Por que calouros raspam o cabelo? Conheça a origem medieval do trote
Costume começou como "purificação" simbólica, sendo trazido ao Brasil no século 19, onde se tornou tradição
A prática de raspar o cabelo de calouros universitários, comum em trote acadêmico, tem origem na Europa medieval. Este ritual de iniciação é marcado por humilhação simbólica e violência. O costume surgiu para “purificar” e “civilizar” os estudantes recém-chegados. Veteranos os consideravam ignorantes e sem hábitos adequados à vida acadêmica.
Registros históricos indicam que o trote ocorria desde o século 14, com relatos de 1342 na Universidade de Paris e descrições detalhadas em 1491 na Universidade de Heidelberg, Alemanha.
Origem do trote: calouros como "bicho do mato"
Na Idade Média, o calouro era retratado como um “bicho do mato”. Essa imagem o associava a alguém analfabeto, com cabelos longos, barba e pouca higiene. Cabia aos veteranos transformá-lo em integrante adequado da comunidade universitária. Raspar o cabelo, depilar o corpo e submeter a banhos forçados eram rituais simbólicos.
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A ideia era remover a sujeira física e a ignorância intelectual, preparando o estudante para a vida acadêmica formal.
Higiene e simbolismo da raspagem do cabelo no trote
Além do significado simbólico, a raspagem de cabelo tinha um componente prático. Em períodos de surtos de peste e piolhos, cortar os cabelos era medida de higiene e prevenção de doenças.
Contudo, o aspecto simbólico da “purificação” permaneceu como o principal. Reforçava a hierarquia entre veteranos e calouros, legitimando práticas de submissão.
Humilhação e violência: a regra no trote antigo
Os relatos mais extremos vêm da Universidade de Heidelberg. Documentos descrevem calouros insultados publicamente. Eles tinham cabelos e pelos raspados à força e eram obrigados a beber uma mistura com urina. O objetivo era deliberadamente humilhar o novato.
Ao final do ritual, o calouro jurava repetir as práticas com a próxima geração. Este pacto ajudou a perpetuar o trote, mantendo a lógica de violência simbólica.
Trote no Brasil: da Europa ao século 19
As práticas se espalharam por universidades europeias, como a Universidade de Coimbra, em Portugal. Lá, os trotes com humilhações físicas e simbólicas se consolidaram.
Com a formação do ensino superior brasileiro no século 19, muitos costumes acadêmicos portugueses foram trazidos. Entre eles, o trote universitário, a raspagem de cabelo e o uso de “bicho” para calouros.
No Brasil, os rituais ganharam tom mais festivo e de rua. Contudo, mantiveram elementos de humilhação, resultando em violência e mortes documentadas desde 1831.
Como é o trote universitário atualmente
Atualmente, em países da Europa e nos Estados Unidos, esse tipo de trote desapareceu das universidades. Ele sobrevive em fraternidades e grupos específicos. A prática é vista como incompatível com o ambiente acadêmico. No Brasil, instituições buscam substituir o trote de raspagem de cabelo por recepções consentidas e ações solidárias.
Ainda assim, tradições antigas persistem em muitos cursos, mantendo viva uma prática com raízes medievais. Como diz Pinduca no "hino dos calouros": "já não sou mais cabeludo, estou de cabeça raspada”.
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