Carros que trafegam sem motorista ainda não tem previsão para chegar ao Brasil
"Em cinco anos ainda não teremos”, diz pesquisador da USP

Carros que trafegam sem a necessidade de um condutor - algo que há pouco tempo parecia cenário de ficção científica - já são realidade em países como a China e os Estados Unidos. No início deste mês, um vídeo viralizou após mostrar a reação de usuários de um aplicativo de mobilidade urbana ao notarem que o veículo funcionava sem a presença de motorista ao volante, em Pequim.
VEJA MAIS
Os veículos autônomos são modelos que utilizam a Inteligência Artificial e sensores de última geração como substitutos do comando de um ser humano. No Brasil, o uso desse tipo de tecnologia automobilística ainda se encontra em estágios iniciais, ao passo em que pesquisadores buscam desenvolver meios para torná-la mais segura e acessível.
A falta de regulamentação a respeito da trafegabilidade dos veículos, a ausência de infraestrutura adequada e a sinalização de trânsito deficitária são alguns dos desafios estruturais e econômicos que dificultam a chegada dos carros autônomos no mercado brasileiro.
O professor, pesquisador e doutor da Universidade de São Paulo (USP), Fernando Osório, conta que já desenvolve estudos sobre o tema há mais de duas décadas e que há cerca de 14 anos um veículo autônomo foi desenvolvido pela instituição. Atualmente o equipamento já está na quarta geração de automação.
No entanto, o pesquisador destaca que a realidade ainda está distante de chegar aos consumidores brasileiros, tendo em vista que a implementação de tecnologias como sensores e redes de comunicação exigirá um investimento financeiro significativo, e o alto custo na produção torna pode tornar os veículos inacessíveis para grande parte da população
“Tem um custo enorme por conta dos valores dos equipamentos. Um laser pode custar até 300 mil reais, então imagina o impacto disso no valor do produto no final. Vai ficar absurdamente caro”, afirma Fernando.
“Eu comecei a trabalhar com essa tecnologia no ano de 2000, só aí já vai ¼ de século. Porém, ela ainda não está nem perto de ir para as ruas no Brasil. Algumas empresas começaram a investir, mas já pularam fora do projeto. Então, em cinco anos com certeza ainda não teremos, a menos que aconteça algum milagre completamente para termos carros totalmente autônomos e com toda segurança até lá”, conta o pesquisador.
Fernando explica que esse recuo das empresas pode estar relacionado com as questões éticas e de segurança que ainda precisam ser discutidas a respeito do uso mercadológico da tecnologia no Brasil. “É o que a gente chama de famosa ‘curva do hype’. Essas tecnologias crescem de maneira exponencial, mas depois elas[empresas] caem na realidade e a bolha estoura, porque a situação não é tão fácil assim”, diz.
Legislação
O Código Brasileiro de Trânsito (CTB) ainda não prevê nenhum tipo de legislação sobre o tráfego de veículos autônomos no Brasil, fator que torna proibida a circulação de um carro sem motorista em via pública. Em 2023, um Projeto de Lei proposto pelo deputado Alberto Fraga (PL-DF) chegou a ser apresentado na Câmara dos Deputados, mas até o momento não passou por votação.
“Fazer uma lei leva de 5 a 10 anos, imagina mudar o Código Brasileiro de Trânsito para incluir veículos autônomos”, comenta o pesquisador da USP.
Questões como a responsabilidade em possíveis acidentes, a segurança dos passageiros e a coleta de dados pessoais são apenas algumas das situações que precisam ser debatidas na legislação brasileira para a chegada dos veículos autônomos.
Além disso, de acordo com Fernando Osório, as empresas automobilísticas ainda precisam ajustar detalhes na parte sensorial dos veículos, a fim de evitar que eles cheguem às ruas apresentando riscos à população.
“O ser humano é treinado para o imprevisto. Se você está dirigindo e uma pessoa atravessa fora da faixa de pedestres, ou um animal cruza a estrada, um humano consegue reagir bem e tentar contornar a situação. Já a máquina não. Se um sistema der erro, ela não consegue tratar o imprevisto”, completa.
Inteligência Artificial (IA)
O funcionamento das máquinas se dá por meio de um sistema complexo que combina diferentes componentes à Inteligência Artificial. As informações sobre o ambiente, captadas pelos sensores e câmeras do veículo, são processadas pela IA, que utiliza algoritmos para acelerar, frear, mudar de faixa ou evitar colisões. A IA determina, ainda, as ações que são executadas pelos motores e freios.
Uma classificação internacional enumera os veículos em níveis que vão de 1 a 5, no qual o primeiro corresponde a nenhuma automação e o quinto quer dizer totalmente automatizado.
“A Inteligência Artificial é o coração dos carros autônomos. Ela trabalha a percepção do ambiente, a tomada de decisão e o planejamento e controle do veículo para tornar a viagem mais segura”, detalha o professor Elton Sarmanho, doutor em Ciência da Computação e professor da UFPA.
Segundo o pesquisador, para que a IA possa alcançar a autonomia automobilística é necessário uma combinação de hardware e software para processamento de dados em tempo real. “Existem uma série de sensores que são as câmaras, os radares e sensores ultra sônicos que servem para coletar dados sobre o ambiente que o carro está. Eles que vão detectar, por exemplo, os obstáculos, árvores e pessoas”, completa Elton.
Pará
Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA), em parceria com universidades nacionais e internacionais, já realizam trabalhos sobre o tema desde 2012. “A gente conseguiu desenvolver, a nível da academia, algumas soluções que ajudam a dirigibilidade e comunicação. Até hoje a gente estuda sobre isso, ainda tem muito o que ser pesquisado, sobretudo na área de IA”, frisa Eduardo Cerqueira, doutor e professor do Instituto de Tecnologia da UFPA.
“No Pará acredito que a gente ainda não tenha perspectiva de ter em operação de rua. Vamos ter ambientes mais controlados, como as minas, em operação de mineradoras, ou algum outro ambiente de experimentação”, conclui.
COMPARTILHE ESSA NOTÍCIA