A enxaqueca, considerada uma doença neurológica incapacitante, afeta cerca de 32 milhões de pessoas no Brasil — o equivalente a 15% da população, segundo dados do Governo Federal. Chamada clinicamente de migrânea, a patologia depende, também, da mudança de hábitos para ser mantida sob controle. Recentemente, um novo medicamento foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Aquipta (atogepanto). A medicação é recomendada para adultos que passam por, pelo menos, quatro episódios mensais.
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O médico neurologista Antonio de Matos explica que o atogepanto age no receptor CGRP (Receptor do Peptídeo Parecido com a Calcitonina, em tradução do inglês ao português) como um antagonista, ou seja, compete com o que causa o estímulo da crise da enxaqueca. “Ele vai lá nesse receptor e bloqueia. Essa medicação pode ser utilizada tanto como medicação para crise e para prevenção”, afirma.
Benefícios
Diferente de outros remédios, como anti-inflamatórios e analgésicos, o atogepanto age especificamente para a enxaqueca e possui efeitos colaterais mínimos. Antonio relata que em pacientes com migrânea crônica, por exemplo, normalmente são indicados medicamentos antidepressivos e antiepiléticos, que por vezes aumentam o peso, geram queda capilar e reduzem o apetite.
“Essa medicação expande um leque de tratamento, porque, até então, as únicas medicações que eram específicas usavam-se de forma subcutânea, ou seja, injeção na barriga. Para a experiência do paciente, ela é mais interessante que, logicamente, os injetáveis”, fala.
O neurologista aponta que, quando são utilizados outros remédios, é necessário ter atenção redobrada às comorbidades e ao quadro de saúde total do paciente, para não gerar reações adversas que limitem a rotina e gerem outros incômodos. Na utilização do atogepanto, o equilíbrio na administração é mais moderado e Antonio afirma que medicar o paciente torna-se mais simples.
“Você tem que ‘dançar’ a prescrição de acordo com o perfil do paciente. Todas elas têm ali a questão de efeitos colaterais e, também, limitações em alguns grupos. Tem uma série de nuances que tem que ser conversado com o paciente”, comenta o médico sobre o uso de medicações convencionais.
Comercialização
O neurologista chama a atenção para o fato de que a aprovação na Anvisa não significa a comercialização automática. Agora, as empresas farmacêuticas devem resolver questões logísticas de precificação, produção e distribuição. A expectativa é que o atogepanto esteja disponível até o final de 2026.
A venda da medicação será feita em redes de farmácias convencionais, assim como os medicamentos subcutâneos. Antonio afirma que a compra poderá ser realizada sem receita médica, entretanto, a prescrição profissional auxilia o paciente a conseguir descontos por meio de clubes e programas.
Em relação ao preço, o médico acredita que o atogepanto terá a mesma média das medicações subcutâneas, variando em torno de R$ 1 mil. “Para o nosso Brasil, ainda é um valor que se aproxima de um salário mínimo, chega a ser boa parte do salário mínimo. A tendência é baratear com o tempo, quanto mais pessoas usarem e se for incorporado ao SUS”, relata.
“A gente está falando da enxaqueca, a principal doença neurológica que causa incapacidade. Ela é mais incapacitante que o acidente vascular cerebral, é a principal causa de afastamento do trabalho no mundo”, diz Antonio.
Sintomas da enxaqueca
Em pessoas que nunca tiveram episódios de enxaqueca, é comum não saber diferenciá-la de uma dor de cabeça comum. De modo geral, o neurologista aponta os principais sintomas como dor unilateral, pulsátil, acompanhada por náuseas, com fonofobia e fotofobia (incômodo com som e luz, respectivamente), e, principalmente, a incapacitação.
“Na hora da crise para a frente, o seu dia tem que ser reavaliado, você não vai conseguir continuar. Esse é o cenário mais claro da enxaqueca. Pode vir associada com tontura, intolerância ao movimento e irritabilidade”, ressalta.
Antonio diz que, além da melhoria dos sintomas, o comportamento do paciente também muda com o acompanhamento e tratamento corretos. O médico compartilha que alguns pacientes relatam melhoras na relação com a comida: “Uma alimentação muito repetitiva em chocolates e coisas gordurosas pode ser sintoma, que a gente chama de pródromos, de uma crise de enxaqueca.”
O neurologista alerta que é comum o paciente confundir a enxaqueca com cefaleia tensional. Porém, os sintomas são diferentes, pois no segundo caso há dor de cabeça em peso bilateral (fronte e nuca), associada a náuseas e fotofobia mais leve, com incapacidade leve a moderada e frequência maior ao final do dia.
Nova vida
A aposentada Maria Marcelino Oliveira, de 67 anos, mudou o estilo de vida após o diagnóstico da enxaqueca. Ela conta que o quadro requer medicamentos mais fortes e repouso.
“Passei a tomar consciência que tem que engerir um remédio prescrito por um neurologista. Às vezes, o remédio é de uso contínuo, para não ter as crises de enxaqueca”, diz.

Devido à condição incapcitante, Maria decidiu fazer acompanhamento com especialistas em uma clínica de São Paulo. Desde estão, a aposentada está sem crises. Durante o tratamento, ela recebeu, também, suporte multiprofissional, com psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista e dentista.
Maria evita luzes e cheiros fortes, bem como sons altos e determinados alimentos para que episódios de enxaqueca não surjam: “Quando tinha crise, tomava os remédios prescristos pelo neurologista e fazia repouso. Sigo as recomendações médicas e estou há seis meses sem enxaqueca. Principalmente, me abstenho dos alimentos que cronificam meu quadro.”
Entre os alimentos que desencadeiam crises de migrânea em Maria, estão chocolate e café — e demais itens que possuam cafeína na composição. A rotina da aposentada mudou após o tratamento e as transformações no estilo de vida.
“Sem dor de cabeça, dá para viver bem. Sem dor de cabeça, a gente não fica estressada, não tem que faltar dia de serviço. É outra vida, é uma glória. Quando eu tinha crise, eu ficava impossibilitada de fazer muitas coisas”, relata.
Para além do remédio
O uso de remédios é necessário no tratamento e prevenção da enxaqueca, entretanto, fármacos não são suficientes para livrar o paciente da dor. “O grande ‘quê’ da enxaqueca é a mudança do estilo de vida. Se hidratar, dormir bem, se alimentar bem, ter relações interpessoais saudáveis”, recomenda o neurologista.
Antonio aponta que a dedicação do médico e do paciente no cuidado com a doença deve ser consistente. Consultas recorrentes, reavaliações frequentes e adaptação a uma rotina equilibrada são essenciais para garantir o controle da migrânea.
“É um caminhar cheio de nuances. Você tem que desenhar isso para o paciente, para isso se encaixar na vida dele como uma chave na fechadura”, conta.
O neurologista destaca que um estilo de vida saudável reduz a força dos gatilhos que provocam a enxaqueca. Ao manter a prática de atividades físicas, evitando ultraprocessados e com alta ingestão de água, por exemplo, o paciente torna-se mais tolerante àquilo que leva à migrânea.
“Eu sempre comento com o paciente que o mais importante para evitar, o cenário ideal é: se aproxime do seu estado de saúde, faça tudo aquilo que é fácil falar e difícil fazer. Tentar dar uma regularidade no sono, tentar ter uma alimentação regular e sem muitos exageros”, ressalta.
Praticar atividades físicas é como uma obrigação para manter o corpo saudável, segundo Antonio: “Se puder ser um esporte que você gosta, ótimo. Mas, se não for, faça uma academia perto da sua casa. O bom é inimigo do ótimo. Então, às vezes, um bom bem-feito e de forma consistente é melhor do que o ótimo uma vez por ano.”
Comidas e cheiros
É comum a associação da enxaqueca à questões alimentares, entretanto, o neurologista explica que nenhuma comida pode ser causadora de crises. Por outro lado, em determinados casos, a alimentação é um dos estopins para os episódios. Em síntese, a comida não provoca a migrânea, mas, sim, funciona como um gatilho.
“Não existe enxaqueca alimentar. A exposição a alguns corantes, sejam até naturais, algumas substâncias e alguns conservantes propocia a crise. Vai muito mais do paciente. Quando você controla a frequência da crise, melhora a exposição a essas coisas que davam crise antes”, fala.
Antonio destaca que, atualmente, acredita-se que determinados comportamentos alimentares sejam sinais premonitórios de crise. Ou seja, quando há desejo de comer algo específico, como chocolate, esse é um sintoma de que a migrânea está prestes a se manifestar no paciente.
Em relação a aromas e odores, também relacionados à enxaqueca, o neurologista afirma que é um cenário diferente da comida. “O cheiro mexe com as porções do cérebro mais viscerais. Alguns cheiros deflagram gatilhos numa região do cérebro que a gente não tem tanto controle”, conta.
O médico fala que o olfato pode gerar um disparo nos neurônios que provocam as crises de migrânea. Apesar de ser algo muito pontual e específico, é visto como positivo, pois pode ser evitado com mais facilidade do que os alimentos. Muitas vezes, o paciente já identifica o cheiro causador da enxaqueca, mas não sabe quais comidas são gatilhos.
