Deputado é suspeito de repassar R$ 12 milhões a entidade investigada por castrações fantasmas
Pelo convênio com o Ministério do Meio Ambiente, a Associação Catarinense de Gestão Hospitalar, Conhecimento e Assistência Social (CHC) executa o programa Castra+ em 17 cidades, com os recursos enviados pelo deputado federal licenciado Bruno Lima (Podemos-SP)
O deputado federal licenciado Bruno Lima (Podemos-SP) é suspeito de enviar quase R$ 12 milhões em emenda parlamentar para uma entidade investigada em Santa Catarina e suspeita de fazer castração de “cães fantasmas” em São Paulo. As informações foram divulgadas pelo Metrópoles neste sábado (20/6).
Pelo convênio com o Ministério do Meio Ambiente, a Associação Catarinense de Gestão Hospitalar, Conhecimento e Assistência Social (CHC) executa o programa Castra+ em 17 cidades paulistas, com os recursos enviados por Lima, que hoje é secretário municipal de Inovação e Tecnologia da capital. Dos R$ 11,7 milhões previstos em contrato, R$ 5,6 milhões já foram pagos.
O Metrópoles verificou os microchips de 500 animais atendidos pelo Castra + em quatro municípios (Ribeirão Preto, Santana do Parnaíba, Pilar do Sul e Pardinho). Em apenas 61 registros, consta o nome do tutor. Outros 346 não estão registrados no Cadastro Nacional de Animais Domésticos (Sinpatinhas) e 93 estão registrados em nome da Clinicão, empresa contratada para os procedimentos.
Entre os casos de cães e gatos que constam como microchipados, mas que não são rastreáveis porque não possuem cadastrados no registro nacional de animais domésticos, está o de um tutor de Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, registrado na ficha da castração como Samsung A14.
De acordo com o Metrópoles, o alegado humano com nome de modelo de celular seria tutor dos cachorros Negão e Fred, mas o número atribuído aos pets consta como “microchip não registrado” no cadastro do Ministério do Meio Ambiente.
Já em Pardinho, no interior paulista, a reportagem revelou que a cachorra Quiara foi registrada, conforme a ficha escrita à mão, pelo tutor Leonardo, sem sobrenome. O microchip da cadela, porém, está vinculado ao suposto cão Bolsonaro 17, registrado em nome da Clinicão, clínica contratada com recurso de emenda parlamentar.
Há vários cães e gatos registrados em nome da Clinicão que receberam nomes genéricos com números e que estão registrados com o telefone e celular do dono da empresa, Matheus Fraitg. Ao Metrópoles, ele disse que desconhecia que tinha animais registrados com seus dados no Castra+ São Paulo.
Segundo o dono da clínica, alguns cadastros poderiam estar com nomes genéricos para “não perder a castração” de pessoas que haviam percorrido longas distâncias para que seus pets recebessem o procedimento. Fraitg também disse que alguns tutores apagam o registro após o atendimento para não ficarem vinculados ao governo.
No Instagram, o programa Castra+ de São Paulo segue quatro contas. A do deputado federal licenciado Bruno Lima, do irmão dele, o vereador paulistano Murillo Lima (PP), e páginas da “Cadeia Para Maus Tratos”, movimento criado por Bruno em prol da Causa Animal.
Ainda conforme o Metrópoles, Murillo Lima também enviou uma emenda, no caso ao Orçamento da Prefeitura de São Paulo, para contratar a mesma entidade, CHC, para aplicar vacinas contra a raiva em cães e gatos na capital paulista. No caso, o valor foi de R$ 4,8 milhões.
O vereador diz que indicou a emenda “em favor da causa animal” e que a Prefeitura é a responsável pela contratação e fiscalização dos serviços. A administração municipal alega que o contrato “ocorreu por meio de credenciamento público, obedecendo a todos os princípios da legalidade, transparência e isonomia”.
Além da prefeitura paulistana e do Ministério do Meio Ambiente, a CHC tem contratos com governos estaduais e municipais. Em Itapema (SC), cidade ao lado de Itajaí, onde a organização é sediada, os repasses à entidade foram suspensos pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-SC).
A denúncia diz que a organização usou o contrato com o município para contratar a empresa de consultoria de João Paulo Silva, irmão de Guto Silva, ex-secretário do governador paranaense Ratinho Jr. (PSD).
A organização também contratou o escritório de advocacia de Olimpierri Mallmann, que foi até 2025 presidente do PSD de Balneário Camboriú (SC), cidade vizinha à sede da organização social.
A CHC disse que nada foi constatado no processo e que a denúncia não tem provas concretas. “CHC não pode ser punida simplesmente por ser investigada”, afirmou ao Metrópoles.
Além disso, das duas clínicas contratadas pela CHC para o Castra+, uma é investigada pela Polícia Civil do Paraná por ter soltado cães recém-operados em via pública. A outra foi alvo de busca e apreensão em operação da Polícia Federal (PF), em maio, contra desvio de emendas para castração no Rio de Janeiro.
Ao Metrópoles, o secretário e deputado licenciado Bruno Lima (Podemos) disse que a CHC já era cadastrada no MMA antes de ele enviar emenda para a castração de cães.
“Não tenho conhecimento de irregularidades ou investigações envolvendo as empresas mencionadas. A habilitação da entidade, a execução do convênio e sua fiscalização são atribuições do MMA”, disse Bruno Lima. A CHC, que contratou a Clinicão, também diz que os problemas constatados são culpa do sistema do MMA.
“Quanto às inconsistências apontadas nos cadastros, elas aconteceram porque o sistema Sinpatinhas apresentou instabilidades operacionais ao longo da execução, ficando fora do ar em determinadas ocasiões”, diz a organização.
Até o começo da manhã deste sábado (20/6), o Ministério do Meio Ambiente não havia se pronunciado sobre as informações publicadas pelo Metrópoles.
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