Faz de contas
Chegamos ao novo ano do calendário gregoriano envolvidos nas mesmas conceituações, que se repetem nas reflexões sobre o que se fez ou se deixou de fazer no ano que passou e nas promessas de que tudo vai ser diferente. Pretensões e pensamentos voam ao som dos poemas musicais de que “... este ano não vai ser igual aquele que passou ...” e até na conjugação de arrependimentos e projetos, contidos na mesma sigla da inteligência artificial mas significando, por exemplo “IA fazer regime” e coisas do gênero.
Questões pessoais e situações profissionais ocupam pensamentos e registros contábeis, num balanço em que as perdas e ganhos assumem a relevância correspondente a cada situação e a circunstâncias correspondentes. Contudo, na seara política, prevalece a máxima atribuída a Maquiavel, segundo a qual “os fins justificam os meios”, exercitada em tempos de caça ao eleitor, no vale tudo em que se empenham, principalmente, os pretendentes a cargos majoritários, quando as promessas estrelam as campanhas.
Com a chegada do novo ano de 2026, também chegamos a mais um ano eleitoral, movimentando partidos e candidatos a presidente da República, a governadores, a senadores e a deputados federais e estaduais em outubro vindouro. Tempos também propícios aos adivinhos e palpiteiros, no que pontificam os institutos de pesquisas, ainda sofrendo a desconfiança depois de erros monumentais em eleições recentes, implicando em mudanças de nomes de legendas embora com as mesmas caras e hábitos.
Constam do repertório político-eleitoral frases filosóficas e experiências comportamentais relacionadas àa práticas e constatações marcantes da atuação de lideranças e suas ações. Tancredo Neves teria falado da necessidade de um programa para ganhar eleição e outro para governar. O pensador alemão Otto von Bismarck alertou que "nunca se mente tanto, como antes das eleições, durante uma guerra e após uma caçada ou pescaria", superando a média de uma mentira a cada dez minutos.
Entram nesse rol os que faltam com a verdade por conveniência, autodefesa ou, principalmente, os pragmáticos. O ministro da comunicação "hitlerista", Joseph Goiebbels, “uma mentira, repetida mil vezes, com aparente convicção, adquire foro de verdade“. Perscrutadores da mente humana, como o pai da psicanálise Sigmund Freud, políticos mentem porque o povo se sente melhor assim, razão do uso compulsivo, para os quais a mentira tanto é inerente à política como é reflexo do próprio eleitorado.
Quaisquer sejam as motivações e circunstâncias, mentir faz parte do repertório da política, principalmente daqueles que se enquadram em alguma das modalidades. Mesmo os radicais ideológicos percebem claramente as mentiras, pela contradição expressa nas manifestações corporais de que trata "O Corpo Fala", livro no qual os autores Pierre Weil e Roland Tompakow, exploram a comunicação não-verbal. Como escreveu o poeta Affonso Romano de Sant´Ana, “mentem de maneira tão pungente que parecem que mentem sinceramente”. Faz de contas que se acreditou em tudo que disseram no ano passado e que tudo quanto prometido para o Novo Ano será verdade.
Linomar Bahia é jornalista e escritor, membro da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo
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