'O Pará está na moda': identidade cultural impulsiona empreendedores e ganha novos mercados
Símbolos regionais viram produtos e reforçam a identidade amazônica
Para o Brasil, o Pará está na moda. Em 2025, o estado ganhou projeção ao evidenciar sua cultura, culinária e potencial econômico, especialmente com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP 30, que trouxe autoridades de diversas partes do mundo a Belém. Para quem vive na região, essa identidade é motivo de orgulho e se fortalece a cada dia. O jeito paraense se manifesta no cotidiano, nos hábitos e nas expressões que marcam a vida local.
Essa realidade também é registrada diariamente pelo jornal Amazônia, que em abril de 2026 completa 26 anos de trajetória. Ao longo desse período, o veículo acompanhou as transformações do estado e destacou suas particularidades. Com linguagem próxima do público e foco nos cenários político, econômico e social, o jornal se consolidou como uma das principais fontes de informação do Pará. Fundado em 2000 e integrante do Grupo Liberal, mantém o compromisso de retratar o que é próprio da região.
Assim como o Amazônia, que há mais de duas décadas evidencia o jeito paraense de ser, empreendedores locais também têm transformado a cultura em marca. Iniciativas como as da estilista Val Valadares e do Instituto Letras que Flutuam mostram como símbolos e referências regionais vêm sendo incorporados a produtos que reforçam a identidade amazônica e ampliam a visibilidade do Pará.
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Moda com identidade
Na capital paraense, esse movimento se reflete na moda. A estilista Val Valadares tem apostado na incorporação de elementos regionais em suas criações. À frente do ateliê que leva seu nome, ela passou a explorar de forma mais direta a identidade paraense a partir de 2023, quando participou de uma parceria com o Sebrae Pará para desenvolver uma coleção inspirada no grafismo marajoara para a COP 30.
“Meu primeiro contato com a moda regional, com identidade paraense, aconteceu apenas em 2023, a partir de uma parceria com o Sebrae Pará. Na ocasião, recebi o desafio de desenvolver uma cápsula marajoara voltada para a COP 30”, afirma.
Desde então, os grafismos marajoaras passaram a integrar suas peças com uma abordagem mais contemporânea. “Busco trabalhar com uma estética que vai desde uma paleta de cores terrosas até o uso das cores tradicionais, mas sempre de maneira leve, sutil e elegante”, explica.
Durante a realização da COP 30, a procura pelas peças cresceu significativamente. “Cheguei a vender cinco vezes mais do que em meses anteriores”, destaca a estilista. O público, segundo ela, é formado majoritariamente por consumidores de maior poder aquisitivo, interessados em produtos com acabamento diferenciado e identidade cultural.
Apesar da boa receptividade, Val avalia que ainda há desafios para consolidar a moda paraense em outros mercados. “A moda está em constante transformação, e a ancestralidade, se não for bem aplicada, pode gerar resistência em diferentes mercados”, observa. Para ela, o crescimento do setor passa, necessariamente, pela valorização da qualidade. “O mercado fora do estado é bastante exigente — e a moda, em especial, demanda um nível de excelência ainda maior”, completa.
Tradição que vira produto
Para além da moda, a cultura paraense também se transforma em produto em outras iniciativas. Um exemplo é o trabalho do Instituto Letras que Flutuam, que atua na valorização dos chamados “abridores de letras”, responsáveis pelas pinturas tradicionais em embarcações amazônicas.
A pesquisadora Fernanda Martins explica que a iniciativa surgiu a partir de um longo processo de estudo e articulação. “O Instituto Letras que Flutuam surgiu a partir de mais de 20 anos de pesquisas sobre os abridores de letras”, afirma. Formalizado em 2024, o projeto tem como objetivo fortalecer esse saber tradicional e contribuir para a geração de renda entre os ribeirinhos.
As chamadas letras de barco, antes restritas às embarcações, passaram a ocupar novos espaços e hoje são reconhecidas como um dos principais símbolos da identidade amazônica. “Se no passado o grafismo marajoara era a principal referência visual, hoje as letras de barco assumiram esse papel”, destaca.
Esse elemento cultural é incorporado em produtos como placas, camisetas, cadernos e peças em miriti, adaptando a tradição ao mercado contemporâneo. Durante a COP 30, houve aumento na demanda, especialmente por parte de empresas interessadas nesse tipo de estética. Ainda assim, Fernanda aponta limitações na inclusão dos artistas no evento. “Houve uma subutilização desses profissionais no contexto da COP”, avalia.
Para o instituto, um dos principais desafios está na valorização efetiva desse trabalho. “Ainda há um descompasso entre o reconhecimento cultural e a valorização econômica”, afirma. Segundo ela, a busca por preços mais baixos muitas vezes dificulta a consolidação de produtos que carregam processos artesanais e identidade local.
Além disso, fatores como as grandes distâncias na Amazônia e a necessidade de inserir esses trabalhadores em um mercado global também são obstáculos. Por outro lado, o crescimento do interesse por produtos com identidade regional abre novas possibilidades. Nesse cenário, a atuação do instituto como ponte entre tradição e mercado tem sido fundamental para ampliar o alcance desses produtos sem perder sua essência cultural.
*Thaline Silva, estagiária de jornalismo, sob supervisão de Keila Ferreira, coordenadora do núcleo de Política e Economia
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