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SAÚDE

Tratamento para enxaqueca requer mudança de hábitos e medicação adequada, explica neurologista

Recentemente, um novo remédio – o atogepanto – foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária e é indicado, também, para prevenção de crises, segundo o médico Antonio de Matos

Lívia Ximenes

13 de setembro de 2026 às 08:00

Modificado em 13 de setembro de 2026 às 09:00

Maria Marcelino Oliveira, de 67 anos, descobriu que tem enxaqueca por volta de 1996 e, desde então, liga com a doença

Maria Marcelino Oliveira, de 67 anos, descobriu que tem enxaqueca por volta de 1996 e, desde então, liga com a doença ( Foto: Foto: Wagner Santa | O Liberal )

A enxaqueca, considerada uma doença neurológica incapacitante, afeta cerca de 32 milhões de pessoas no Brasil — o equivalente a 15% da população, segundo dados do Governo Federal. Chamada clinicamente de migrânea, a patologia depende, também, da mudança de hábitos para ser mantida sob controle. Recentemente, um novo medicamento foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Aquipta (atogepanto). A medicação é recomendada para adultos que passam por, pelo menos, quatro episódios mensais.

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O médico neurologista Antonio de Matos explica que o atogepanto age no receptor CGRP (Receptor do Peptídeo Parecido com a Calcitonina, em tradução do inglês ao português) como um antagonista, ou seja, compete com o que causa o estímulo da crise da enxaqueca. “Ele vai lá nesse receptor e bloqueia. Essa medicação pode ser utilizada tanto como medicação para crise e para prevenção”, afirma.

Benefícios

Diferente de outros remédios, como anti-inflamatórios e analgésicos, o atogepanto age especificamente para a enxaqueca e possui efeitos colaterais mínimos. Antonio relata que em pacientes com migrânea crônica, por exemplo, normalmente são indicados medicamentos antidepressivos e antiepiléticos, que por vezes aumentam o peso, geram queda capilar e reduzem o apetite.

“Essa medicação expande um leque de tratamento, porque, até então, as únicas medicações que eram específicas usavam-se de forma subcutânea, ou seja, injeção na barriga. Para a experiência do paciente, ela é mais interessante que, logicamente, os injetáveis”, fala.

O neurologista aponta que, quando são utilizados outros remédios, é necessário ter atenção redobrada às comorbidades e ao quadro de saúde total do paciente, para não gerar reações adversas que limitem a rotina e gerem outros incômodos. Na utilização do atogepanto, o equilíbrio na administração é mais moderado e Antonio afirma que medicar o paciente torna-se mais simples.

“Você tem que ‘dançar’ a prescrição de acordo com o perfil do paciente. Todas elas têm ali a questão de efeitos colaterais e, também, limitações em alguns grupos. Tem uma série de nuances que tem que ser conversado com o paciente”, comenta o médico sobre o uso de medicações convencionais.

Comercialização

O neurologista chama a atenção para o fato de que a aprovação na Anvisa não significa a comercialização automática. Agora, as empresas farmacêuticas devem resolver questões logísticas de precificação, produção e distribuição. A expectativa é que o atogepanto esteja disponível até o final de 2026.

A venda da medicação será feita em redes de farmácias convencionais, assim como os medicamentos subcutâneos. Antonio afirma que a compra poderá ser realizada sem receita médica, entretanto, a prescrição profissional auxilia o paciente a conseguir descontos por meio de clubes e programas.

Em relação ao preço, o médico acredita que o atogepanto terá a mesma média das medicações subcutâneas, variando em torno de R$ 1 mil. “Para o nosso Brasil, ainda é um valor que se aproxima de um salário mínimo, chega a ser boa parte do salário mínimo. A tendência é baratear com o tempo, quanto mais pessoas usarem e se for incorporado ao SUS”, relata.

“A gente está falando da enxaqueca, a principal doença neurológica que causa incapacidade. Ela é mais incapacitante que o acidente vascular cerebral, é a principal causa de afastamento do trabalho no mundo”, diz Antonio.

Sintomas da enxaqueca

Em pessoas que nunca tiveram episódios de enxaqueca, é comum não saber diferenciá-la de uma dor de cabeça comum. De modo geral, o neurologista aponta os principais sintomas como dor unilateral, pulsátil, acompanhada por náuseas, com fonofobia e fotofobia (incômodo com som e luz, respectivamente), e, principalmente, a incapacitação.

“Na hora da crise para a frente, o seu dia tem que ser reavaliado, você não vai conseguir continuar. Esse é o cenário mais claro da enxaqueca. Pode vir associada com tontura, intolerância ao movimento e irritabilidade”, ressalta.

Antonio diz que, além da melhoria dos sintomas, o comportamento do paciente também muda com o acompanhamento e tratamento corretos. O médico compartilha que alguns pacientes relatam melhoras na relação com a comida: “Uma alimentação muito repetitiva em chocolates e coisas gordurosas pode ser sintoma, que a gente chama de pródromos, de uma crise de enxaqueca.”

O neurologista alerta que é comum o paciente confundir a enxaqueca com cefaleia tensional. Porém, os sintomas são diferentes, pois no segundo caso há dor de cabeça em peso bilateral (fronte e nuca), associada a náuseas e fotofobia mais leve, com incapacidade leve a moderada e frequência maior ao final do dia.

Nova vida

A aposentada Maria Marcelino Oliveira, de 67 anos, mudou o estilo de vida após o diagnóstico da enxaqueca. Ela conta que o quadro requer medicamentos mais fortes e repouso.

“Passei a tomar consciência que tem que engerir um remédio prescrito por um neurologista. Às vezes, o remédio é de uso contínuo, para não ter as crises de enxaqueca”, diz.

Após um tratamento em São Paulo, Maria está sem crises de migrânea há seis meses
Após um tratamento em São Paulo, Maria está sem crises de migrânea há seis meses (Foto: Wagner Santana | O Liberal)

Devido à condição incapcitante, Maria decidiu fazer acompanhamento com especialistas em uma clínica de São Paulo. Desde estão, a aposentada está sem crises. Durante o tratamento, ela recebeu, também, suporte multiprofissional, com psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista e dentista.

Maria evita luzes e cheiros fortes, bem como sons altos e determinados alimentos para que episódios de enxaqueca não surjam: “Quando tinha crise, tomava os remédios prescristos pelo neurologista e fazia repouso. Sigo as recomendações médicas e estou há seis meses sem enxaqueca. Principalmente, me abstenho dos alimentos que cronificam meu quadro.”

Entre os alimentos que desencadeiam crises de migrânea em Maria, estão chocolate e café — e demais itens que possuam cafeína na composição. A rotina da aposentada mudou após o tratamento e as transformações no estilo de vida.

“Sem dor de cabeça, dá para viver bem. Sem dor de cabeça, a gente não fica estressada, não tem que faltar dia de serviço. É outra vida, é uma glória. Quando eu tinha crise, eu ficava impossibilitada de fazer muitas coisas”, relata.

Para além do remédio

O uso de remédios é necessário no tratamento e prevenção da enxaqueca, entretanto, fármacos não são suficientes para livrar o paciente da dor. “O grande ‘quê’ da enxaqueca é a mudança do estilo de vida. Se hidratar, dormir bem, se alimentar bem, ter relações interpessoais saudáveis”, recomenda o neurologista.

Antonio aponta que a dedicação do médico e do paciente no cuidado com a doença deve ser consistente. Consultas recorrentes, reavaliações frequentes e adaptação a uma rotina equilibrada são essenciais para garantir o controle da migrânea.

“É um caminhar cheio de nuances. Você tem que desenhar isso para o paciente, para isso se encaixar na vida dele como uma chave na fechadura”, conta.

O neurologista destaca que um estilo de vida saudável reduz a força dos gatilhos que provocam a enxaqueca. Ao manter a prática de atividades físicas, evitando ultraprocessados e com alta ingestão de água, por exemplo, o paciente torna-se mais tolerante àquilo que leva à migrânea.

“Eu sempre comento com o paciente que o mais importante para evitar, o cenário ideal é: se aproxime do seu estado de saúde, faça tudo aquilo que é fácil falar e difícil fazer. Tentar dar uma regularidade no sono, tentar ter uma alimentação regular e sem muitos exageros”, ressalta.

Praticar atividades físicas é como uma obrigação para manter o corpo saudável, segundo Antonio: “Se puder ser um esporte que você gosta, ótimo. Mas, se não for, faça uma academia perto da sua casa. O bom é inimigo do ótimo. Então, às vezes, um bom bem-feito e de forma consistente é melhor do que o ótimo uma vez por ano.”

Comidas e cheiros

É comum a associação da enxaqueca à questões alimentares, entretanto, o neurologista explica que nenhuma comida pode ser causadora de crises. Por outro lado, em determinados casos, a alimentação é um dos estopins para os episódios. Em síntese, a comida não provoca a migrânea, mas, sim, funciona como um gatilho.

“Não existe enxaqueca alimentar. A exposição a alguns corantes, sejam até naturais, algumas substâncias e alguns conservantes propocia a crise. Vai muito mais do paciente. Quando você controla a frequência da crise, melhora a exposição a essas coisas que davam crise antes”, fala.

Antonio destaca que, atualmente, acredita-se que determinados comportamentos alimentares sejam sinais premonitórios de crise. Ou seja, quando há desejo de comer algo específico, como chocolate, esse é um sintoma de que a migrânea está prestes a se manifestar no paciente.

Em relação a aromas e odores, também relacionados à enxaqueca, o neurologista afirma que é um cenário diferente da comida. “O cheiro mexe com as porções do cérebro mais viscerais. Alguns cheiros deflagram gatilhos numa região do cérebro que a gente não tem tanto controle”, conta.

O médico fala que o olfato pode gerar um disparo nos neurônios que provocam as crises de migrânea. Apesar de ser algo muito pontual e específico, é visto como positivo, pois pode ser evitado com mais facilidade do que os alimentos. Muitas vezes, o paciente já identifica o cheiro causador da enxaqueca, mas não sabe quais comidas são gatilhos.