Compras impulsivas e falsas promoções elevam riscos de golpes no TikTok Shop
Especialista em cibersegurança explica como criminosos usam engenharia social, inteligência artificial e falsas promoções para roubar dados e aplicar golpes em plataformas de social commerce
O crescimento acelerado do TikTok Shop no Brasil tem ampliado não apenas o volume de vendas dentro da plataforma, mas também o número de tentativas de fraude envolvendo compras online, roubo de dados bancários e páginas falsas. A combinação entre entretenimento, vídeos curtos e consumo instantâneo transformou o chamado “social commerce” em um ambiente altamente atrativo para criminosos digitais, que utilizam técnicas sofisticadas de manipulação psicológica e inteligência artificial para enganar consumidores.
Allan Costa, docente com doutorado e pós-doutorado em cibersegurança, explica que o modelo de compras integrado às redes sociais reduz o tempo de reflexão do usuário e aumenta a vulnerabilidade a golpes: “O TikTok Shop representa uma evolução do chamado social commerce, onde entretenimento e consumo acontecem simultaneamente dentro da mesma plataforma. Esse modelo aumenta muito a exposição dos usuários a técnicas modernas de engenharia social e fraudes digitais”.
O especialista diz que entre os golpes mais comuns estão lojas falsas, anúncios patrocinados fraudulentos, páginas clonadas para captura de dados bancários, venda de produtos inexistentes e links maliciosos enviados durante transmissões ao vivo ou comentários. Outro ponto que chama atenção é o uso crescente de inteligência artificial para criar anúncios extremamente convincentes. “Hoje também observamos o uso crescente de IA generativa para produção de anúncios falsos altamente sofisticados. Criminosos conseguem criar páginas extremamente convincentes utilizando IA, então o consumidor não pode confiar apenas na aparência visual do anúncio”, alerta Allan Costa.
O professor destaca que o ambiente das redes sociais favorece decisões impulsivas. Durante lives e vídeos promocionais, estratégias de urgência são usadas para pressionar o consumidor a comprar rapidamente, sem checar informações básicas de segurança. “Os criminosos exploram exatamente os mesmos mecanismos psicológicos usados pelo marketing digital legítimo: urgência, escassez, recompensa imediata e validação social”, afirma. Ele conta que frases como “últimas unidades” ou “promoção válida por poucos minutos” criam um cenário de pressão cognitiva que reduz a percepção de risco.
Outro fator apontado pelo especialista é a confiança que muitos usuários depositam em influenciadores digitais ou perfis aparentemente populares. Criminosos se aproveitam dessa sensação artificial de legitimidade para aplicar golpes financeiros ou capturar dados pessoais. “Em muitos casos, a vítima é direcionada para páginas externas falsas que simulam gateways de pagamento legítimos para capturar dados de cartão, credenciais bancárias ou informações pessoais”, explica.
Sinais de alerta
Entre os principais sinais de alerta, Allan Costa recomenda atenção a preços muito abaixo do mercado, perfis recém-criados, poucas vendas registradas, ausência de CNPJ e pressão excessiva para pagamentos rápidos. O especialista também orienta que consumidores desconfiem de links externos, erros de português e solicitações de PIX para pessoas físicas. “Outro alerta importante é quando o vendedor tenta retirar a negociação do ambiente oficial da plataforma. Isso geralmente ocorre para evitar mecanismos antifraude e rastreabilidade”, destaca.
Orientações
Caso a fraude aconteça, a rapidez na reação pode fazer diferença para minimizar prejuízos. O pesquisador afirma que as primeiras horas após o golpe são decisivas para aumentar as chances de recuperação dos valores desviados. “A vítima deve imediatamente bloquear cartões e contas afetadas, alterar senhas, encerrar sessões ativas, ativar autenticação em múltiplos fatores e comunicar o banco”, orienta. Ele também recomenda registrar boletim de ocorrência e guardar prints, comprovantes e URLs envolvidos na fraude.
Nos casos envolvendo transferências via PIX, Allan Costa reforça a importância de acionar rapidamente o banco para solicitar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), previsto pelo Banco Central. “Quanto mais rápido isso for feito, maior a chance de bloqueio parcial dos valores”, afirma. Segundo ele, também é necessário verificar se houve reutilização de senhas em outros serviços, já que criminosos costumam utilizar os dados roubados em ataques posteriores a redes sociais, e-mails e aplicativos financeiros.
Desafios
Para o especialista, o avanço do social commerce impõe desafios cada vez maiores às plataformas digitais. Ele avalia que empresas como o TikTok precisam equilibrar experiência do usuário, velocidade de navegação e mecanismos robustos de segurança. “O principal desafio é que o modelo de negócio do social commerce privilegia velocidade, alcance e engajamento. Segurança, por outro lado, exige validação, fricção e controle”, analisa.
Allan Costa afirma que o combate às fraudes digitais depende da combinação entre tecnologia antifraude baseada em inteligência artificial, monitoramento contínuo e educação digital da população. “Nenhuma plataforma conseguirá eliminar completamente as fraudes sem investimento pesado em inteligência comportamental, validação de identidade e resposta rápida a incidentes. O cenário atual mostra que a cibersegurança deixou de ser apenas um tema técnico e passou a ser um componente central da economia digital”, conclui.
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