'Era um sonho dela bem grande ser mãe', diz irmã de juíza que morreu após coleta de óvulos
Luíza Ferreira, 30 anos, irmã de Mariana, diz que a juíza sempre quis fazer o congelamento dos óvulos
A juíza Mariana Francisco Ferreiro, de 34 anos, faleceu após realizar uma coleta de óvulos em Mogi das Cruzes (SP). A magistrada encarava a maternidade como um projeto de vida e sonhava em gestar. Familiares e amigos expressaram profunda tristeza e acusam uma "sucessão de negligências" no procedimento que levou à sua morte.
A irmã de Mariana, a advogada Luíza Ferreira, de 30 anos, relatou que a juíza sempre desejou o congelamento dos óvulos. Contudo, ela esperou alcançar estabilidade no cargo, considerando o alto investimento envolvido no processo.
Mariana decidiu iniciar o processo pouco após completar os dois anos de período probatório em sua atuação na comarca do Rio Grande do Sul. "Ela estava bem ansiosa. Era um sonho bem grande ser mãe", contou Luíza sobre a expectativa da irmã.
O Preparo Rigoroso e o Sonho
O assessor no Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e amigo da juíza, Maurício Silva Colferai, de 39 anos, confirmou que Mariana era extremamente zelosa com a saúde. Nas semanas que antecederam o procedimento, ela seguiu rigorosamente o protocolo médico.
"Ela seguia os horários dos remédios, deixou de fazer exercícios intensos e não tomava bebida alcoólica por conta dos hormônios. Mariana estava muito feliz com o que estava vivendo", disse Colferai.
O Procedimento e a Tragédia
Mariana sofreu duas paradas cardíacas e teve dois órgãos retirados durante um procedimento cirúrgico no Hospital Mogi-Mater. A cirurgia foi autorizada pelo ginecologista Maurício Ligabô, responsável pela coleta dos óvulos na Clínica Invitro Reprodução Assistida, cerca de 28 horas após a entrada da juíza no hospital.
A defesa de Ligabô alegou que ele permaneceu com a equipe médica para prestar auxílio e que aguarda laudos conclusivos. A mãe de Mariana a acompanhou durante o procedimento. A coleta de óvulos ocorreu na manhã de 4 de maio.
Após receber alta e retornar para casa, Mariana começou a sentir fortes dores. Ela retornou à clínica, de onde foi encaminhada a um hospital com um quadro de hemorragia aguda, conforme o boletim de ocorrência.
Inspiração Familiar e Planos Futuros
O contador Frederick Costa de Souza, de 39 anos, amigo de Mariana, afirmou que ela "amava o fato de querer ser mãe". Segundo ele, a juíza era muito apegada à família. "Ela não parava de falar na mãe, sobre o quanto ela era forte e guerreira e como se espelhava nela para assumir a maternidade no futuro."
A decisão de realizar o procedimento em Mogi das Cruzes se deu para que Mariana pudesse ficar próxima de sua mãe, que reside na cidade e poderia acompanhá-la. A Clínica Invitro foi indicada por uma conhecida da família e, após pesquisa, Mariana optou pelo local.
Amigos e familiares revelaram que o desejo de Mariana era ter uma concepção natural. No entanto, ela optou pelo congelamento para preservar a possibilidade de ter filhos no futuro, por considerar que aquele não era o momento ideal.
"Mariana se preocupava muito em buscar um bom pai pro filho dela. Ela dizia que caso o matrimônio com o futuro parceiro acabasse, ela teria a confiança de ter alguém pra estar ali doando amor pra criança", relembrou Souza.
Acusações de Negligência Médica
Conforme noticiado, duas médicas que atenderam a juíza no hospital informaram em depoimento à Polícia Civil que alertaram sobre a necessidade de uma cirurgia de emergência. Durante a internação, o quadro de Mariana piorou, mas, segundo os depoimentos, o médico Ligabô negou várias vezes a necessidade do procedimento cirúrgico.
Colferai relatou que, ao saber do problema no procedimento, ficou preocupado, mas acreditou que Mariana estaria segura sob cuidados médicos. "Mariana não tinha que morrer, não foi uma fatalidade, foi uma sucessão de negligências que resultaram na morte dela", criticou o amigo.
"Ela zelava muito para que o trabalho dela fosse feito da melhor forma possível, e a vida dela se foi porque alguém que não teve o mesmo zelo no trato com a saúde dela", acrescentou Colferai.
Familiares afirmam que, após a morte de Mariana, o médico Maurício Ligabô se ofereceu para auxiliar com o velório. Contudo, a família sentiu pressão do hospital e do médico para que o velório e o enterro fossem providenciados rapidamente. Após a família optar pela autópsia, o último contato com Ligabô ocorreu no hospital para a assinatura de documentos. A mãe de Mariana relatou que, naquele momento, o profissional "não olhou nem na cara dela".
A Vida de Mariana: Sonhos e Dedicação
Mariana dedicou seis anos aos estudos para a magistratura. Em seus momentos livres, ela gostava de assistir filmes e séries com a irmã Luíza. Mesmo à distância, após a mudança para o Rio Grande do Sul, elas mantinham o hábito.
"A minha irmã me ensinou tudo. Não desistir das coisas, acreditar em si mesma e não desistir dos sonhos", disse Luíza. Ela também expressou um lamento profundo: "O que me entristece é que ela morreu sem saber o quanto era amada."
Os amigos guardam memórias afetivas. Frederick, que também era do Rio de Janeiro, lembra que os dois tinham o objetivo de explorar Porto Alegre e estavam sempre em busca de novas experiências. "Comida era uma situação que ela gostava bastante. Pizza era o alimento dela favorito."
No âmbito profissional, Mariana era admirada pela dedicação e pelo cuidado com o próximo. "Ela enxergava as pessoas e tinha apreço em querer que as coisas andassem bem. Exigia a responsabilidade profissional de todo mundo, mas ela também enxergava as nuances que todos temos", concluiu Colferai.
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