Férias com crianças neurodivergentes exigem adaptação e diálogo reforçado
A terapeuta ocupacional Jaqueline Rodrigues orienta pais e responsáveis a utilizarem recursos visuais durante conversas sobre a rotina no recesso escolar
No Brasil, há 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), sendo 2,6% desse total crianças entre 5 e 9 anos, segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além do TEA, outras condições se encaixam nas chamadas neurodivergências, caracterizadas pela variação no funcionamento neurológico, que foge do padrão. Entre elas, está o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Dislexia, Discalculia, Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) e Altas Habilidades/Superdotação, por exemplo. Durante as férias escolares, quando há mudança de rotina, é comum a difícil aceitação de crianças e adolescentes com o novo modelo de cotidiano — mas isso não impede a família de viver momentos com plenitude.
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A terapeuta ocupacional Jaqueline Rodrigues explica que os pequenos desenvolvem e aprendem muito com os responsáveis. Por isso, estabelecer laços nesse período é importante para a construção psicossocial. “Uma boa relação familiar ajuda a criança ter confiança, autoestima, regulação emocional e sensorial. Ter uma boa conexão familiar ajuda no tratamento de forma mais efetiva. A criança se sente amada e protegida, os benefícios são incontáveis”, fala.
Para Arya Maria, diagnosticada com TEA Nível de Suporte 1, os dias de férias são os preferidos do ano. Segundo a mãe, a professora Diane Rodrigues, a menina de 9 anos aguarda ansiosamente pelo recesso. “Ela vai para escola e socializa, mas, para ela, as férias são o melhor momento. Tanto que, ano passado, quando houve aquela redução do tempo das férias de julho, de 30 dias para 15 dias, ela ficou totalmente desregulada, mexeu muito com ela”, conta.
Diane fala que, ao final das provas de Arya, a pequena já pensava que não precisaria mais ir à escola. Ao descobrir que ainda era necessário frequentar para finalizar atividades, houve resistência, mas com diálogo e explicações claras, logo ela entendeu e aceitou.
Também com TEA Nível 1 de Suporte, Liz Neri, de 5 anos, possui maior rigidez em relação às mudanças. A nutricionista Lorena Neri, mãe da menina, afirma que alguns dias são mais desafiadores do que outros. “Liz não gosta de mudanças, uma simples troca de horário de terapias incomoda bastante. Tento sempre ser previsível, explicando as coisas com antecedência, mas nem sempre funciona”, diz.
Do diagnóstico ao tratamento
O diagnóstico de Arya iniciou quando a menina tinha 2 anos, pois a mãe notou alguns comportamentos atípícos, como choro prolongado e desgosto ao toque de determinadas pessoas. “Quando a escola sinalizou, aí eu fui atrás para tentar investigar o que, de fato, era. Até então, eu tinha dúvida de qual seria o diagnóstico dela”, lembra. Diane relata que, mesmo sendo da área da educação, teve dificuldades para aceitar e compreender o que envolvia a condição da filha, que recebeu o laudo aos 4 anos.
A adaptação da pequena na escola não foi difícil, segundo a mãe. Arya frequentava o local acompanhando um primo e, por isso, já era conhecida entre os funcionários. Quando começou a estudar, apesar da dificuldade em estabeler interações com meninas, por viver em um ambiente com mais homens, não teve problemas em se relacionar com colegas e professoras.
No caso de Liz, o TEA foi notado pela família, segundo Lorena. “Quando ela completou 2 anos e 6 meses, percebemos algumas comportamentos diferentes. Como temos outros diagnósticos de autismo e TDAH na família, começamos a a investigação com o neuropediatra e neuropsicóloga, e ambos confirmaram”, relata. A mãe também fala que seguem investigando outros transtornos.
“Confesso que para nós, enquanto pais, foi tranquilo. Nós acolhemos e sabíamos que seria uma batalha diária. Como mãe, que fico quase que integralmente com ela, imaginar que ela possa sofrer é bem doloroso. Em relação à família, avós, irmãos e tios foi muito bom. Eles nos acolheram, já que temos outros familiares que compartilham dessa luta também”, lembra Lorena.
Mudanças nas férias
Quando as férias se aproximam, Diane já inicia um diálogo firme com Arya, informando que a rotina vai mudar, algumas atividades serão suspensas e outras passarão a integrar o cotidiano. Com Liz, que faz terapias pela manhã e estuda à tarde, Lorena precisa criar atividades alternativas para ocupar o dia – a mãe relata que, sem programação certa, a menina fica ociosa a todo momento.
“Muito importante para evitar crises, nesse momento de férias, é tentar manter uma rotina estruturada, na qual a criança consiga ter previsibilidade do que vai acontecer. Claro que, em alguns momentos, terá quebra/saída da rotina, mas antecipar o que acontecerá é muito importante”, alerta a terapauta ocupacional. Jaqueline sugere que os responsáveis utilizem pistas visuais e histórias sociais, além de respeitar os pedidos da criança.
“Caso aconteça um episódio de crise: manter a criança em local seguro e colocar as estratégias de regulação sensorial e emocional em prática. De modo geral, se a criança deitar no chão, precisamos proteger a cabeça. Se a criança for de colo, pega no colo e procura um local calmo para assim colocar as estratégias em prática. Assim como cada crise depende da criança, as estratégias de regulação também dependem. Se estiver em ambiente fora da rotina, o importante é antecipar o momento da crise, observar a criança, escutar e atender suas demandas”, ensina a terapeuta ocupacional.
Às pessoas externas ao núcleo familiar que precisarem momentos de crise, Jaqueline indica que, antes de agir, perguntem aos responsáveis se podem e como devem ajudar. Ela afirma que dar o espaço para a família é essencial, considerando a não aceitação das crianças a pessoas desconhecidas. A terapeuta ocupacional reforça que todo apoio deve ser direcionado aos adultos, que saberão como lidar com os pequenos.
Uso de telas
Durante as férias, smartphones e tablets podem se tornar uma alternativa de distração para as crianças, mas nem sempre são as melhores opções. O uso de telas excessivo por crianças resulta em atrasos na linguagem, déficit de atenção e distúrbios de sono, de acordo com a pesquisa “O impacto da exposição a telas no desenvolvimento infantil”, publicada na Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences.
Esse é um desafio para Diane e Lorena, que precisam entreter as filhas durante o recesso escolar e ausência de atividades pré-determinadas. A mãe de Arya permite o contato por determinados períodos, de forma supervisionada, controlada e limitada. Assim como a mãe de Liz, que autoriza a filha a ver apenas televisão: “Nas férias, como fica em casa, ela pede um pouco mais para assistir. Tento estipular um tempo e aviso a ela. Enquanto ela está assistindo, já fico pensando o que vou fazer quando ela terminar.”
A terapeuta ocupacional Jaqueline Rodrigues sugere que os responsáveis deem preferência a atividades ao ar livre, porém nem sempre é fácil, visto que algumas crianças sentem-se mais confortáveis em casa. “Pensando nesse contexto, podemos elencar brincadeiras como esconde-esconde, mímica, caça ao tesouro dentro de casa ou na praça e amarelinha. Podemos escolher brincadeiras que estimulem a criatividade e o imaginário, como montar acampamento em algum cômodo da casa, fazer cabanas de lençóis e contar histórias, criar um circuito de obstáculos com objetos”, fala.
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