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Conectividade no Pará: 5G avança em Belém, mas interior ainda foca no 4G

Enquanto a capital paraense atinge quase 30% de acessos na nova rede, agronegócio no interior investe em infraestrutura própria e profissionais de imagem ainda dependem de conexões cabeadas para garantir estabilidade

Gabriel da Mota

A promessa de uma revolução tecnológica com a chegada do 5G ao Pará vive um cenário de contrastes entre a capital e o interior. Em Belém, a expansão da rede — impulsionada por investimentos voltados para a COP 30 — já coloca a tecnologia em 29% dos acessos móveis, superando a média nacional de 21,5%. No entanto, para setores de alto desempenho, como o agronegócio em Ulianópolis e a operação profissional de drones na capital, a conectividade de quinta geração ainda esbarra em custos de implantação e na instabilidade de sinal em áreas de grande aglomeração. Na prática, a indústria 4.0 paraense tem sido construída com uma lógica híbrida, onde o 4G, a fibra óptica e a internet via satélite ainda são os pilares da produtividade. 

No sudeste paraense, a Pagrisa, uma das principais indústrias sucroalcooleiras do estado, opera com uma estrutura de conectividade robusta, mas que dispensa o 5G em larga escala. A empresa utiliza uma combinação de tecnologias para monitorar 100% de sua operação agrícola em tempo real em Ulianópolis. 

"Atualmente, a empresa utiliza praticamente todas as formas disponíveis de transmissão de dados no campo, com exceção do 5G. Apesar de amplamente divulgado como vetor da agricultura digital, o 5G ainda apresenta limitações importantes para áreas agrícolas extensas. A tecnologia exige uma alta densidade de antenas, com torres próximas entre si, o que eleva significativamente o custo de implantação e dificulta sua viabilidade econômica no campo", explica a empresa em nota.

Para contornar a falta de redes públicas abrangentes no interior, a companhia investiu em uma parceria privada com a operadora TIM, instalando cinco torres próprias na frequência de 700 MHz. Essa rede cobre 80% da área produtiva com tecnologia 4G, sendo complementada por satélite e rádio para o controle de sistemas de irrigação. Segundo a agroindústria, a evolução tecnológica no campo tem priorizado a autonomia local das máquinas, equipadas com inteligência embarcada e sensores que não dependem de conexão externa constante para operar com precisão.

Belém concentra quase 30% dos acessos móveis em tecnologia 5G

Os dados mais recentes da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) mostram que Belém recebeu um reforço significativo em infraestrutura. Para a conferência internacional do clima, foram instalados 40 novos pontos de antenas, todos na tecnologia 5G Standalone (SA), o padrão mais puro e veloz da categoria. Em dezembro de 2025, a capital registrou mais de 1,6 milhão de acessos móveis, sendo que o crescimento de dispositivos de Internet das Coisas (IoT) — como sensores e câmeras inteligentes — saltou 46,5% em apenas um ano. 

Apesar do avanço, a latência (tempo de resposta da rede) ainda é um desafio para aplicações críticas como a telemedicina ou o controle de drones remotos, que exigem respostas de até 1 milissegundo. Em Belém, os índices de qualidade das operadoras Claro, TIM e Vivo variam entre 93% e 95% de cumprimento das metas de latência de 100 milissegundos estabelecidas pela agência reguladora.

Transmissões profissionais de vídeo ainda exigem internet dedicada

Para quem trabalha no centro das atenções, o 5G ainda é visto com cautela. Paulo Henrique Silva, empresário que opera drones em grandes eventos na capital, como o Amazônia Live, explica que a rede móvel, por melhor que seja, torna-se limitada quando milhares de pessoas ocupam o mesmo espaço e disputam o sinal das operadoras. 

"Não há como fazer uma transmissão usando dados móveis, porque eles são muito limitados; há falha de qualidade e baixa compressão. Todos esses eventos, não só em Belém como em todo o país, usam uma internet dedicada somente para aquele serviço. Se você usar o 5G onde todo mundo está usando, não vai conseguir transmitir com qualidade. A gente usa a internet dedicada, que é tudo cabeado, para não perder o sinal em tempo real", afirma o empresário.

Por outro lado, Silva destaca que os investimentos recentes em telecomunicações trouxeram benefícios sociais importantes, especialmente em áreas periféricas da capital. "Esse investimento lá nas ilhas foi muito importante para todo mundo. Quando a gente ia para o Combu, a gente ficava meio que isolado, só usava o Wi-Fi dos restaurantes. Com esse investimento, melhorou bastante em termos de comunicação que a gente não tinha", relata.

Raio-X da conectividade no Pará

Dados da Anatel em Belém (dezembro/2025)

  • Acessos móveis totais: 1.604.925 usuários
  • Participação do 5G: 29% (Média brasileira é 21,5%)
  • Dispositivos IoT (M2M): 151.430 aparelhos ativos
  • Crescimento de IoT: 46,5% em relação a janeiro de 2025

Metas de expansão do 5G no interior (Anatel)

  • Até julho de 2026: 1 estação para cada 15 mil habitantes em cidades com mais de 200 mil pessoas
  • Até dezembro de 2026: 30% dos municípios com menos de 30 mil habitantes devem ter sinal
  • Até dezembro de 2029: 100% dos municípios brasileiros com cobertura 5G

Estrutura da Pagrisa (Ulianópolis)

  • Tecnologia predominante: híbrida (4G próprio, satélite e rádio)
  • Alcance do 4G: 80% da área produtiva
  • Infraestrutura: 5 torres próprias de 700 MHz
  • Mão de obra: 1.700 empregos diretos gerados