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IA cria novas profissões e abre oportunidades no Pará

Funções como engenheiro de prompts e auditor de algoritmos avançam no Norte, enquanto especialistas apontam desafios de acesso, qualificação e uso ético da tecnologia

Gabi Gutierrez

A inteligência artificial não só transformou profissões — ela criou novas. Funções como engenheiro de prompts, curador de dados e auditor de algoritmos já fazem parte do mercado e exigem, além de domínio técnico, senso crítico e responsabilidade no uso da tecnologia. No Pará, esse movimento começa a ganhar força, mas ainda enfrenta desafios como qualificação e acesso.

Esse movimento acompanha o crescimento acelerado do setor. De acordo com relatório da Market Data Forecast, o mercado de IA na América Latina deve saltar de cerca de US$ 40,5 bilhões em 2026 para US$ 504,7 bilhões até 2034, com uma taxa anual de crescimento de 37,1%. O Brasil lidera essa expansão, concentrando 38,2% da participação regional, com destaque para aplicações em finanças, saúde e agricultura.

Novas ocupações ganham espaço

Com a popularização da IA, surgiram funções que praticamente não existiam há poucos anos, como engenheiro de prompts, curador de dados e auditor de algoritmos. Essas profissões estão diretamente ligadas à necessidade de tornar os sistemas mais eficientes, seguros e alinhados às demandas reais das empresas.

A professora Maíra Carvalho destaca que o avanço dessas tecnologias também exige atenção ao seu funcionamento. “A inteligência artificial é criada por seres humanos. Então, assim como nós, ela pode carregar preconceitos. Muitas pessoas acham que, por ser tecnologia, ela é neutra, mas não é”, explica.

Segundo ela, isso pode resultar em problemas como desinformação e reprodução de vieses. “Hoje, quando a gente fala de comunicação e inteligência artificial, a desinformação anda ao lado. Temos conteúdos falsos em texto e também em imagem, o que é um grande desafio”, afirma.

Segundo professor e CEO de uma escola de negócios, Denis Barreto, o mercado deixou de ser exclusivo de especialistas em tecnologia. “O crescimento da IA abriu espaço, de forma muito clara, para profissionais de comunicação, direito, administração, educação, saúde, design, psicologia e governança”, afirma.

Na prática, explica, o que está em curso é a valorização de funções híbridas. “Uma solução de IA pode ser tecnicamente brilhante e, ainda assim, fracassar se não houver alguém capaz de traduzir a necessidade real, validar resultados e supervisionar o uso. É aí que entram profissionais de outras áreas”, diz.

Entre as habilidades mais valorizadas estão capacidade analítica, pensamento crítico, domínio da comunicação, noções de dados e entendimento de governança e ética. “O mercado está premiando menos o encantamento com a tecnologia e mais a maturidade no uso dela”, completa.

Uso ético e riscos da tecnologia

Apesar das oportunidades, especialistas alertam para os riscos associados ao uso indiscriminado da IA, especialmente em áreas como comunicação e produção de conteúdo.

Diante desse cenário, cresce a importância de profissionais voltados à governança da tecnologia, como os auditores de algoritmos. Barreto explica que esses especialistas atuam na revisão dos sistemas e na identificação de possíveis falhas. “Eles ajudam a reduzir vieses, testar consistência, revisar impactos e exigir prestação de contas. Não eliminam totalmente os riscos, mas aumentam a transparência e a responsabilidade”, diz.

Norte acompanha tendência, mas enfrenta desafios

Na região Norte, o avanço da IA já começa a se consolidar, embora ainda enfrente obstáculos. De acordo com Barreto, o Pará tem registrado iniciativas importantes, como programas de apoio a startups, fortalecimento do ecossistema de inovação e ações voltadas à bioeconomia e soluções digitais.

“Oportunidades existem, sim, em áreas como educação, saúde, comunicação, agronegócio e serviços públicos. O Pará tem uma vantagem estratégica: problemas reais para resolver, e é disso que a IA precisa para gerar valor”, afirma.

Ainda assim, o mercado regional está em fase de desenvolvimento. Entre os principais desafios estão a formação de profissionais qualificados, a infraestrutura tecnológica e o acesso a dados organizados.

Maíra Carvalho também chama atenção para um descompasso tecnológico entre regiões. “As tecnologias chegam primeiro em países do Norte global, depois ao Brasil e, dentro do país, chegam antes ao Sudeste e Sul do que à Amazônia. Mas elas chegam, e já estão transformando diversas profissões aqui”, explica.

Futuro aponta para integração, não substituição

Apesar das mudanças, especialistas afastam a ideia de substituição completa do trabalho humano. Para Maíra, a IA deve ser vista como uma ferramenta de apoio. “Ela pode agilizar processos, mas não substitui o ser humano. Um texto gerado por IA, por exemplo, não tem a mesma emoção e sensibilidade de um repórter”, diz.

A tendência, portanto, é de integração entre humanos e máquinas, com foco na produtividade e na tomada de decisões mais estratégicas. “O avanço mais saudável da IA não será medido apenas pela tecnologia em si, mas pela capacidade de usá-la com responsabilidade e supervisão humana”, conclui Barreto.