O riso vai além de um momento de descontração: pode ajudar a aliviar tensões, favorecer o bem-estar emocional e fortalecer os vínculos sociais. Celebrado nesta sexta-feira (6), o Dia Nacional do Riso chama a atenção para a importância do humor na saúde mental e na convivência entre as pessoas.
A psicóloga Andrea de Barros Mendes, especialista em Psicologia Analítica Junguiana, explica que o tema é mais profundo do que parece. “Na visão junguiana, o bom humor e o riso vão muito além de descontração. Eles são fenômenos psicológicos profundos”, afirma.
Segundo a especialista, o humor ajuda a lidar com as pressões cotidianas e a flexibilizar os papéis sociais que as pessoas assumem. “Momentos de leveza são essenciais porque flexibilizam a nossa Persona — aquela máscara social rígida e séria que usamos para corresponder às expectativas — e nos reconectam com nossa natureza humana, imperfeita e plural. Um respiro da psique”, pontua Andrea.
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Impactos da falta de humor
A ausência de momentos de descontração pode tornar a rotina emocionalmente mais pesada. Quando alguém tenta manter o controle o tempo todo para corresponder às expectativas externas, pode acumular tensões que se manifestam em ansiedade, irritabilidade e sintomas físicos.
Essa pressão pode ser compreendida a partir do conceito de Sombra, da Psicologia Analítica, que reúne aspectos da personalidade que o indivíduo costuma reprimir. “Sem a válvula do humor, a tensão não é liberada e a Sombra — tudo aquilo que reprimimos — fica sem espaço para se expressar de forma saudável”, explica a psicóloga.
O humor também pode ajudar a enfrentar situações difíceis sob outra perspectiva. “Rir de uma situação difícil reduz o domínio do complexo sobre o ego e abre espaço para uma nova perspectiva”, esclarece a profissional.
Isso não significa ignorar o sofrimento, mas encontrar outras maneiras de lidar com ele. Nas relações sociais, o compartilhamento de momentos de humor também pode favorecer a aproximação entre as pessoas. “Sim, pois o riso compartilhado humaniza a relação”, ressalta Andrea.
Práticas como a yoga do riso e a risoterapia, utilizadas inclusive em hospitais, são outras possibilidades para proporcionar momentos de descontração a quem enfrenta situações difíceis. “Sem negar a dor, lembramos a psique que existe outra possibilidade para além do sofrimento”, pondera a psicóloga.
Como colocar mais leveza na rotina
Para incorporar mais momentos de alegria ao cotidiano, Andrea recomenda reduzir a autocobrança, valorizar as relações interpessoais e reconhecer as próprias contradições sem se punir por elas. “Permitir-se rir das próprias falhas é o primeiro passo para a integração da Sombra”, orienta.
A especialista conta que já participou de uma aula de yoga do riso e descreve a experiência como divertida. Para ela, reservar espaço para atividades prazerosas e experiências descontraídas também faz parte do cuidado com a saúde mental.
Riso e reflexão social
Além dos efeitos sobre o bem-estar individual, o humor também pode funcionar como instrumento de crítica social. Na palhaçaria, situações engraçadas e a exposição das próprias falhas são recursos utilizados para questionar comportamentos e provocar reflexões sobre a realidade.
É o que explica Yure Lee Almeida Martins, artista circense, arte-educador, professor de História e Educação Física e doutor em Artes. “Nós brincamos de fazer chacota de nós mesmos, exploramos nosso próprio ridículo e, por meio disso, também fazemos críticas sociais”, afirma.
O artista também chama a atenção para quem é alvo das piadas. Na avaliação dele, o humor não deve ridicularizar grupos socialmente vulneráveis, pois essa prática pode reforçar preconceitos e desigualdades. “Quando alguém faz uma crítica jocosa direcionada a uma classe oprimida, acaba reproduzindo o discurso das elites”, explica.
Para Yure, a comédia também pode estimular o pensamento crítico ao abordar situações do cotidiano por meio de uma linguagem simples e acessível.
Circo leva alegria a comunidades
À frente da Companhia de Circo Nós Tantos, Yure conta que o trabalho é direcionado principalmente a escolas e comunidades indígenas, ribeirinhas e periféricas. A iniciativa busca ampliar o acesso às apresentações circenses em locais que recebem menos atividades culturais.
“Nosso público é esse. Por isso, buscamos levar o riso, o circo e a alegria de viver a lugares onde as pessoas têm mais necessidade de acessar essas experiências, porque, normalmente, são iniciativas que não chegam a esses espaços”, relata.
O artista também destaca a importância das políticas públicas para democratizar o acesso à cultura. “A Constituição brasileira estabelece que o lazer e a cultura também são direitos da população. Por isso, trabalhamos pela universalização do acesso à cultura, ao riso, à arte de fazer rir e à reflexão crítica”, afirma.
