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Por que quando chove o trânsito fica caótico?

Soma de vários fatores, que vão de comportamentos individuais a políticas públicas, atrapalham o trânsito de uma cidade que convive com a chuva

Victor Furtado / Redação Integrada de O Liberal

É fato: começa a chover na Região Metropolitana de Belém e muita gente já se preocupa em como o trânsito vai ficar lento. É um problema enorme, levando em consideração o quanto chove no Pará. Pior ainda se a chuva for à noite ou num horário de pico. É o reino do caos e da barbárie.

Ainda assim, parece que os motoristas nunca se acostumam. Mas afinal, por que isso acontece? A resposta é uma soma de fatores gerais e individuais de cada condutor.

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Durante a formação, motoristas aprendem direção defensiva. Aprendem a evitar problemas e fatores de risco de acidentes. Logo, quando chove, alguns condutores aumentam a cautela na hora de dirigir, reduzindo a velocidade.

Cabe lembrar que molhar pessoas nas ruas, durante uma chuva ou ao passar numa poça d'água, é infração de trânsito. Dá multa. E é um comportamento nada cidadão.

Considerando que nem todos os motoristas de Belém são pessoas cuidadosas - bastam alguns minutos em qualquer cruzamento movimentado da capital para perceber -, o excesso de cautela não tem como ser a única justificativa para o trânsito lento durante uma chuva.

Todos os fatores a seguir dizem muito sobre a Região Metropolitana de Belém.

 

Alagamentos travam vias importantes

Os alagamentos e problemas de drenagem nas ruas são um problema concreto. Com isso, concordam Valter Aragão, coordenador de Planejamento do Departamento de Trânsito do Estado do Pará (Detran-PA); e Rafael Cristo, pedagogo e especialista em trânsito.

Valter pontua que quando há alagamentos numa via muito movimentada, ou de ligação entre muitos pontos da cidade, a capacidade de deslocamento de veículos é limitada.

Por exemplo: quando há alagamentos na avenida João Paulo II, avenida Duque de Caxias, avenida Conselheiro Furtado, rua dos Pariquis, a rodovia BR-316, o túnel do Entroncamento, entre outras pistas muito movimentadas, o número de veículos começa a se acumular.

O tráfego fica confuso num alagamento: motoristas começam a fazer manobras irregulares ou simplesmente ficam com veículo "no prego". As leis de trânsito deixam de valer.

João Paulo II é uma via principal, que leva a muitas áreas e possui fluxo intenso. Alagamentos geram transtornos generalizados na hora da chuva. (Ivan Duarte / Arquivo O Liberal)

As vias secundárias, de menor fluxo e que se conectam às vias principais alagadas, começam a ser ocupadas como alternativas. E logo todo o trânsito fica lento.

Rafael destaca que a manutenção das vias da RMB está longe de ser boa. Logo, uma pista com uma poça de água maior ou mesmo totalmente alagada, esconde potenciais armadilhas. Armadilhas que podem resultar num caro conserto do veículo. Ou um acidente grave, no caso de motociclistas.

Por isso, ressalta o professor, as informações sobre o clima são importantes para motoristas. Se houver sinais de chuva forte, os motoristas já precisam se preparar e planejar rotas, evitando problemas de deslocamento. As redes sociais digitais ajudam a identificar as vias congestionadas e alagadas.

Tanto pela chuva em si quanto pelos alagamentos, na hora de embarque e desembarque de passageiros, condutores fazem paradas e estacionamentos em locais que podem atrapalhar o fluxo. Pode ser por uma boa causa, que é evitar mais problemas para quem vai pegar chuva, mas atrapalha. É preciso bom senso inclusive na hora de boas ações.

 

Visibilidade ruim e problemas de manutenção

Obviamente, uma chuva vai reduzir a visibilidade dos motoristas. E atrapalhar duplamente motociclistas, que muitas vezes precisam até parar de dirigir. Então não é prudente dirigir numa velocidade mais alta. Muito menos à noite.

Visibilidade na cuva é ruim. À noite, piora. Por isso motoristas tendem a dirigir com cautela. Isso resulta em trânsito mais lento. E piora pela quantidade de veículos circulando e vias com problemas (Oswaldo Forte / Arquivo O Liberal)

Valter e Rafael apontam que não existe uma cultura de manutenção dos veículos. Geralmente, quando há problemas nos pneus ou nos limpadores de para-brisas, os condutores vão adiando o quanto podem o investimento na segurança.

Quando os pneus ficam desgastados, os proprietários dos veículos preferem tomar medidas paliativas e inseguras, como fazer rodízios, virar ou a pior e menos inteligente de todas: fazer riscos para enganar a fiscalização. E enganar a si mesmos. Um pneu careca não permite frear adequadamente. Numa pista molhada, não serve para nada. É acidente na certa.

Diferente dos pneus, os limpadores de para-brisas se desgastam muito rápido. Por sorte, são itens bem baratos e podem ser substituídos facilmente e com pouco investimento. Isso melhora a visibilidade ao dirigir na chuva. Mas muitos motoristas preferem deixar para lá.

"Não se trabalha manutenção preventiva. Veículos são máquinas. Precisam de manutenção e zelo", orienta o professor Rafael Cristo. Na avaliação do especialista em Psicologia do Trânsito, Carlos Valente, diretor de Mobilidade da Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (Semob), a frota da capital é uma das mais novas e que não apresenta tantos problemas de manutenção.

 

Frota de veículos: um problema muito mais complexo

A natureza e os próprios motoristas não podem ser os únicos responsáveis pelo trânsito ruim na hora da chuva. Políticas públicas inexistentes ou mal executadas também influenciam. Mas o aumento constante da frota de veículos do Pará é algo preocupante, do ponto de vista da engenharia de trânsito.

O coordenador de Planejamento do Detran-PA faz um alerta: a abertura de novas vias e projetos de expansão das vias existentes não acompanham o crescimento da frota de veículos, que aumenta, em média, 6% a 7% ao ano.

A frota paraense já passa de 2 milhões de veículos. Só a frota de Belém é de 500 mil. No entanto, em Belém não circula só a frota da capital. Há veículos de outros municípios e outros estados também.

"Hoje a RMB tem, em números atuais, cerca de 670 mil veículos. Desses, 650 mil são automóveis, motos, caminhonetes e utilitários, dos quais 95% são particulares. Imagine se quem fizer uso desses veículos o fizer de forma unitária, só para atender a si para deslocamento ao trabalho, ao supermercado...", pontua Carlos Valente.

Belém, ressalta Valente, não teve um planejamento histórico para receber toda essa demanda. Por isso, precisa comportar todos esses veículos, incluindo a frota agregada de fora.

"Também tem a questão de que a área comercial de Belém agrega comércio formal e informal, órgãos públicos municipais, estaduais, poder legislativo, poder judiciário, bancos, escolas particulares e públicas... esses locais não têm - ou têm bem pouca - oferta de estacionamento, o que torna essa área central de Belém, com a chuva e com o consequente aumento de veículos nas vias, ainda mais complicada de trafegar", analisa o diretor de Mobilidade da Semob.

Com uma frota tão grande, os outros fatores que reduzem a velocidade de escoamento de tráfego, já citados anteriormente, se acumulam e são potencializados.

 

Outros meios de transporte circulando

Valter Aragão diz ainda que, durante uma chuva, as pessoas tendem a colocar em movimento uma frota que costuma ficar parada: veículos próprios, táxis, moto-táxis e veículos particulares de aplicativos de mobilidade. Mais espaço ocupado nas vias que já estão com fluxo lento.

As pessoas só recorrem ainda mais aos meios individuais de transporte porque o sistema transporte público é ruim. Os ônibus são caros, desconfortáveis - pela superlotação, pelos bancos duros, pelo calor ou por tudo isso junto - não têm horários confiáveis e os pontos de parada nem sempre têm estrutura para abrigar os usuários numa chuva.

Para usuários de transporte público, a chuva dificulta tudo ainda mais. Muitos recorrem a transporte individuais e particulares. (Oswaldo Forte / Arquivo O Liberal)

Transporte público de qualidade e acessível, saneamento básico, drenagem e manutenção das vias, abertura de novas vias, projetos de ordenamento e reordenamento do trânsito... todas essas coisas são políticas públicas e são responsabilidades do poder público. À sociedade, cabe cobrar.

 

Por tudo isso, tem gente que não gosta de dirigir na chuva

Por último, Valter analisa o comportamento dos motoristas. Por conta do trânsito ruim na chuva, agora com todos os possíveis fatores explicados, sobra um elemento cultural: os motoristas já sabem que o trânsito vai ser ruim e se preocupam sobre como vão lidar com esse estresse. Não que o trânsito já não seja estressante em condições normais.

"Tem gente que não gosta de dirigir na chuva. Por medo ou porque sabe que vai ser ruim (por todos os problemas citados). Muita coisa do trânsito é comportamento", comenta Valter.

Mais prudência e menos acidentes

Já Rafael Cristo reforça ser necessário cautela e atenção ao dirigir na chuva. Mas não é necessário agir de forma a prejudicar o fluxo de veículos. Por outro lado, Valente vê o cuidado na hora de dirigir como um reflexo positivo de uma formação melhor dos condutores.

Historicamente, segundo afirmam Valter e Valente, o número de acidentes em períodos de chuva ou por conta da chuva reduziu. Para eles, mais um reflexo de uma melhora de comportamento. Claro, sempre pode melhorar.

Belém
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