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Usuários denunciam falta de atendimento e estrutura precária em unidade de saúde de Belém

Pacientes relatam filas, demora e ausência de serviços em unidade básica no Tapanã

Dilson Pimentel

Usuários da Unidade Básica de Saúde do Tapanã I, em Belém, denunciam dificuldades no acesso a atendimentos, falta de insumos, demora e problemas estruturais. Os relatos apontam uma rotina de longas esperas, ausência de serviços essenciais e, em alguns casos, impossibilidade de iniciar tratamentos importantes. Na manhã desta quinta-feira (30), a dona de casa Suelen Carvalho, de 36 anos, esteve na unidade com o filho de 11 anos em busca da vacina contra o HPV, mas não conseguiu atendimento. Segundo ela, essa foi a terceira tentativa sem sucesso.

“É a terceira vez que eu venho. Nas duas anteriores, não tinha. E, hoje (quinta), não está funcionando. Em plena quinta-feira não está funcionando”, disse. “Disseram que só segunda. Sendo que hoje está um dia normal, era para estar funcionando, certo? Então a gente vem, deixa o serviço de casa que tem que fazer para a gente vir e chega aqui não tem”, contou.

Suelen afirmou que o filho não foi nesta quinta para a escola para tentar o atendimento. “Tirei ele da escola e não tem”, disse. Diante da situação, ela fez um apelo às autoridades: “É para eles olharem com mais atenção. A gente vem e nunca tem. Era para estar funcionando, né? Em plena quinta-feira, dia normal, por que não está funcionando? ‘Ah, volta segunda’. E, na segunda, a gente tem as coisas da gente para fazer. A gente deixa de ir fazendo essas coisas para vir e chegar na hora não tem”, lamentou.

Outra usuária, a estudante Kamile Ferreira, de 23 anos, grávida de oito meses, contou que não consegue iniciar o pré-natal na unidade, mesmo após várias tentativas. “Aqui a gente não consegue atendimento, a gente tem que vir cedo e ainda não consegue”, contou. ”Cheguei aqui às 5 horas da manhã. Desde segunda-feira eu não consigo. Todo dia chegando esse horário. Entro na fila, mas não consigo atendimento”, afirmou. Kamile contou que enão consegue atendimento por causa do endereço – uma questão burocrática. “É por causa do endereço, aí manda vir outro dia e não consegue outro dia”, contou. Nesta quinta-feira, ela contou que “perdeu 5 horas” na unidade, da qual saiu às 10, sem atendimento.

Kamile afirmou que enfrenta essa dificuldade desde o sétimo mês de gestação – ele espera um menino. “Estou tentando iniciar o meu pré-natal e não consigo. Não posso fazer nada. Me dá até desânimo”. Ela também criticou as condições da unidade, dizendo que está faltando “tudo. A água não presta, o banheiro não presta, nada presta aí. Perda de tempo”.

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"Tem que melhorar tudo”, diz dona de casa

A dona de casa Bruna Rodrigues, de 33 anos, esteve na unidade nesta quinta-feira e também mencionou problemas no atendimento. Ela procurou a unidade após romper o ligamento do joelho direito, mas não conseguiu realizar exames. “Eu vim buscar atendimento porque rompi o ligamento do joelho (direito). Então, aí eu vim bater um raio-x, só que não está tendo raio-x, está na lista de espera. Fui lá em cima para marcar uns exames especializados. Eles dizem que leva de 5 a 6 meses para entregar o resultado. Vão me mandar mensagem”, afirmou.

Bruna disse que chegou à unidade às 6 horas desta quinta-feira e saiu por volta das 10 horas sem solução. “Eu espero na fila, espero uma conversa toda que eles têm lá pra dentro. ‘Ah, cai a internet’ e daí espera. Aí vai tudo pra mão. A gente tem que esperar. A gente não tem toda essa paciência”, contou.

Ela também criticou que, no térreo da unidade, onde funciona o atendimento na urgência e emergência, a situação também é igual. “Aqui embaixo o atendimento na urgência e emergência tá ruim. Lotado. Também demora”, disse. Segundo Bruna, também faltam insumos básicos para exames: “Nem o exame rápido pra gente saber sobre essas doenças sexualmente transmissíveis. Não tá tendo porque não tem material, tá faltando”, disse.

Para Bruna, a situação exige mudanças urgentes. “Tem que melhorar tudo. Porque o atendimento, quando o médico não falta, ele não tem paciência. A gente chega cedo para ver se sai mais cedo, mas não tem como. Por que? A ficha, eles dão 40, 50 fichas”, disse. “Quando chega na hora do almoço, o senhor vai ver, é daqui a pouco, no horário de meio-dia, que o senhor vai ficar da meio-dia até 2 horas da tarde esperando sentado. A pessoa não consegue, porque o atendimento é lento", afirmou.

E acrescentou: “Fora que eles não dão aquela atenção devida. Tipo eu: fui atendida porque uma senhora foi lá em cima e disse: ‘olha, tem uma senhora lá embaixo que está de muleta. Ela não dá conta de subir e nem descer as escadas. Por isso que fui atendida. Se não fosse isso, eles iam demorar mais ainda e eu ia ficar sentada lá até meio-dia”. Uma empregada doméstica, que preferiu não se identificar, reclamou da falta de médicos. “Eu tenho um problema de saúde muito sério. Vivo com muita dor. E estou sem renovar a minha receita, sem uma consulta, porque não tem médico na Unidade do Tapanã”. Um senhor idoso se aproximou da reportagem e reclamou dos banheiros que, segundo ele, não funcionam.

“Pratinha não tem nada”, diz diarista

Uma diarista de 52 anos, que preferiu não se identificar, afirmou que a unidade enfrenta escassez de profissionais e problemas recorrentes no acompanhamento dos pacientes. Segundo ela, há ausência de especialistas e até de clínico geral. “Não tem clínico geral. Ginecologista só tem um. Não tem cardiologista, praticamente não tem nada”, disse. A paciente também contou que enfrentou dificuldades para dar continuidade ao atendimento após realizar exames. Ela também citou dificuldades para conseguir atendimento para o marido, que está em tratamento contra câncer.

“Eu pedi para o meu esposo marcar uma consulta segunda-feira para nós, que ele também está sem remédio, ele se trata de um câncer. Aí ele foi 4 horas da manhã para lá. Quando deu 8 horas a mulher veio falar lá na fila que tinha uma fila imensa, que não tem médico no posto do Tapaná. Clínico geral não tem”, disse. De acordo com a usuária, mesmo quando consegue consulta, a realização de exames é demorada. “Quando a gente consegue uma consulta que eles passam os exames, a gente só consegue o exame com quatro, cinco meses. Eu acho um absurdo isso”, criticou.

Ela também denunciou problemas na marcação de consultas especializadas. “A gente leva nossas guias para fazer o exame das consultas especializadas lá, eles dão sumiço”, afirmou. A diarista disse ainda que aguarda há quase um ano por uma cirurgia para retirada de pedra na vesícula. “Eu estou aguardando já uma cirurgia que eu estou com uma pedra na vesícula. Já vai para um ano. E eu, como eu tenho outro tipo de dor, outro tipo de doença, eu sofro muito com dor e eu não tô conseguindo consulta mais”, relatou. Ao resumir a situação da unidade, ela foi enfática: “Simplesmente o posto de saúde do Tapanã tá abandonado, só a capa lá, aquilo que foi pintado pro lado de fora. O banheiro é uma imundície eu sei porque eu me consulto lá há muitos anos que eu tomo remédio”, concluiu. A Redação Integrada de O Liberal entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) e aguarda retorno.

Redução na capacidade de atendimento no Hospital Pio XII

A saúde municipal enfrenta outros problemas. Esta semana o Hospital Pio XII notificou oficialmente a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma), sobre a redução da capacidade de atendimento pediátrico devido a atrasos no repasse de recursos. A unidade também cobra uma dívida que se aproxima de R$ 2 milhões referente a serviços já prestados ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Com 53 anos de atuação, o hospital está sob nova gestão desde 2023 e passa por um processo de reestruturação e recuperação assistencial. Atualmente, é a única unidade pediátrica privada (0 a 12 anos) com atendimento de urgência pelo SUS em Belém, mantendo essa prestação de serviço há mais de 20 anos. De acordo com a notificação extrajudicial, enviada no último dia 24, a instituição afirma que a gestão municipal acumula inadimplência pelo não pagamento de diversas notas fiscais emitidas ao longo de 2024.

O valor atualizado da dívida é de R$ 1.875.476,07. Segundo o hospital, os recursos são de origem federal, repassados ao município, mas que não chegam à unidade. A falta de regularidade nos repasses tem provocado impactos diretos no funcionamento do hospital, comprometendo desde a aquisição de insumos até o pagamento de fornecedores e profissionais de saúde, que já amargam três meses de salários atrasados. Em razão desse cenário, a unidade foi obrigada a entrar em contingência operacional.

 

Principais problemas, segundo os usuários:

Falta de vacinas e serviços indisponíveis

Ausência da vacina contra o HPV, mesmo após várias tentativas

Unidade sem funcionamento em dia útil (quinta-feira)

Dificuldade de acesso ao atendimento

Necessidade de chegar de madrugada (por volta de 5h)

Usuários entram na fila, mas não conseguem atendimento

Limitação de fichas distribuídas (40 a 50 por dia)

Demora excessiva

Horas de espera sem resolução (ex: chegada às 5h e saída às 10h sem atendimento)

Prazo de 5 a 6 meses para resultados de exames especializados

Falta de médicos

Ausência de profissionais para consulta

Pacientes sem conseguir renovar receitas ou dar continuidade a tratamentos

Falta de exames e insumos

Raio-x indisponível

Falta de materiais para exames básicos, como testes rápidos para ISTs

Problemas estruturais

Banheiros sem funcionamento

Água em condições inadequadas

Estrutura geral precária

Atendimento considerado inadequado

Falta de atenção e paciência por parte de profissionais

Relatos de tratamento com “ignorância”

Prioridade no atendimento ocorrendo de forma improvisada

Superlotação

Setor de urgência e emergência descrito como “lotado”

Demora generalizada em todos os setores

Impacto na rotina dos usuários

Perda de dia de trabalho

Crianças faltando à escola

Sensação de “perda de tempo” e desânimo