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‘Ghosting’: entenda os danos da prática que utiliza silêncio e sumiço para o término de relações

Na estratégia, uma das partes some de forma silenciosa, deixando apenas dúvidas e danos para a saúde emocional e psicológica do outro

Ayla Ferreira

Um parceiro amoroso que, em um certo dia, decidiu não responder mais as mensagens nas redes sociais, atender ligações e bloqueou o outro, como forma de encerrar o relacionamento sem confronto ou diálogo antes. Ou então, um familiar que saiu de casa e cortou relações com o resto da família, sem explicar a escolha. As duas situações são exemplos do ghosting, uma estratégia para dar um fim às conexões amorosas, sociais e familiares de forma repentina, sem justificativa. O termo deriva da palavra ghost, que significa “fantasma” em inglês.

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Na prática, uma das partes some de forma silenciosa, deixando apenas dúvidas e danos para a saúde emocional e psicológica do outro, que pode se sentir desamparado, com raiva e até mesmo culpa. Segundo Jéssica Pingarilho, psicanalista e professora universitária, não há como generalizar e concluir com plena certeza o que pode levar alguém a optar pelo ghosting. Ela explica que, ao analisar os atos cometidos pelos sujeitos, sempre se trata da singularidade e daquilo que cada um diz sobre o fenômeno, que na psicanálise é a manifestação do inconsciente.

“Uma das possíveis interpretações para o chamado ghosting tem mais a ver com a lógica própria dos relacionamentos atualmente. O que um sujeito busca em um parceiro inicialmente é idealizado. Esse momento precisa acontecer para que a relação se constitua, e remete à ideia de completude ou encaixe daquilo que nos falta: é até uma máxima religiosa, "ser como um só", "com você, agora sim serei inteiro”. Essa idealização inicial precisa ser dissolvida”, diz Jéssica.

Idealização do parceiro pode influenciar

Quando há a aproximação dentro de um relacionamento, a sensação de vulnerabilidade e a sustentação de não ter a tão buscada completude faz com que a idealização do outro se despedace aos poucos. “Uma das possíveis interpretações é de que o ghosting pode acontecer quando o sujeito se depara com aquilo que falta em si próprio e no parceiro inicialmente desejado e ao invés de buscar lidar com isso pelo diálogo e pela troca, o que implicaria desconforto e conflito, prefere ausentar-se”, afirma a psicanalista.

Nas redes sociais, por exemplo, um usuário pode se deparar com algo que não gosta na internet e simplesmente apagar, bloquear e sair do link, o que cria a ilusão de que o momento não foi registrado. Segundo Jéssica, a lógica vêm sendo aplicada também nas relações humanas, deixando marcas, de forma similar ao rastro que é deixado de forma digital.

Seja em relações amorosas, familiares e sociais, não é possível definir se existe uma estratégia diferente para aplicar o ghosting nos diferentes casos. “Todas remetem ao ausentar-se de determinada cena ou situação, em geral para evitar conflitos, inclusive o conflito de ser tomado de apaixonamento pelo outro. O amor evidencia nossa fragilidade, baixa a guarda, é difícil, implica um trabalho contínuo e constante, o que pode assustar”, analisa.

A psicanálise compreende o que leva o sujeito — tanto a vítima quanto quem se ausenta da relação — a construir as próprias relações e a noção de si, bem como entender o outro, que é distinto. A psicanalista avalia que há um “duplo movimento” ao analisar o ghosting, que pode ser uma forma de corte, para evitar lidar com o que se desidealiza, e também forma de manter o outro ou a ideia de si como idealizado.

“Isso ocorre seja para manter-se na posição de objeto de desejo da vítima ou controle da sua posição diante dela, que pode também remeter à outra prática chamada benching, o que em português significaria “colocar no banco de reservas” ou o que nós paraenses chamamos de “cozinhar”, explica. Jéssica destaca, ainda, que o ghosting pode ser uma estratégia para evitar a rejeição ou abandono, abandonando-se primeiro e ativamente para garantir um lugar imaginário de que se é amado ou desejado.

Impactos emocionais

Os conflitos fazem parte das relações humanas, e quando se escolhe por evitar lidar com determinados problemas, o sujeito que pratica o ghosting pode acabar vivendo momentos de isolamento e solidão, além de gerar e retomar sentimentos de desamparo. Por outro lado, o comportamento pode gerar prazer e a falsa sensação de controlar o outro, o desejo e a falta que o parceiro sente. “Acho curioso inclusive o nome que se dá, é tornar-se fantasma ativamente: um jogo para fingir escapar da verdade da morte e do vazio constitutivo do qual nenhum de nós escapa”, comenta a psicanalista.

E para quem é vítima, os impactos são principalmente psíquicos. A pessoa tende a retomar a sensação de desamparo, os sentimentos de raiva e culpa, e a reaver o laço que foi perdido. A psicanalista avalia que pode haver satisfação na busca constante causada pelo sumiço abrupto de um parceiro. 

“Curiosamente pode haver também alguma satisfação nessa busca constante que o sumiço abrupto causa, de manter-se na fantasia de que é desejado/amado e o “fantasma" irá retornar um dia. É um ato que leva tempo para ser simbolizado, compreendido por quem sofre o ghosting”, destaca.

Como lidar com o ghosting?

A psicanalista explica que existem algumas formas de lidar com o sofrimento depois de ser vítima de ghosting. É preciso avaliar os padrões que se repetem nas escolhas para relacionamentos, além de conseguir estabelecer limites básicos e ter noção que a ideia de “ser completo” em uma relação é imaginária e ilusória. 

“Ter consciência não basta e nada realmente nos protege das relações. Freud estabeleceu as relações humanas como uma das principais fontes de sofrimento que nos acomete, portanto, é inerente às nossas relações. Como cada um vai encontrar formas de lidar com esse sofrimento é o que a psicanálise nos convida a encaminhar pela palavra”, reflete.

Como o ghosting é resultado de uma trama complexa da montagem do desejo, o que a cena do comportamento causa em quem pratica e em quem é vítima é singular. “Fortalecer-se e manter-se ciente de que há um mal-estar próprio em nossas redes relacionais e encontrar espaço para falar delas talvez sejam as dicas possíveis. Deixo-vos com Freud: “A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”, finaliza Jéssica.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades.