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Após dois meses vivendo no aeroporto de Belém, mulher consegue passagem e deve seguir para o Panamá

Fatmata Sessai, de 56 anos, deverá embarcar na próxima segunda-feira (22)

Ana Laura Carvalho

Após cerca de dois meses vivendo no Aeroporto Internacional de Belém, a estrangeira Fatmata Sessai está próxima de encerrar o período de dificuldades enfrentado na capital paraense. Com apoio do Ministério Público do Estado do Pará (MPPA), a passagem aérea para o Panamá foi adquirida nesta quinta-feira (18), permitindo que a mulher siga viagem nos próximos dias. Ela deverá embarcar na próxima segunda-feira (22).


Natural de Serra Leoa, país localizado na costa oeste da África, Fatmata relatou que deixou seu país de origem e passou a viver no Brasil, onde morou em São Paulo ao lado de um dos filhos. Segundo ela, trabalhava como vendedora ambulante na capital paulista. Ao tentar viajar para o Panamá, onde afirma ter outro filho e demais familiares, fez uma conexão em Belém. Foi durante essa etapa do trajeto que, de acordo com seu relato, teve o passaporte furtado, situação que impediu a continuidade da viagem.

Fatmata está em Belém desde dezembro de 2025. Sem o documento, após terminar os recursos para hospedagem e alimentação, Fatmata permaneceu dormindo no terminal aeroportuário por aproximadamente dois meses. 

De acordo com informações do órgão de assistência social de Belém - a Funpapa, a Prefeitura de Belém vem acompanhando a situação de Fatmata desde dezembro de 2025. A gestão municipal disponibilizou um cartão para utilização gratuita do transporte público. Com isso, ela passou a frequentar o Restaurante Popular e o Espaço Acolher, onde tinha acesso à alimentação, banho e lavanderia.

Apesar do suporte oferecido pelos órgãos de assistência social, a estrangeira optou por permanecer no aeroporto e recusou encaminhamento para unidades de acolhimento.

Para viabilizar a continuidade da viagem, um novo passaporte foi emitido pela Polícia Federal. Antes do embarque, porém, Fatmata ainda deverá providenciar o visto necessário e cumprir as exigências sanitárias para ingresso no país de destino, incluindo a atualização das vacinas exigidas para a viagem internacional.

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Investigação e omissão por parte do Aeroporto de Belém

A Polícia Federal também investiga o desaparecimento do primeiro passaporte e busca identificar quem teria furtado o documento da mulher. Além disso, de acordo com o Ministério Público do Estado do Pará, há indícios de uma possível omissão por parte do Aeroporto Internacional de Belém, que não teria comunicado a situação aos órgãos competentes quando o caso foi identificado. O episódio segue sob apuração.

A previsão é que Fatmata embarque no próximo dia 22 de junho. Saindo de Belém, o trajeto prevê uma escala no Rio de Janeiro, seguida de conexão em Bogotá, na Colômbia, antes da chegada ao Panamá, onde pretende reencontrar familiares e recomeçar a vida.

O caso ganhou repercussão nas últimas semanas após a situação da estrangeira ser divulgada e mobilizar a atuação de órgãos públicos e a solidariedade de pessoas que acompanharam sua história no terminal aeroportuário.

De acordo com o promotor de Justiça Nadilson Portilho, o Ministério Público tomou conhecimento do caso por meio da imprensa e passou a acompanhar a situação para garantir a proteção dos direitos da mulher. “Nós tivemos conhecimento desse caso por meio da imprensa. Estamos acompanhando a senhora Fatmata para dar todo apoio necessário. Ela já está com as passagens compradas ao destino que ela quer ir e vamos continuar acompanhando até o embarque”, afirmou.

Direitos garantidos

O promotor destacou ainda que estrangeiros possuem os mesmos direitos fundamentais garantidos aos brasileiros e defendeu que situações como essa sejam tratadas sem discriminação. “A gente estranha muito as pessoas quererem ficar julgando, quererem saber de onde veio, para onde vai, porque não cabe a gente julgar. O ser humano é livre para se locomover nos países e lugares com fronteira aberta. É um direito das pessoas, mas é importante destacar que aos estrangeiros são reconhecidos os mesmos direitos fundamentais que aos brasileiros no Brasil”, disse.

Portilho também ressaltou que casos envolvendo pessoas em situação de vulnerabilidade devem ser comunicados imediatamente às autoridades competentes. “Toda vez que um caso como esse acontece, os espaços, a exemplo do aeroporto, devem comunicar situações de violação de direitos e desamparo. Devem comunicar aos órgãos de assistência e ao Ministério Público para que sejam tomadas as providências. Eles são responsáveis pelo que acontece nesses espaços”, declarou.

Sobre a permanência da mulher no terminal, o promotor explicou que a principal dificuldade foi a necessidade de emissão de um novo documento de viagem. “O que aconteceu e que ainda está sendo investigado foi que alguém tomou o passaporte dela e não devolveu. Em razão disso, ela teve que esperar a emissão de um novo passaporte para poder comprar as passagens novas”, afirmou.

Segundo ele, mesmo após receber oferta de acolhimento, Fatmata preferiu permanecer no aeroporto até a data do embarque. O Ministério Público informou que continuará acompanhando o caso até que a viagem seja concluída.

"Nova vida”, diz estrangeira

Na expectativa de embarcar para o Panamá, Fatmata demonstra esperança de deixar para trás o período de incertezas vivido em Belém. Mesmo falando português de forma limitada, ela conversou brevemente com a reportagem na porta do aeroporto e resumiu o que espera encontrar no destino final: “Nova vida”.

Ao recordar os quase dois meses em que permaneceu no terminal após perder o passaporte, também falou sobre as dificuldades enfrentadas durante o período em que ficou sem os documentos. “Dois meses aqui”, disse. Segundo ela, a situação foi marcada por sofrimento e incerteza enquanto aguardava a regularização da documentação necessária para seguir viagem.

Fatmata afirmou ainda que está ansiosa para reencontrar os familiares que a aguardam no Panamá. Ao falar sobre a expectativa de rever a família, resumiu o sentimento em poucas palavras: “Fica feliz”, declarou.

A estrangeira também revelou o desejo de reunir a família novamente. Ela contou que gostaria de levar para o Panamá o filho que atualmente mora em São Paulo, para que possam viver juntos no país onde pretende recomeçar a vida ao lado dos demais familiares.

RESPOSTAS - A Prefeitura de Belém, por meio da Fundação Papa João XXIII (Funpapa), informou que a migrante vem sendo acompanhada pelas equipes de assistência social desde dezembro de 2025. Ela foi atendida várias vezes no Centro POP, no bairro de São Brás, onde costuma fazer as alimentações diárias. Além disso, a migrante foi incluída no CadÚnico, por meio da Funpapa, e passou a receber o Bolsa Família por meio dessa intervenção.

A Prefeitura informa, ainda, que a equipe de Assistência Social da Funpapa encaminhou a migrante para o Serviço de Acolhimento Institucional para Mulheres e Famílias em Situação de Rua, assim como fez o encaminhamento da mesma para o Espaço Acolher, que atende pessoas em situação de rua durante o período noturno. Mas ela se recusa a ir, e a Fundação Papa João XXIII segue as diretrizes da política nacional da assistência, que não permite acolhimento compulsório, respeitando o direito de ir e vir do beneficiário. A Funpapa reforçou que irá dar continuidade às abordagens, com o devido acompanhamento psicossocial e os devidos encaminhamentos.

A Norte da Amazônia Airports (NOA), concessionária do Aeroporto Internacional de Belém, informou que, "desde que tomou conhecimento da situação da passageira estrangeira Fatmata Sessai, adotou as providências cabíveis dentro dos limites de sua competência institucional".

A administração do Aeroporto diz que buscou o apoio e o encaminhamento adequado, "a concessionária manteve contato com órgãos públicos responsáveis pela assistência social e pelo atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de Belém, a Fundação Papa João XXIII (FUNPAPA) e a Secretaria de Estado de Justiça (SEJU), apresentando o caso e solicitando orientações sobre as medidas cabíveis".

"A concessionária também buscou informações junto à Polícia Federal e à companhia aérea mencionada pela passageira, na tentativa de compreender melhor as circunstâncias relatadas e identificar possíveis formas de apoio. Entretanto, em razão das limitações legais aplicáveis e da natureza das informações sob responsabilidade das autoridades competentes, não foi possível à concessionária atuar além das medidas de suporte já adotadas".

Por fim, a NOA esclareceu que "permanece colaborando com as autoridades competentes e reforça seu compromisso com a responsabilidade social e a segurança de todos os que utilizam o aeroporto".