, por si só,  uma vida.”

O conselho apresse-se para viver bem chama a atenção para viver uma vida de valor  (ético), sem fazer mal a ninguém, sem ser  invejoso (pois este é um mal  autodestrutivo que mortifica a alma) e sem ser egoísta, vício terrível que torna a pessoa mesquinha e ensimesmada em sua  falível  poltrona ou redoma  de poder. 

Já a mensagem que diz que “por si só, um dia é uma vida” passa, de imediato, aquela ideia do carpe diem  (aproveite o dia, aproveite ao máximo o presente), usada pelo poeta Horácio no Livro I de “Odes, quando se dirige à amiga Leucone.  Mas também quer passar a ideia de que o tempo à existência feliz é construído dia a dia, pois o amanhã é uma incógnita e a vida é frágil como uma vela acesa às intempéries das asas do tempo.

Confesso que eu sempre tenho sede  e fome de mais tempo, da experiência e da sabedoria que o tempo oferece e, aqui e acolá, eu me pergunto:  “Qual o tempo dedicado à felicidade?  Algumas respostas apontam que  o meu tempo tem  recebido muitas bênçãos; contudo,  tenho dúvidas se o meu tempo da contrapartida tem sido suficiente ou equivalente às bênçãos.

Essa é uma das razões  que justifica o meu desejo de querer  aprisionar  as asas do tempo e se eu encontrasse o gênio da lâmpada mágica de Aladdim, aquele “Ser” incorpóreo que atende aos impossíveis da imaginação humana,  iria lhe fazer três pedidos:

O primeiro pedido é este: aprisionar  as asas do tempo para que o tempo não seja tão apressado, isto é, retire o pé do acelerador e, nesse tempo menos acelerado, a gente pudesse ver  e viver a vida com mais suavidade, a partir da beleza singular das coisas mais simples que perfumam nossa existência. 

Ir ao futuro (e, óbvio, voltar) nas asas do tempo, para  saber quais os bons ou maus frutos do tempo do meu plantio, seria o segundo pedido.

Nessa viagem ao futuro,  queria  saber, de modo antecipado ao presente, se haverá  tempo de sorrir e de chorar;  tempo de abraçar e tempo de afastar-se; tempo de amar e tempo de aborrecer; tempo de guerra e tempo de paz; e como será o tempo de  minha morte.

O terceiro e último pedido ao gênio da lâmpada seria este: dê-me uma cópia da chave-mestra do tempo para compreender melhor a arte da sabedoria do tempo.

E,  com ela, ajudar abrir portas impossíveis  da ignorância e dizer, como disse Francisco de Assis, o Santo da humildade e da simplicidade: 

- Onde houver Ódio, que eu leve o Amor;
- Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão;
- Onde houver discórdia, que eu leve a União;
- Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé;
- Onde houver Erro, que eu leve a Verdade;
- Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança;
- Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria;
- Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!

Aqui, na minha pequenez  universal , penso  sobre o tempo  e a felicidade e já  lancei  essa reflexão aos meus leitores, no meu livro de poemas “Das coisas Humanas", na página 76, cuja segunda estrofe é a seguinte: 

- Falta de tempo não há;
- Há tempo dentro do tempo;
- O tempo todo, ali e acolá;
- Há uma vida inteira de tempo…

Mas isso é pouco e nem sei se isso é suficiente dentro do pouco, pois o sentimento do poeta é  o fruto do seu tempo de reflexão, de paixão ou do tempo do amor às lições do tempo.

PS. Todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma CARNEIRO M, Océlio de Jesus e respectiva fonte de publicação. 

Océlio de Morais
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