Em entrevista exclusiva concedida à redação integrada do Grupo Liberal, o arcebispo metropolitano de Belém, Dom Julio Endi Akamine, abordou temas centrais da atuação da Igreja Católica na Amazônia, comentou o significado do pálio arquiepiscopal recebido das mãos do Papa Leão XIV, refletiu sobre o papel da Igreja diante dos desafios do mundo atual, falou sobre o diálogo com os jovens e detalhou as expectativas da Arquidiocese de Belém para a preparação do Círio de Nazaré 2026. A entrevista foi realizada no dia 10 de julho, na Cúria Metropolitana, em Belém.
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Natural de Sorocaba (São Paulo), Dom Julio tornou-se arcebispo metropolitano da capital paraense há cerca de um ano, no dia 06 de agosto de 2025. Em 1975, ingressou no Seminário da Sociedade do Apostolado Católico (Palotinos) em 1975 e, após 13 anos, foi ordenado sacerdote, em 24 de janeiro de 1988. Dom Julio formou-se como mestre e doutor em Teologia, pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma.
A Santa Sé e a Amazônia
Durante participação na Solenidade de São Pedro e São Paulo, no Vaticano, Dom Julio recebeu um pálio arquiepiscopal diretamente do Papa Leão XIV. A cerimônia, realizada no dia 29 de junho, promoveu um contato breve entre eles, segundo o arcebispo. “De qualquer maneira, a preocupação da Santa Sé e do Papa, e também da igreja como um todo, em relação à Amazônia já vem de longa data. Não é somente com o Papa Leão XIV, já é desde Bento XVI”, relata.
Dom Julio relembra que o Papa Bento XVI tinha uma atenção muito grande à região, assim como Paulo VI. O arcebispo fala que a preocupação e o cuidado com a Amazônia são para além do Brasil: “É, portanto, o bioma importante para a saúde ecológica do mundo, mas não só isso, tem também uma população que habita nesta floresta — indígenas, ribeirinhos, quilombolas, habitantes da cidade e do campo. É uma região de grande biodiversidade, de recursos naturais e, também, de pessoas.”

“Lógico, a preocupação da igreja é uma preocupação evangelizadora, de fazer que, de fato, o evangelho possa penetrar na Amazônia, principalmente nos seus povos. E possa, também, ajudar a preservar a floresta a serviço do mundo todo e construir aqui uma sociedade multicultural, de várias etnias”, diz.
Papa Leão XIV, ao assumir o cargo na Igreja Católica, seguiu com a mesma linha de zelo pela região que havia em Papa Francisco, segundo Dom Julio. Ele conta que, por meio do Istituto per le Opere di Religione, a Amazônia recebe recursos importantes para o desenvolvimento desde o Papa Bento XVI. “O olhar é sempre um olhar de atenção, um olhar evangelizador e uma ajuda concreta, também, para esta região”, destaca.
Proximidade com os fiéis
A relação pessoal entre a igreja e os fiéis é algo primordial para a propagação das mensagens de fé, de acordo com Dom Julio. O arcebispo acredita que esse processo não é mecânico, mas, sim, natural: “A evangelização tem a ver com uma vida nova. O evangelho é uma vida que se transmite de modo vivo entre pessoas vivas. Por isso a presença pessoal é indispensável.”
“Devemos usar todos os meios possíveis — os meios de comunicação, internet e as redes sociais. Tudo isso não é mau, não é negativo. A gente deve, de fato, utilizar desses meios poderosos. O Concílio Vaticano II fala das maravilhas dos tempos atuais, que são também os meios de comunicação e, agora, a internet”, aponta. Por isso, Dom Julio acredita que a presença de bispos, padres e diáconos no universo on-line é uma oportunidade para transmitir a vida que há no evangelho, conforme a crença cristã.
Missão em meio a conflitos
Em meio a um mundo marcado por conflitos, guerras, polarizações, intolerâncias e incertezas, o arcebispo metropolitano de Belém vê o papel da Igreja Católica como potente propagadora do evangelho. Dom Julio destaca que surge uma nova relação com a vida — e com tudo que acontece — quando há a aceitação da fé.

“A fé, de fato, transforma a vida da gente, significa que transforma também as nossas relações. As relações pessoais passam por uma transformação a partir do evangelho e é lógico que o cristão é chamado a enfrentar os desafios atuais, o cristão está diante da violência”, comenta.
Dom Julio afirma que não há uma resposta concreta da igreja e dos fiéis em meio aos problemas, entretanto, o evangelho é capaz de transmitir força e poder para o lidar com os impasses. “É, exatamente, enfrentando as dificuldades com a fé cristã que a gente procura transformar tudo isso. Não temos outra proposta, outro remédio senão propor, de modo concreto, as soluções para os problemas a partir da fé em Jesus Cristo”, explica.
Igreja e juventude
No Brasil, cerca de 20% de crianças, adolescentes e jovens entre 10 e 19 anos enfrentam algum tipo de transtorno mental, de acordo com levantamento do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde. Perante esse cenário, Dom Julio relata que o primeiro papel da igreja deve ser de acolhimento, tornando a comunidade cristã um local seguro onde haja encontro com o sentido da vida.
“O evangelho é isso, é um sentido novo para a vida da gente — e é exatamente isso que a gente procura oferecer aos nossos jovens e isso é de uma maneira concreta. Não é só teoria, se trata de uma nova vida”, aponta o arcebispo.
Dom Julio ressalta que esse é um dos motivos que tornam a vida comunitária um ponto essencial: “A experiência de estar juntos é o aprendizado para poder dialogar com quem é diferente, de saber enfrentar os conflitos que surgem da diferença. Nós vamos viver agora, daqui para frente, uma sociedade cada vez mais pluralista no aspecto também cultural.”
O arcebispo metropolitano de Belém diz que o preparo das novas gerações na comunidade cristã para construir e viver em uma sociedade pluralista é essencial para o respeito das diferenças, sem abrir mão das convicções pessoais e os valores religiosos. Ele afirma que, para os jovens, a acolhida e a experiência concreta de uma vida comunitária estão em primeiro lugar.
“Ao mesmo tempo, eu acho que a gente precisa se deixar evangelizar por eles. Eles não são só objeto dos nossos cuidados. Não, os jovens também são protagonistas e eles trazem vigor novo, ideias, questões novas e uma contribuição para as gerações mais velhas, mais experientes”, fala.
Dom Julio também conta que é preciso incentivar o protagonismo em meio aos jovens, visando alcançar outros da mesma faixa etária. “O melhor evangelizador de um jovem é outro jovem. Que, de fato, a gente possa incentivar nossos jovens a serem bons evangelizadores”, diz.
Círio de Nazaré 2026
A preparação para o Círio de Nossa Senhora de Nazaré 2026 iniciou ao final da festividade de 2025, explica o arcebispo. Para este ano, o tema é “Maria, missionária que nos dá Jesus”. “A partir do tema, já preparamos vários materiais. O cartaz já foi aprovado e está sendo distribuído. É uma forma de preparar as pessoas para o Círio”, destaca.
“As pessoas se preparam das diversas maneiras. Tem gente que vai preparar o pato, a maniçoba e as comidas, mas, também, tem a preparação espiritual”, afirma Dom Julio. Em relação ao fortalecimento da fé para a celebração da Rainha da Amazônia, durante o mês de maio a Arquidiocese de Belém promoveu uma novena.
Um dos grandes símbolos do Círio, o Manto de Nazaré deve ser apresentado em breve, de acordo com o arcebispo. O item é pautado em uma temática e vai além de um adereço. “Ele é um convite a passar do sinal visível para a realidade invisível, do sinal concreto para o mistério que nós celebramos no Círio. Normalmente, as pessoas que fazem o Manto não o fazem somente com técnica — o fazem com muita oração, contemplação e meditação na Palavra de Deus”, explica.

“Não é somente uma atividade artística, é também um exercício espiritual. Lógico, a beleza é um caminho importante de ascensão, mas a partir da beleza, de fato, atingir o mistério”, comenta. Dom Julio ressalta que haverá preparação de material para distribuir às famílias, para que realizem reuniões e rezas em conjunto.
“Para se fazer bem o Círio, para a gente não basta só a organização. É necessário preparação espiritural, oração em família e oração em Deus”, conclui o acerbispo. A programação geral iniciou no dia 14 de março, com visita à Região Episcopal, e finaliza em 11 de dezembro, com posse da diretoria para o Círio 2027. Em outubro, mês que se celebra o Dia de Nossa Senhora de Nazaré, a Grande Procissão está agendada para o dia 11.
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