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Mãe salvou modelo brasileira de ser recrutada para esquema de Epstein, diz BBC

Glaucia, que tinha 16 anos na época, teria sido convidada para participar de um concurso de modelos em Guayaquil, no Equador

Estadão Conteúdo

A modelo brasileira Glaucia Fekete se salvou de ser cooptada pela rede de tráfico sexual comandada pelo financista americano Jeffrey Epstein, morto em 2019, devido a uma proibição da mãe de viajar para Nova York em 2004. A informação é de reportagem publicada nesta quinta-feira, 26, pela emissora britânica BBC.

Glaucia, que tinha 16 anos na época, teria sido convidada para participar de um concurso de modelos em Guayaquil, no Equador. A mãe dela, Bárbara Fekete, desconfiou da situação, mesmo com a promessa de um prêmio de US$ 300 mil dólares para a vencedora e a possibilidade de contratos internacionais.

Para convencê-la, o francês Jean-Luc Brunel, que foi agente de modelos e era considerado "braço direito" de Epstein, visitou a casa da família na cidade de Santa Rosa, no interior do Rio Grande do Sul, a 490 km de Porto Alegre.

Brunel conseguiu convencer Bárbara a permitir a participação de Glaucia no concurso. O recrutador francês prometeu que a jovem brasileira seria a vencedora da disputa em Guayaquil, o que acabou não se tornando realidade.

O evento, chamado "Models Next Generation", teve 50 jovens com idades entre 15 e 19 anos desfilando e foi bastante coberto pela imprensa equatoriana. Mesmo sem vencer, Glaucia foi convidada por Brunel para ir a Nova York, numa suposta oportunidade de iniciar uma carreira internacional.

No entanto, Bárbara não permitiu que a filha viajasse e o convite para ir aos Estados Unidos foi rejeitado. "Aí eu voltei brava com a minha mãe, porque ela não me deixou ir para Nova York", contou Glaucia à BBC Brasil.

Agora ela vê o episódio de outra forma. "Mesmo sem saber, estava no meio desse furacão todo, né? Realmente foi um livramento", considera.

"Criei meus filhos com tanto amor e carinho e aí vou largar na mão de quem eu não conheço?", disse Bárbara à BBC, explicando porque não permitiu a viagem da filha. Ela citou outra razão: uma experiência anterior da filha em que ela havia tentado carreira como modelo em São Paulo, mas teve que lidar com questões financeiras.

A desconfiança da mãe teve um papel fundamental na história. "Eu tinha uma coisa na minha cabeça, que isso não era coisa certa. Não poderia ser. Procuravam só crianças, menores. Infelizmente acharam a minha filha", relembrou Bárbara. "Minha mãe me salvou", refletiu Glaucia.

Interesse no Brasil

Brunel foi acusado de estupro, agressão sexual e assédio sexual. Ele foi preso em dezembro de 2020 e morreu em uma cela em Paris, na França, em 2022, antes de ser julgado.

Nos arquivos do caso Epstein divulgados ao público pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, há evidências de que Epstein manifestou interesse na compra de agências de modelos brasileiras com o objetivo de "ter acesso a garotas". Também é sugerido que ele poderia comprar revistas e até organizar concursos de beleza com a mesma meta.

E-mails mencionam possíveis vítimas brasileiras, como uma menina de família pobre do Rio Grande do Norte que seria traficada e outra chamada Juliana, de 21 anos.

A vítima brasileira mais conhecida de Epstein é Marina Lacerda, de 37 anos, que foi traficada e abusada pelo empresário em 2002, quando vivia em Nova York. Em 2025, ela foi à público para compartilhar sua história junto com outras vítimas do milionário. Lacerda afirma que cerca de 50 brasileiras foram vítimas de Epstein, a maioria delas imigrantes nos EUA.

Em um depoimento à polícia americana, uma testemunha não identificada afirma que Brunel teria traficado quatro meninas brasileiras para os Estados Unidos. Duas delas seriam menores de idade e teriam participado de festas na mansão do milionário em Nova York.