Jogar xadrez traz benefícios cognitivos e psicológicos para todas as idades
Em idosos, o esporte ajuda a minimizar o declínio cognitivo natural do envelhecimento
O xadrez é um jogo de tabuleiro, também considerado esporte, com origens que remontam à Índia por volta do século VI d.C. Mais que um passatempo, o jogo traz alguns impactos positivos para o cérebro humano, pois melhora as habilidades cognitivas e de resolução de problemas, além de estimular a memória, aumentar a atenção e também a concentração.
O grande objetivo é conquistar o “rei” do adversário. Dois participantes competem entre si, representados por peças de cores opostas, utilizando um tabuleiro composto por oito colunas e oito linhas, que totalizam 64 casas. São oito peões, duas torres, dois cavalos, dois bispos, uma rainha e um rei, em uma prática que exige estratégia e raciocínio.
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Para jogar xadrez, é preciso memorizar o nome das peças e como elas se movimentam, além de analisar as jogadas futuras. Segundo Sabrina Queiroz, terapeuta ocupacional, professora e coordenadora do curso de Terapia Ocupacional da Universidade do Estado do Pará (Uepa), há um estímulo da memória, uma das funções executivas mais importantes do cérebro.
“Essa função vai ajudar muito no que a gente chama de controle ilimitório, que é frear o impulso de mover a primeira peça que a gente vê. Ou seja, vamos estimular para que a pessoa pense antes de agir, o que normalmente não é o que acontece, a gente age e depois pensa nas consequências. O xadrez ajuda a controlar esse comportamento, que faz parte do cotidiano de qualquer ser humano”, explica Sabrina.
A prática também trabalha a flexibilidade cognitiva, já que é preciso realizar uma previsão das táticas e mudá-las de acordo com a estratégia e movimentos do adversário. Por ser um jogo que exige tempo, o xadrez trabalha a paciência, a tolerância e a frustração, para aprender a lidar com derrotas e não desistir, pois perder uma peça, por exemplo, não significa necessariamente perder o jogo inteiro.
Jogar xadrez é também um exercício de resistência mental. Ao jogar, o cérebro precisa manter o foco por um longo período, o que se relaciona com atividades cotidianas, sejam elas de trabalho ou estudos, nas quais também é preciso focar por longos espaços de tempo. Como o jogo exige que o jogador pense antes de agir, e reflita sobre ações para alcançar um objetivo, ele se torna um aliado para melhorar a habilidade de planejamento, que faz parte das atividades de vida diária.
“Ele ajuda na organização das etapas para um desenvolvimento melhor do planejamento no cotidiano. No xadrez, é preciso planejar todas as jogadas que serão feitas, e o cérebro é estimulado a pensar de forma planejada”, diz.
Já no aspecto físico, as jogadas utilizam o movimento de ‘pinça’ das mãos para mover o objeto. Sabrina explica que o movimento é uma parte da coordenação motora fina e também da visual, essenciais para atividades da vida diária, como abotoar uma camisa, fechar a calça, utilizar talheres nas refeições e manusear escovas dentais.
Estar junto é fundamental
O administrador Leonardo Silveira, presidente da Federação de Xadrez do Pará (FEXPA) é praticante de xadrez há 28 anos. Motivado pelo estudo do cálculo e raciocínio, ele conta que percebeu alguns benefícios de jogar ao longo dos anos, como a melhoria da capacidade de tomada de decisão, do raciocínio lógico e a melhora da questão cognitiva.
Tanto a FEXPA como associações de enxadristas realizam encontros semanais e mensais na Grande Belém. O grupo de Leonardo, vinculado à Federação, se reúne sempre às segundas e quartas-feiras em uma pizzaria localizada na Cidade Nova, em Ananindeua. “Jogamos na pizzaria há mais de seis anos, mas também nos reunimos em um clube na Marambaia e em Icoaraci. Tem gente que joga na Nova Doca e na UFPA também”, diz Leonardo.
Para o aposentado Edvaldo Alves, de 70 anos, que faz parte do grupo, um dos principais benefícios é a socialização. A existência de vários grupos online e a possibilidade de participar dos encontros presenciais, conhecer novas pessoas, fazer amigos e compartilhar o gosto pelo jogo o motiva a permanecer jogando.
“Pessoalmente, a contribuição dele está na socialização, a gente interage com outras pessoas. Na minha idade, preciso fazer um exercício mental e o xadrez é excelente para evitar o Alzheimer. Como se diz, ele tem muita ciência para ser um jogo e muito jogo para ser ciência”, afirma Edvaldo.
Já o estudante Danilo Rezende, de 12 anos, está no sétimo ano do ensino fundamental e percebe muitas vantagens na escola com a prática contínua do xadrez. Ele começou quando pai o presenteou com um jogo de dama, que ele costumava jogar com um guarda da antiga escola. Depois, o pai adquiriu um tabuleiro pequeno de xadrez e o ensinou a jogar, e agora ele também participa de grupos e encontros de enxadristas.
“É muito bom participar de grupos, por causa da diversidade de pessoas, mais fortes, mais fracas, é muito bom jogar com outras pessoas. Gosto do xadrez porque é um desafio da mente, às vezes eu ganho, às vezes perco, e posso estudar, pensar, é um desafio”, compartilha Danilo.
No dia a dia, praticar xadrez fez com que a concentração do estudante melhorasse. “Quando chega uma prova, não fico muito perdido. Tenho o hábito de jogar online praticamente todo dia, e na quarta e sexta participo de encontros aqui na pizzaria e na Praça Batista Campos”, destaca.
No processo terapêutico ocupacional, os jogos podem funcionar como uma atividade significativa, a partir da análise do contexto social, econômico, político e familiar do paciente feita por um terapeuta ocupacional. “O jogo por si só é uma ocupação relacionada ao lazer. Podemos utilizar isso ao nosso favor dentro de um processo terapêutico, para trabalhar questões cognitivas, questões físicas, aspectos físicos e aspectos cognitivos”, diz a terapeuta ocupacional Sabrina Queiroz.
Nos diferentes ciclos da vida, como infância, idade adulta e velhice, os jogos são importantes aliados no processo terapêutico ocupacional. Na infância, é trabalhado o desenvolvimento da coordenação motora fina, socialização e aprendizado com as regras.
Na vida adulta, são utilizados para o gerenciamento do estresse, reabilitação física após traumas, como AVC. Com idosos, eles estimulam a cognição e previnem o isolamento social. É importante para a socialização, ao unir um grupo com um interesse em comum, possibilitando a troca de ideias de estratégias.
Benefícios para idosos
Para a população idosa, como é o caso do aposentado Edvaldo Alves, de 70 anos, o xadrez ajuda a minimizar o declínio cognitivo normal do processo de envelhecimento. Enxadrista há 30 anos, Edvaldo se encantou pela forma como o xadrez une lógica, raciocínio, lógica e outras habilidades. “O xadrez é muito lindo, o desenvolvimento dele, as estratégias. Por exemplo, as pessoas que são imprudentes nos negócios podem aprender a ter disciplina e prudência”, destaca o aposentado.
No envelhecimento, ocorre a morte de vários neurônios e conexões sinápticas. É nesse momento que o xadrez pode ajudar a melhorar o processo, pois ao pensar em novas jogadas e estratégias, o cérebro é constantemente desafiado a criar novas conexões sinápticas — estímulos que contribuem para a diminuição do declínio cognitivo. Estudos sobre a neuroplasticidade destacam, ainda, que estimular partes do cérebro ligadas à memória e cognição pode retardar sintomas de doenças como o Alzheimer.
“O idoso fica ali muito tempo focado, pensando, planejando, organizando, lembrando, memorizando as jogadas e as peças. Quando você mantém o cérebro em constante atividade, ele fica ativo por muito mais tempo. E quando isso acontece, eu estou estimulando a parte do cérebro a se manter ativa” detalha Sabrina Queiroz.
*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades.
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