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'Devolve o dinheiro, senão me aguarde', diz Deolane para mulher suspeita de pegar R$ 80 mil

A polícia recuperou mensagens de áudio de Deolane

Estadão Conteúdo

Áudios da Operação Vérnix, da Polícia Civil de São Paulo, revelam uma face "agressiva" e "ameaçadora" da influenciadora Deolane Bezerra. A investigação aponta supostos laços dela com a cúpula do Primeiro Comando da Capital (PCC) e faccionados graduados. Em uma ligação, Deolane exige a devolução de R$ 80 mil de Denise Rosane Bastos, sua ex-diarista, suspeita de furtar o dinheiro de seu filho, Kayky.

"Vai lá aonde você guardou, pega e traz na minha casa", ordena Deolane Bezerra em um dos áudios analisados. A influenciadora nega qualquer ligação com o crime organizado, afirmando: "Eu não sou bandida".

A Operação Vérnix, deflagrada em 21 de maio, resultou na prisão de Deolane Bezerra. Ela é acusada de manter "relações estreitas" com um esquema de lavagem de dinheiro do PCC. O líder da facção, Marcos Camacho, o "Marcola Narigudo", e seu irmão Alejandro Júnior, usariam uma transportadora fantasma para ocultar ativos do tráfico.

Indiciamento e Prisão

Na última sexta-feira, dia 29, Deolane Bezerra foi indiciada por lavagem de dinheiro e organização criminosa. Atualmente, ela está recolhida na Penitenciária de Tupi Paulista, a mais de 600 quilômetros da capital paulista.

Os áudios atribuídos a Deolane Bezerra foram entregues à polícia por Denise Rosane Bastos. A ex-diarista declarou estar sofrendo ameaças de morte por algo que nega ter feito: o furto da sacola com os R$ 80 mil do filho de Deolane, Kayky.

Denise trabalhou para Deolane Bezerra desde 2021 e, em 2024, também para os filhos Gilliard e Kayky. Em 24 de novembro passado, após trabalhar no apartamento de Kayky, o jovem a questionou sobre o desaparecimento do dinheiro de seu quarto. A diarista negou envolvimento no sumiço do valor.

A suspeita sobre Denise surgiu após uma imagem que mostrava uma pilha de notas de R$ 100, com uma mensagem da diarista: "Meu patrão é tão bonzinho que acho que ele já separou o meu presente de aniversário, ó".

Outras imagens mostram Denise deixando o prédio no Tatuapé, São Paulo, carregando uma sacola estufada, o que reforçou a suspeita do furto dos R$ 80 mil.

Ameaças da Influenciadora

A polícia recuperou áudios de Deolane Bezerra falando sobre a ex-funcionária, demonstrando impaciência. "A Denise me conhece, de trouxa eu não tenho nem a cara. Ela me conhece...", dizia a influenciadora, disposta a resgatar o dinheiro de Kayky.

Na mesma conversa, Deolane alega que Denise "já tem passagem por roubo" e que "já roubou brinquedo" da casa de seus filhos. Ela finaliza a mensagem: "Devolve, segue a sua vida. Não queira confusão comigo".

Em outro áudio, Deolane Bezerra questiona os indícios do furto: "A mulher entra sem sacola... sai com uma sacola gigante, com uma blusa de frio dentro que não daria metade daquela sacola... toda espalhada e com uma sacola branca em cima? Você acha que isso não é prova?".

Um terceiro áudio reforça a acusação: "O que interessa é que ela entra com uma sacolinha e sai com uma sacola pesada dessa e em cima uma sacola branca que é exatamente a sacola que estava o dinheiro, entendeu?".

Ameaças de Terceiros e Ligações com o PCC

No dia seguinte ao sumiço dos R$ 80 mil, seguranças da influenciadora foram à casa de Denise, em São Paulo. Realizaram buscas nos cômodos e no carro da diarista, além de acessarem seu celular. Denise afirmou ter concordado com a revista por "pressão psicológica e temor".

Após viajar para Ribeirão Preto (SP), Denise começou a receber ligações de números desconhecidos. Nas chamadas, ouvia que o dinheiro "tem origem criminosa" e recebia ameaças: "Mas se você meter o loco em nóis, vai ser pouca ideia, falou?", disse um homem.

O homem continuou, referindo-se aos R$ 80 mil: "Você foi lá, fez sua caminhada lá, firmeza no lance. Só que você não sabia que o dinheiro era do crime....devolve o dinheiro. Só que o dinheiro é nosso".

Outro trecho do áudio sugere envolvimento de Deolane Bezerra e Kayky com o PCC: "A mãe do parceiro, o parceiro fecha com nóis, então faz o favor. Devolve o dinheiro aí, vai tê os oitenta mil de volta".

Uma mensagem de "John Snow" é ainda mais explícita, associando Deolane Bezerra à lavagem de dinheiro do PCC: "Você trabalha lá com o filho da Deolane. Eles trabalha com nóis....lava o dinheiro prá nóis...que é dinheiro do crime".

"John Snow" ameaça: "Nóis não vai prá polícia porque nóis é o crime, mas nóis vamos do nosso jeito. Nóis só quer o dinheiro de volta. Se o dinheiro não aparecer já sabe como nóis vai agir".

O interlocutor reforça: "Você catou o dinheiro lá na caminhada, com o menino lá, filho da Deolane Bezerra que eles são playboy, rico".

A Análise dos Delegados

Os delegados Edmar Rogério Dias Caparroz e Ramon Euclides Guarnieri Pedrão, de Presidente Venceslau, conduzem o inquérito da Operação Vérnix. A investigação levou Deolane Bezerra à prisão.

A investigação da Operação Vérnix começou com uma transportadora de fachada, usada para lavar dinheiro do PCC e ligada a "Marcola Narigudo". Valores milionários transitavam por ela para abastecer 35 empresas de "prateleira" supostamente constituídas por Deolane Bezerra.

Para os delegados, o áudio entregue por Denise possui "elevada relevância probatória". A ameaça não se limita à devolução dos valores, mas "revela, de forma expressa, a alegada origem criminosa do numerário e sua destinação à lavagem de capitais".

Um trecho destacado pelos investigadores é onde o interlocutor diz que o dinheiro "era do crime" e, de forma mais explícita: "Dinheiro oriundo do crime. Nós lava dinheiro com os parceiro lá, a mãe do parceiro, o parceiro fecha com nós".

No inquérito, os policiais afirmam que o "parceiro" mencionado é Kayky, filho de Deolane Bezerra. O contexto das ameaças está ligado ao desaparecimento dos valores no imóvel de Kayky e às cobranças feitas em nome da família.

A "mãe do parceiro", por consequência, aponta para Deolane Bezerra, figura central do caso e vinculada às cobranças à vítima, segundo os delegados.

A fala revela três aspectos, conforme os delegados: o dinheiro seria de origem criminosa; haveria parceria entre o ameaçador e Kayky; e Deolane Bezerra seria "mãe do parceiro" inserida na dinâmica de lavagem de dinheiro narrada.

Os delegados Caparroz e Guarnieri assinalam que o conteúdo transcrito "reforça a hipótese investigativa de que os valores em espécie vinculados ao núcleo familiar de Deolane Bezerra decorrerem de atividade criminosa antecedente".

Eles afirmam que o áudio, se isolado, pareceria uma desavença. Contudo, analisado com outros elementos, "reveste-se de mais uma circunstância corroboradora" da investigação contra a influenciadora e sua ligação com o PCC.

Portanto, o áudio é visto pelos delegados como um elemento que corrobora a tese de lavagem de dinheiro. O interlocutor admite a origem ilícita do valor, vincula-o à família de Deolane Bezerra e descreve uma relação operacional de ocultação de dinheiro criminoso.