Após decisão da Anvisa, médico em Belém alerta para alta de 56% no diabetes tipo 2 entre jovens
"Cenário preocupante", diz endocrinologista Rubens Tofolo Junior sobre avanço do diabetes em crianças e adolescentes no Brasil
"O que a gente está vendo hoje é um aumento de 56% nos casos de diabetes tipo 2 entre crianças e adolescentes no Brasil - algo que não víamos anteriormente e que pode trazer complicações graves cada vez mais cedo.” A afirmação é do médico endocrinologista Rubens Tofolo Junior, de Belém. Ele comentou a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de ampliar o uso da tirzepatida (Mounjaro) para pacientes de 10 a 17 anos.
A medida surge em meio ao avanço da doença nessa faixa etária, que já soma cerca de 213 mil jovens com diagnóstico e outros 1,5 milhão em condição de pré-diabetes no país, ampliando as possibilidades de tratamento - ainda que restritas a casos confirmados da doença. A ampliação do uso da tirzepatida para crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 ocorre em meio a um cenário preocupante no Brasil, marcado pelo avanço expressivo da doença nessa faixa etária e pelo aumento de fatores de risco como sedentarismo e excesso de peso.
A Anvisa passou a autorizar a prescrição do medicamento - comercializado como Mounjaro - para pacientes entre 10 e 17 anos diagnosticados com diabetes tipo 2. A medida amplia as possibilidades de tratamento, que deve ser sempre realizado com orientação e acompanhamento médico especializado. A Anvisa publicou no Diário Oficial da União desta quarta-feira (22), a ampliação de indicação terapêutica do medicamento Mounjaro® (tirzepatida) para o tratamento de diabetes mellitus tipo 2.
O médico endocrinologista Rubens Tofolo Junior disse que está havendo um aumento substancial de diabetes nessa faixa etária. No Brasil, houve um aumento de 56% dos casos. Segundo ele, atualmente o Brasil registra cerca de 213 mil crianças e adolescentes com diabetes tipo 2 e aproximadamente 1,5 milhão com pré-diabetes nessa faixa etária. Fora isso há as complicações oriundas dessa doença. “Então a Anvisa resolveu ampliar um pouco o portfólio, liberando a tirzepatida, que é o Mounjaro, para essa faixa etária. Mas apenas para crianças diabéticas; não foi liberado ainda para crianças que estejam com sobrepeso ou obesidade”, disse.
VEJA MAIS:
O especialista explicou que existem dois tipos principais da doença. “O diabetes tipo 1 é aquele que é mais comum em crianças e adolescentes. O pâncreas deixa de produzir insulina, então o tratamento é à base de insulina. Já o diabetes tipo 2 é mais comum em adultos, a partir de 40 anos, e ocorre por resistência à ação da insulina no corpo. Ou seja, a insulina que é produzida pelo pâncreas não consegue colocar essa glicose para dentro da célula e, com isso, as pessoas se tornam diabéticas”, explicou.
Ele acrescentou: "E o que acontece? A gente está vendo um reverso: um aumento desse diabetes tipo 2 na faixa etária de 10 a 17 anos de idade. O que a gente não via anteriormente. Isso pode ser muito grave porque, quanto mais cedo você tem esse diabetes tipo 2, principalmente em crianças e adolescentes, maior o risco de complicações sérias”, contou. Entre os principais fatores associados a esse crescimento estão o sedentarismo e o excesso de peso. “Mas fora isso é muito importante o histórico familiar. Se a criança tem o pai ou a mãe diabético tipo 2. Se um dos pais for diabético, a chance é de 40%. Se os dois forem diabéticos, a chance dessa criança se tornar diabética sobe para em torno de 70%”, afirmou Rubens Tofolo Junior.
Se uma criança está com diabetes tipo 2, o tratamento inicial é com mudança de estilo de vida. Ou seja: fazer uma reeducação alimentar e uma atividade física. "Para essa faixa etária, recomendamos 60 minutos de atividade física, três vezes por semana", disse. “Mesmo com essa mudança de estilo de vida, e se não houver realmente o controle do diabetes, aí sim devemos entrar com as substâncias chamadas análogos de GLP-1 ou metformina, que é outra droga que a gente usa para essa faixa etária”, afirmou.
Rubens Tofolo Jr também citou um dado alarmante: hoje, no Brasil, 83% das crianças e adolescentes são sedentários. “Só 17% fazem alguma atividade física”, reforçou. Outro ponto de alerta é o uso irregular do medicamento - compra dessas canetas de forma clandestina. “Se você está com uma criança que está com excesso de glicose na corrente sanguínea, essa criança ou adolescente deve ser consultado com um endocrinologista. E, se houver indicação para o uso da tirzepatida, que essa medicação, que é o Mounjaro, deva ser comprado na farmácia e não comprado de forma clandestina, principalmente de canetas falsificadas vindas do Paraguai”, disse.
Ainda segundo o médico Rubens Tofolo Junior, essas canetas falsificadas podem causar efeitos colaterais graves, como desidratação, convulsões, pancreatite e até risco de morte. O acompanhamento médico também é essencial. “Pelo menos uma vez ao ano essas crianças e adolescentes devem passar por avaliação”, recomendou. Sobre a prevenção, o endocrinologista orientou que os pais fiquem mais atentos aos hábitos alimentares dos filhos. “Que incentivem essas crianças a fazerem algum tipo de atividade física, principalmente se um dos pais for diabético. É muito importante os pais terem essa consciência de tentar melhorar a qualidade de vida de suas crianças logo cedo”, afirmou.
Ele também chamou a atenção para os sinais da doença, que podem ser discretos no início. “Em geral, a diabetes é uma doença insidiosa. Ou seja: tem poucos sintomas no início. Depois que ela vai se tornando um pouco mais grave é que os sintomas ficam mais pertinentes”, disse. Mas os pais devem observar se a criança começa a perder peso sem causa aparente, urinar mais, sentir mais fome e mais sede. “Se apresentar um desses sintomas, os pais realmente devem procurar auxílio médico. E não esquecer de fazer, pelo menos uma vez por ano, esse exame da glicemia nos seus filhos”, afirmou.
Quadro de orientação: diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes
Sinais de alerta
Perda de peso sem causa aparente
Aumento da frequência urinária
Sede excessiva
Fome constante
Quando procurar o médico
Ao identificar um ou mais desses sintomas
Em casos de sobrepeso, sedentarismo ou histórico familiar de diabetes
Para avaliação de rotina, mesmo sem sintomas aparentes
Procedimento médico correto
Consulta com endocrinologista
Realização de exames de glicemia
Acompanhamento regular (pelo menos uma vez ao ano ou conforme orientação médica)
Tratamento inicial
Reeducação alimentar
Prática de atividade física regular
Uso de medicamentos
Apenas com prescrição médica
Seguir rigorosamente a orientação do especialista
Atenção
Não utilizar medicamentos de origem clandestina
Produtos falsificados podem causar efeitos graves à saúde
Esse conjunto de cuidados é essencial para o diagnóstico precoce e o controle adequado da doença.
Fonte: médico endocrinologista Rubens Tofolo Junior
Palavras-chave