Em tempo de murici...
A grande questão destes tempos nebulosos, que tumultuam o país e estressam a vida nacional, poderia ser, simplesmente, aquela em que se procura saber como alguém, investido na função de julgador, quando posto sob suspeitas, poderá julgar algo dependente de seu julgamento. Quaisquer normas sociais e comportamentos éticos, que balizam o funcionamento de uma sociedade norteada pelos princípios básicos da moral e dos bons costumes, imporiam o selo da suspeição ou o próprio protagonista se declararia impedido. Todavia, não é o que se observa no Brasil estranho da atualidade.
Pelo contrário, têm acontecido, com inquietante persistência, iniciativas e condução de processos em que autores e acusados se confundem nos respectivos papéis processuais. Há havendo tramitações em que as funções litigantes são desempenhadas pelas mesmas partes, contaminando as causas e os desejáveis efeitos normais e provocando prejuízos individuais e coletivos, ao fragilizar e até invalidar a qualidade e a efetividade da prestação jurisdicional pretendida, constituindo um dos principais fatos geradores do que se convencionou denominar de “insegurança jurídica” que trava a vida nacional.
São situações capazes de criar o caos em ambientes públicos e privados pela carência do básico, resumido no adágio popular “em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão”, estabelecendo o descontrole emocional e o egoísmo, dificultando o entendimento necessário. Também se assemelha aos episódios que deram origem histórica à expressão “em tempo de murici, cada um cuida de si” em referência à árvore que resiste à seca mais severa, atribuída ao coronel Pedro Nuns Tamarindo quando na Guerra de Canudos em 1827, espécie de “salve-se quem puder” na derrota de então.
Entre a oportunidade dos axiomas populares que se ajustam aos fatos e as situações conflituosas em que estão envolvidos as principais instituições nacionais, os brasileiros estão submetidos à encruzilhada institucional que nos proporciona parafrasear expressão filosófica de Sêneca, eternizada no clássico “Alice no país das maravilhas, ao dizer ”que, quem não sabe para onde ir, qualquer caminho serve”. Mas todos os caminhos parecem obstruídos pelos interesses conflitantes, por isso intransponíveis, com o país e os brasileiros mergulhados nas incertezas quanto um amanhã de incertezas.
Às vésperas de mais um processo eleitoral e em meio às perspectivas das delações e consequentes, operações e prisões esperadas a qualquer momento, não há qualquer forma de prenuncio de solução de pendências à vista. Pesquisas revelam um país cada vez mais dividido e sem vislumbrar algum freio de arrumação que reponha a ordem e o progresso no país. Continuam prevalecendo as disputas pessoais e institucionais, desvirtuando o sistema tripartite fundamental ao regime democrático, agravado pela falta de credibilidade generalizada. Sem rumo e à deriva remetendo ao tempo de murici.
Linomar Bahia é jornalista e escritor, membro da Academia Paraense de Letras e da Academia Paraense de Jornalismo.
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