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A Metafísica do Coração Íntegro

Océlio de Morais

Há mensagens que não apenas venceram  milênios — elas modificaram a humanidade e, nesse contexto,  elas também nos marcaram.

Esse é o caso da sexta beatitude do Sermão da Montanha  proferida por Jesus: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mateus, 5:8). Não se trata  de uma promessa vã: é uma espécie de diagnóstico da existência e também um compromisso assumido por quem nunca deixou de honrar a sua palavra: Jesus, o profeta e o filósofo de Deus.

A sexta bem-aventurança não fala de uma pureza ornamental,  para agradar os olhos, daquela que se exibe em retóricas literárias e recebem  aceitação das vitrines morais; antes, ela fala de uma transparência interior que poucos ousam encarar – a transparência  que somente o espelho da Alma pode refletir com  veracidade.

Os limpos e puros de coração – o desafio desse nível máximo exigido por Jesus para ver a Deus e  para ter um lugar dentre as suas inúmeras moradas celestiais  — é rigoroso e absolutamente difícil.  Reconhecer isso já é uma virtude. 

Mas quem são os puros e mansos de coração que verão a Deus? São os seres mais inocentes que vivem entre nós: as criancinhas, porque não tem maldades no coração e sua pureza é o paradigma que Jesus aponta como desafio aos adultos: “Jesus repreende os discípulos que tentavam impedir as crianças de se aproximarem, afirmando: "Deixai vir a mim os pequeninos [as criancinhas] e não os estorveis, porque dos tais é o Reino dos céus “ (Lucas 18:16).

E por que Jesus usa a  metáfora do “coração limpo e puro”? A razão é profunda, na  percepção  teológica:  ao contrário do  que se possa imaginar, coração não é o território das emoções  regiamente superficiais. Ele é o centro decisivo do ser — o lugar onde intenção, desejo e consciência se entrelaçam, fazendo as escolhas honestas  ou não.

A beleza do coração limpo é a luz da ética honesta. Portanto,  ser “limpo de coração” não é ser ingênuo, nem impecável.  Mas, numa dimensão teológica, é ser comprometido com a verdade que liberta (Jesus) e, numa perspectiva  filosófica,  é ser indiviso. É afastar as facilidades que a corrupção da natureza das coisas oferece com facilidade. É não viver rachado por dentro.

Para Jesus ter anunciado a bem-aventurança do “coração limpo”, é porque Ele conhecia profundamente as fissuras da natureza e da conduta humanas.

Por um olhar bem observador, é possível identificar que o ser humano tem inúmeras fissuras éticas nas relações sociais. Isso quer dizer que ninguém se apresenta como um “bloco íntegro”. E por quê? Porque as vontades humanas são voláteis e, nesse ambiente, o coração é um terreno cheio de rachaduras. Ele pode ser facilmente atraído pelas facilidades e pelas vantagens oferecidas , ainda que não sejam honestas.

Isso também indica que as fissuras éticas que corrompem mentes e  corações não surgem apenas  de grandes tragédias morais, mas também de pequenas concessões  cotidianamente repetidas: pela usura, que é uma forma  corrupção íntima pelo dinheiro e pelo poder; a mentira conveniente; a vaidade que se disfarça de virtude e cria a máscara social,  a qual promete ética, mas entrega corrupção; e a  cumplicidade ideológica com a injustiça.

Tal como  abalos sísmicos que vêm do coração da terra e promovem terremotos e tsunamis, as fissuras éticas provocam rachaduras nos corações, também  gerando a divisão moral. Não são fissuras isoladas. Integram o “combo” das mentes e dos corações corrompidos.

Nesse “combo” reside uma  fissura ética bem sutil e perigosa: a autojustificação, aquela narrativa construída para tolerar as próprias incoerências.

Essa fissura mortal do coração é terrível, porque –  além da escolha  corrompida –, perde-se  a capacidade de perceber o próprio  erro. É quando a consciência se torna  cega à verdade. E um coração cego não  vê a si próprio, e muito menos será capaz de  “vê a Deus”.

A usura ao dinheiro, que pode levar à venda da Alma ao poder, é um dos maiores facilitadores para  cativar um coração inseguro, porque a relação entre o poder e a corrupção se torna quase inseparável.

No ambiente da corrupção das coisas, o dinheiro e o poder são amplificadores. Tornam visível aquilo que já habita o coração: a miséria ética em que a vida está  enlameada.

Daí advém a dicotomia: um coração ético, ao lidar com recursos ou autoridade, tende à responsabilidade; por outro lado, um coração corrompido transforma esses mesmos elementos em instrumentos de dominação e vaidade.

A questão, portanro, não está no possuir, mas no ser possuído  pela promiscuidade do poder. E se aquele coração se tornou possuído, é porque a ética virtuosa também se tornou negociável.

Jesus,  então, percebendo essas frases humanas, lançou o desafio-promessa:  a beatitude do coração puro, igual ao da criancinha. Assim, o desafio teológico do coração limpo e puro  exige mais do que o namoro com a ética, ele quer uma  orientação radical do ser honesto consigo mesmo e com os demais.

Isso implica viver com honestidade.  Por outras palavras,  viver lutando contra as próprias falhas, erros ou desvios de conduta,  procurar  alinhar o que se é, o que se deseja e o que se faz com o coração puro.

Na prática, tal significa permitir  que a verdade  se aloje no coração puro  e seja  o “GPS  seguro” nas escolhas dos caminhos a percorrer.  Essa verdade é Jesus,  a ponte filosofal e espiritual entre a Terra e os Céus, que permite “Ver a Deus”, o que somente será possível quando o coração puro não está adormecido, opaco e nem cego.
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ATENÇÃO: Em  observância à Lei  9.610/98, todas as crônicas, artigos e ensaios desta coluna podem ser utilizados para fins estritamente acadêmicos, desde que citado o autor, na seguinte forma: MORAIS, O.J.C.;  Instagram