Entre promessas e enchentes, moradores do 'Mata Fome' ameaçam novo protesto em Belém
Comunidades da Pratinha, Tapanã, Parque Verde e Cabanagem cobram início imediato das obras de macrodrenagem e afirmam que podem voltar a interditar a rodovia Arthur Bernardes
Enquanto o prefeito Igor Normando entregava, neste sábado (16), a nova rua John Engelhard e voltava a anunciar o início das obras do Programa de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Mata Fome (Prommaf), moradores dos bairros atingidos pelos constantes alagamentos conviviam com um sentimento já conhecido: o de esperança misturado à descrença. Para quem mora na Pratinha, Tapanã, Parque Verde e Cabanagem, a promessa de revitalização do canal do Mata Fome atravessa governos, campanhas eleitorais e discursos oficiais, mas segue sem sair efetivamente do papel.
A realidade enfrentada diariamente por milhares de famílias da periferia de Belém é marcada pelo medo das chuvas, prejuízos materiais e insegurança. Em cada inverno amazônico, ruas desaparecem sob a água, móveis são erguidos às pressas e moradores passam noites em claro observando o nível da maré e da chuva subir. Muitos relatam que já não conseguem acreditar em novos anúncios sem que máquinas, operários e obras concretas apareçam nos bairros.
A possibilidade de um novo protesto voltou a mobilizar moradores da Pratinha 2, em Belém, diante da demora no início efetivo das obras do Programa de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Mata Fome (Prommaf). Revoltados com os constantes alagamentos e com o que classificam como sucessivas promessas não cumpridas do poder público, moradores afirmam que poderão voltar a interditar a rodovia Arthur Bernardes caso as intervenções anunciadas pela Prefeitura de Belém não comecem nesta segunda-feira.
A ajudante de cozinha Elizabeth Castro, de 56 anos, moradora da Pratinha 2 há mais de duas décadas, disse que a comunidade já não consegue mais confiar nos anúncios feitos pelas autoridades. “A expectativa a gente tem, né? Mas confiante é igual São Tomé, só vendo para crer, porque essa obra já era para ter sido feita há muito tempo e nunca foi”, afirmou. “Moro aqui há 22 anos. O tempo todo a gente vivendo aqui nessa situação, nesse total descaso do órgão público. Porque toda vez dizem que vão fazer, vão melhorar e nada”, afirmou. “Hoje ficou dele assinar o papel e, na segunda-feira, começar o trabalho deles”, contou.
Segundo Elizabeth, os moradores convivem há anos com alagamentos, ruas destruídas e dificuldades de mobilidade sem que soluções definitivas sejam executadas. Ela relatou que uma ponte localizada na rua Piedade, onde mora, foi levada pela água durante as fortes chuvas e, até hoje, não foi reconstruída. “A gente está isolado aqui. Só pedestre consegue passar. Quem quer ir para o Cordeiro precisa dar uma volta enorme. Quem quer sair pela Paulo Guilherme também não consegue. É um transtorno muito grande”, contou.
VEJA MAIS:
Sentimento dos moradores é de revolta
A moradora afirmou que representantes da prefeitura voltaram a prometer o início das obras após reuniões recentes com a comunidade. De acordo com ela, os moradores decidiram suspender temporariamente um protesto previsto anteriormente depois de receberem a garantia de que o prefeito Igor Normando assinaria a ordem para início dos trabalhos.
“Hoje ficou realmente dele assinar o papel para na segunda-feira começar. A gente recuou do protesto por causa dessa promessa”, disse. No entanto, a paciência dos moradores parece próxima do limite. Elizabeth afirma que, caso nenhuma obra seja iniciada nos próximos dias, a comunidade pretende realizar uma nova manifestação, com interdição total da Arthur Bernardes. “Se não acontecer nada na segunda-feira, na terça a gente fecha totalmente a Arthur Bernardes de novo”, disse.
Ela afirmou que o sentimento predominante entre os moradores é de revolta diante dos prejuízos acumulados após anos de enchentes e promessas não cumpridas. “Enchia a rua, mas a minha casa nunca tinha sido invadida pela água. Dessa vez foi. A gente constrói as coisas com tanto sacrifício e vê tudo indo por água abaixo”, lamentou. Segundo Elizabeth, apesar da presença de equipes da prefeitura após os alagamentos recentes, os problemas estruturais permanecem sem solução.
“O pessoal veio aqui, eles fizeram aquele enxame, mas nada foi resolvido. Nada. É por isso que a gente está revoltada”, afirmou. Os bairros da bacia do Mata Fome estão entre os mais atingidos pelas fortes chuvas registradas em Belém neste ano. Em abril, mais de 44 mil pessoas foram afetadas pelos alagamentos na capital, segundo dados divulgados pela própria prefeitura. Moradores da Pratinha, Tapanã, Parque Verde e Cabanagem seguem cobrando ações definitivas para conter os impactos das enchentes e evitar novos prejuízos durante o inverno amazônico.
Foi exatamente isso que a empregada doméstica Ana Cláudia Ferreira da Silva, de 37 anos, resumiu ao relatar o desespero vivido pela família durante os temporais. Moradora da Pratinha 2, ela afirma que o medo virou rotina dentro de casa. “Em uma noite de chuva, é uma sensação de medo. É o medo de nós acordarmos à noite e nos depararmos com a nossa casa inundada”, contou. “A gente vê os objetos que trabalhamos para conquistar sendo danificados pela água. E quando eu saio para trabalhar, fico preocupada com meus filhos dentro de casa”, disse.
Segundo ela, a insegurança já afeta emocionalmente toda a família. “Minha filha, quando vê uma chuva, pergunta: ‘mãe, vai chover hoje?’. Ela ficou traumatizada com a água entrando dentro de casa”, relatou. A dona de casa Maria Rodrigues dos Santos, de 47 anos, também resume a indignação dos moradores da região. “Esse projeto nunca saiu do papel. Chega de sofrer. Entra político e sai político, falam que esse projeto está pronto, mas nunca foi feito”, afirmou.
Linha do tempo das promessas
O mais recente capítulo dessa história começou em 25 de novembro de 2024, quando Igor Normando, então prefeito eleito de Belém, publicou um vídeo nas redes sociais anunciando que havia “destravado” recursos para grandes obras de infraestrutura da capital. Entre elas, a macrodrenagem do canal do Mata Fome.
“Turma, tá destravado”, afirmou na gravação, ao lado de lideranças políticas em Brasília. Na ocasião, o então prefeito eleito disse que 2025 seria um “marco” para Belém e que havia garantido recursos para obras consideradas prioritárias.
O Prommaf já era apresentado como o maior programa de macrodrenagem planejado para a periferia da capital paraense. O projeto prevê investimentos de R$ 583 milhões, incluindo US$ 60 milhões financiados pelo Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata), além de recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
No entanto, antes mesmo do anúncio, dois fatos importantes já cercavam o projeto. Em setembro de 2024, durante entrevista à TV Liberal, Igor Normando afirmou que faria a licitação da obra - embora o processo já estivesse em andamento na época. Pouco depois, em novembro daquele mesmo ano, a Polícia Federal deflagrou a Operação Óbolo de Caronte, que investigou supostas irregularidades em contratos da Secretaria Municipal de Saneamento relacionados justamente às obras da bacia do Mata Fome.
A investigação apontou suspeitas de fraude em licitações, corrupção e lavagem de dinheiro envolvendo contratos milionários da gestão anterior. A empresa F.A.S. Serviços Técnicos, contratada para executar parte das intervenções, tornou-se alvo da operação.
Já em janeiro de 2025, o Tribunal de Contas dos Municípios do Pará (TCM-PA) suspendeu a única licitação aberta pela nova gestão para o Prommaf. O próprio Fonplata teria solicitado a revogação do processo por perda de confiança. Desde então, segundo moradores e órgãos de fiscalização, nenhuma nova licitação foi concluída, nenhum contrato foi formalizado e nenhuma obra estruturante começou efetivamente na bacia do Mata Fome.
Enquanto isso, os alagamentos continuam
A situação atingiu o ápice na madrugada de 19 de abril de 2026, quando Belém registrou cerca de 150 milímetros de chuva em menos de 24 horas — a maior precipitação da última década. Os bairros mais afetados foram justamente os localizados na bacia do Mata Fome. Ao todo, 44 mil pessoas sofreram impactos diretos e 13 mil ficaram desalojadas. Diante do cenário, a prefeitura decretou estado de emergência.
Dias depois, a gestão municipal voltou a anunciar o “início da primeira etapa” da macrodrenagem do Mata Fome. A ação previa limpeza do canal, retirada de lixo e atuação de equipes emergenciais. Porém, moradores, lideranças comunitárias e órgãos de controle passaram a questionar a ausência de contratos formalizados, licitações publicadas e cronogramas detalhados.
Em maio deste ano, a prefeitura chegou a marcar uma reunião com moradores da Pratinha, representantes da Defensoria Pública e do Ministério Público para apresentar detalhes do Prommaf. O encontro, no entanto, foi cancelado pela segunda vez, aumentando ainda mais a insatisfação da comunidade. Sem respostas concretas, moradores passaram a organizar protestos e interdições de vias para cobrar ações definitivas. Em abril, residentes da Pratinha 2 bloquearam a rodovia Arthur Bernardes em protesto contra os alagamentos e a demora no início das obras.
Apesar das críticas, a Prefeitura de Belém atribui parte dos atrasos aos problemas herdados da gestão anterior e às investigações conduzidas pela Polícia Federal. Já o ex-prefeito Edmilson Rodrigues rebate e afirma que os recursos para o programa estavam garantidos desde sua administração. No centro da disputa política, porém, permanecem milhares de moradores que convivem diariamente com o medo da próxima chuva.
O que diz a Prefeitura de Belém:
Sobre o Programa de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Mata Fome (Prommaf), a Prefeitura de Belém informa que o Programa de Macrodrenagem da Bacia do Mata Fome segue como uma das prioridades estratégicas da atual gestão e está contemplado no Plano Plurianual (PPA) 2026-2029. Conforme atualização apresentada pela Prefeitura durante reunião do Comitê da Bacia do Mata Fome, realizada em outubro de 2025, as obras de macro e microdrenagem e de infraestrutura viária, que haviam sido paralisadas ainda na gestão anterior. O programa atende prioritariamente os bairros do Tapanã, Pratinha, Parque Verde e São Clemente, beneficiando diretamente cerca de 250 mil moradores da região.
Sobre os questionamentos relacionados às investigações da Polícia Federal e à suspensão da licitação pelo Tribunal de Contas dos Municípios, a atual gestão esclarece que as apurações dizem respeito a procedimentos administrativos da gestão anterior. Desde o início do novo governo, foram adotadas medidas para assegurar total transparência, legalidade e continuidade do programa, incluindo revisão técnica dos processos licitatórios, colaboração integral com os órgãos de controle e reestruturação administrativa da Unidade de Gerenciamento do Programa. O processo licitatório foi revisado e um novo edital deverá ser publicado em conformidade com as exigências legais e técnicas estabelecidas pelos órgãos fiscalizadores. (Agência Belém).
Enquanto as obras estruturantes não têm início, a Prefeitura informa que mantém ações emergenciais permanentes voltadas à mitigação dos impactos dos alagamentos nas áreas mais críticas da bacia. Entre as medidas previstas estão a osvimentao e demagem de 40 ruas; que ja começam na próxima quarta- feira (20); intensificação de limpeza e desobstrução de canais e redes de drenagem, manutenção preventiva de galerias, monitoramento das áreas de risco e articulação com equipes de assistência social e defesa civil para atendimento às famílias eventualmente afetadas por eventos climáticos extremos.
A Prefeitura de Belém reafirma seu compromisso com a execução do Prommaf, reconhecendo a urgência histórica da intervenção na Bacia do Mata Fome e a importância do programa para melhoria das condições ambientais, sanitárias e de mobilidade urbana da região.
Palavras-chave