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Assim eles morreram, pelas virtudes

Océlio de Morais

Os mitos gregos representam o poder dos deuses  – aquelas divindades antropomórficas do Monte Olimpo, personificando sentimentos humanos e forças da natureza – e dos semideuses (os filhos de uma divindade com um mortal). Eram imortais  e  reverências. 

Os superpoderosos super-heróis, nos tempos modernos,  são mitos que substituem as antigas divindades, com uma filosofia multifacetada, que também reflete os turbilhões dos  dilemas éticos-morais nas relações humanas.  

As divindades antropomórficas e personalidades complexas,  apesar da imortalidade, também tinham suas fragilidades corrompidas – corrupção da natureza “imortal”, personificada nos sentimentos de ciúme, inveja, soberba, rancor, vingança, fúria, ira,  e abuso de poder.

Os super-heróis da modernidade são arquétipos da correção moral,  modelo de virtudes em um mundo injusto e, por isso, representam a esperança para uma sociedade justa. Vivem em permanentes lutas contra o forte sistema corrompido e habitado pelo igualmente superpoderoso anti-herói. O super-herói se baseia e defende os valores éticos que promovem a justiça e a igualdade. O anti-herói, por não respeitar as barreiras éticas, corrompe as regras éticas e as leis.

Ela não se baseia apenas no poder físico, mas em um conjunto de valores éticos que promovem o altruísmo, a justiça e a proteção dos vulneráveis.

Agora vamos imaginar, se nos dias atuais, vivessem o profeta João Batista, o apóstolo  Paulo, os filósofos Sócrates e  Thomas More. Pelo modo que escolheram e viveram no caminho das virtudes, e por elas morreram, certamente seriam nossos super-virtuosos.

Isso leva-me a pensar que ser preso, açoitado e morto por apego à virtude não é para qualquer um. É algo realmente para um super-virtuoso.  E não, e jamais, para um algo para um super-corrupto. 

Ser preso, torturado e morto por apego à virtude é um ato de extrema sublimação e de desapego material, que vence o medo em nome da nobilíssima causa – a causa que transcende ao individual e serve de exemplo virtuoso  para a humanidade.

 Esta  crônica sobre ética e virtude  quer mostrar exemplos de homens super-virtuosos. A história registra diversos casos reais  – casos que, aos olhos de hoje, é possível compreender melhor a dimensão humana desses mártires das virtudes.

– (1) O caso do assassinato do profeta João Batista foi emblemático:  teve a cabeça decapitada e servida numa bandeira para Salomé e à sua mãe, Herodias, por ordem de Herodes. Seu crime? Nenhum. Apenas desaprovou o adultério de  Herodes Antipas com Herodíades, a esposa de seu próprio meio-irmão, Herodes Filipe.

– (2) E, Pedro, o líder dos apóstolos, foi martirizado por ter sido fiel a Jesus. O apóstolo Pedro foi crucificado de cabeça para baixa por ordem de Imperador romano Nero, o  homem sanguinário que ordenou o incêndio de Roma para culpar os cristãos, além de ter sido  o  mentor da execução da própria mãe, Agripina Menor.

– (3) Paulo, antes Saulo de Tarso, também foi decapitado, por ordem de Nero). Seu “crime” foi desafiar o sistema romado com as mensagens de paz de Jesus.

– (4) Outra vítima da morte violenta, simplesmente por ter amor à virtude,  foi a do discípulo  Bartolomeu. Por propagar a mensagem renovadora de Jesus,  enfrentou o  "sofrimento extremo": ele foi esfolado vivo – a pele arrancada –  e decapitado na Armênia. 

– (5) Lucas, o  apóstolo de Jesus, pendurado e martirizado numa árvore até morrer. Sua culpa mortal para o sistema romano de então? Ser fiel apóstolo de Jesus.  

– (6)  Thomas More, foi outro mártir da coragem e da coerência.  O filósofo londrino  foi decapitado  e  ainda teve a cabeça exposta por 30 dias na ponte de Londres, por ordem do Rei Henrique VIII. 

E seu crime, qual foi, para o sistema da época? Recusou-se  a reconhecer o Rei Henrique VIII como líder supremo da Igreja Anglicana  e por não  reverenciar  Ana Bolena, a segunda esposa de Henrique VIII – a mesma que foi executada por decapitação sob acusações de traição e adultério.

– (7) E, Sócrates, o principal e mais importante filósofo grego, qual o seu crime para ser condenado a tomar cicuta?   

Nesta pensata sobre a  nobreza da virtude – os casos referidos são emblemáticos para todo o sempre  –  dedica-se maior atenção às  mortes de dois  filósofos pela auto-morte,  assim condenados porque foram fidedignos aos ensinamentos relativos à valorização da vida pessoal, ao respeito às pessoas e às relações sociais daqueles tempos. 

Na Roma antiga existiram dois Sêneca: o “Velho” e o “Moço”.  Marco Aneu Sêneca, o “velho” (ano 54 a.C a 39 d. C), foi o orador e retórico, o pai de Sêneca, o “Moço, (ano 4 A.c a 65 d.C)”, chamado Lúcio Aneu Sêneca, nascido em Córdoba.

Essa distinção é oportuna para que não se confundam – entre os dois Sêneca –  qual deles foi condenado  a cometer o suicídio. 

Literato e  filósofo  estóico, Sêneca (o “Moço”) foi o principal conselheiro de Nero – aquele que tornou-se imperador, a partir dos 17 anos,  não por ser filho direito do Imperador Tibério Cláudio César Augusto Germânico – que  o nomeia sucessor –, mas, sim,  por ser filho de Júlia Agripina Menor, a imperatriz-consorte, bisneta  do Imperador César Augusto, o primeiro imperador Romano.

Como todo poder tem suas  redes e teias perigosas e, também, projeta consequências imprevisíveis, com Sêneca (o “Moço”) não foi diferente.  

Sua auto-morte (suicídio) decorre daquelas redes e teias perigosas  do poder romano, o poder corrompido por todas as formas e expressões.  

Primeiro,  Sêneca (o “Moço”) foi exilado para Córsega – uma espécie de fim de mundo na Roma antiga – acusado de cometer adultério  com  Júlia Lívia, filha do imperador Tibério Cláudio César Augusto Germânico.

 Mas, por influência de Agripina Menor,  foi permitido o seu retorno à  cidade de Roma –  Agripina Menor, a mesma  mulher que o indicou  para exercer o cargo de  principal conselheiro do seu filho, Nero, o sanguinário imperador que, mais tarde,  executou a mãe,  um meio-irmão e outros membros da família,  porque se sentia ameaçado por eles. 

Na sequência, veio a condenação  de Sêneca (o “Moço”) à auto-morte. Afinal, quem desagrada e desafia o poder não fica impune.  Assim também aconteceu com o filósofo e a esposa. 

Acusado de conspirar contra o trono, o imperador Nero –  mesmo sem provas e sem julgamento –  esqueceu as virtudes  e os ensinamentos do ex-mestre e o condenou à auto-morte  (o suicídio). 

Isso aconteceu  também porque  Sêneca (o “Moço”)  – após a morte do imperador Tibério Cláudio César Augusto Germânico –  criticou o autoritarismo de Nero e por ter afirmado que o imperador era rejeitado pelo povo e pelos deuses, conforme relatado na sua  obra "Transformação em  abóbora do divino Cláudio".

O Senado romano não se insurgiu contra a condenação do filósofo. E Sêneca, o “Moço”, na presença de amigos, cortou as veias do punhos (e a esposa  dele também). Em seguida, sufocou-se num banho a vapor. Nero, por sua vez, cometeu o suicídio no ano 68 d.C.

Com Sócrates (470 a.C.-399 a.C) –  portanto, bem antes de Sêneca – a morte também foi por suicídio inudzido. Mas,  distintamente das causas  imputadas a Sêneca, o filósofo “sábio dos sábios”  não manteve relações com o poder constituído  de sua época.

No livro Fédon (A imortalidade da Alma), Platão narra que Sócrates foi acusado e condenado (também sem provas) de corromper a juventude e profanar os deuses,  segundo constava na “Ata de Acusação”: “Sócrates comete crime corrompendo os jovens e não considerando como deuses os deuses que a cidade considera, porém outras divindades novas”. 

Como  todos os que se opõem à corrupção do poder são eliminados – assim registra a história também no caso de Jesus – Sócrates foi eliminado pelo sistema político da época. A condenação do filósofo grego, pelo tribunal ateniense, foi ao envenenamento. 

O maior filósofo grego de todos os tempos  – narra Platão na obra Apologia de Sócrates  – fez a própria defesa no tribunal e acusou o sofista Mileto de  caluniá-lo, de manipular as informações e o  próprio tribunal  para desacreditá-lo e condená-lo. 

A verdade – ela é identificada “Fédon” e em “Apologia” – é que Sócrates, com suas lições  e modos de vida virtuoso –  ensinava os jovens a não se corromper, condenava a corrupção dos sofistas,  do poder ateniense e  afirmava que os deuses não compactuam com a corrupção dos modos de vida e nem dos líderes do povo.

Sócrates aceitou o resultado da condenação, sem abdicar de suas convicções, tanto que recusou a chance de fuga que o carcereiro – a pedido de amigos e admiradores de Sócrates – havia prometido facilitar. Mas  o filósofo a recusou, justificando que, se fugisse, estaria negando as  virtudes que tanto ensinou e defendeu.  

Sócrates, ainda conforme a obra “Fédon” – ao ver os amigos chorando por sua causa –  pediu que se alegrassem, pois estava compartilhando com eles um “dia bem-aventurado”. 

 E também pediu em seguida: “tragam logo o veneno, se estiver pronto; senão, cuide de prepará-lo o encarregado disso. (...) Vamos, continuou: obedece- me e só faças o que eu digo.”

 Antes de tomar o veneno, conversou alegremente com seus amigos na prisão, perguntou ao carcereiro qual seria a dose necessária para provocar a morte, pediu para tomar banho (para não “dar trabalho às mulheres” para lavar e vestir seu cadáver) e, por último, pediu  um favor ao amigo  para pagar um dívida de um galo com Asclépio.

Ao beber o veneno, que lhe fora entregue por um menino numa taça, Sócrates – e como orientado pelo carcereiro –  deu algumas voltas na sela, sentiu as pernas pesadas, o coração acelerado, falta de ar e sensação de desmaio, finalmente deixou-se, pronunciando as últimas palavras:

– “Critão, exclamou Sócrates, devemos um galo a Asclépio. Não te esqueças de saldar essa dívida!”,  narra Platão em Fédon, destacando que “foram suas últimas palavras”, naquele finalzinho de tarde e início da noite, na  Colina Filopapos, em Atenas, num dia do ano 399 a.C.

Por certo, se tivesse aceitado o plano de fuga, Sócrates teria entrado para a história como um covarde e sua filosofia não teria contribuído para a evolução do pensamento filosófico sobre  as virtudes preciosas do humanismo. 

Jesus, João Batista, Paulo, Pedro, Lucas, Bartolomeu, Sêneca (o “Moço”), Sócrates e  Thomas More não são mitos.São super-heróis das virtudes. Deles, a  história registra a vida virtuosa como exemplos a serem seguidos, mas, por outro lado, o tempo não apaga os fatos da história  daqueles que se corrompem  pelo dinheiro e por tudo o que este decorre. 

A história perpetua as virtudes, assim como condena à perenidade a história daqueles que se deixaram corromper pelas coisas do mundo.  

Na virtude, repousa a tranquilidade da alma livre. Da corrupção das virtudes, se alimenta a mente e o coração corrompidos,  entorpecendo e tornando a  prisioneira do próprio veneno.

Assim, com os exemplos de vidas desses homens virtuosos,  encerro esta pensata com um excerto de meu livro “Liberdade filosófica”,  no ensaio intitulado “Sócrates e a Liberdade” (p. 13-15):

– “Sócrates levou às últimas consequências a liberdade de escolha ou o livre arbítrio, vinculado às duas regras inerentes à alma ou essência humana: a justiça e a moral, fora das quais não existirá liberdade verdadeira".

 

ATENÇÃO: Em  observância à Lei  9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.;  Instagram