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Xaropes à base de clobutinol elevam risco de arritmia ventricular e morte súbita, explica médico

O clobutinol é um antitussígeno não opioide, indicado para o tratamento sintomático da tosse irritativa e não produtiva

Ayla Ferreira

Na última segunda-feira (27), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a suspensão de venda e uso de todos os medicamentos à base de clobutinol. O composto é classificado como antitussígeno, pois diminui o efeito da tosse, além de não causar sedação ao paciente. A decisão foi motivada por uma avaliação técnica da área de farmacovigilância da Anvisa, que destaca o aumento do risco de arritmias cardíacas graves associadas ao uso.

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Muito utilizado para o tratamento de tosse irritativa e seca, a prescrição de clobutinol era comum para pacientes com quadros de gripe e outras viroses, além de quadros de alergia. Segundo Rodrigo Almeida, médico cardiologista e presidente da Sociedade Paraense de Cardiologia (SPC), o risco surge pois o medicamento aumenta o tempo do intervalo QT, um período do ciclo cardíaco onde o coração está em descanso e se preparando para a próxima contração. 

“Toda contração cardíaca ocorre por conta de estímulos elétricos e depende da troca de íons, como sódio, potássio e cálcio. As trocas ocorrem dentro das células, nas paredes celulares, por canais específicos, para que sejam realizadas tanto a contração quanto o relaxamento cardíaco. O medicamento atua na fase de relaxamento, prolongando a etapa. Com o tempo maior, a concentração de potássio nas células pode aumentar, o que favorece a arritmia”, destaca Rodrigo Almeida.

O período de relaxamento é quando o coração está mais vulnerável, já que o órgão ainda não se recuperou completamente para a próxima contração. É nessa etapa que o medicamento age. “Se eventualmente entrarem em uma arritmia ventricular, ocorre uma falência generalizada, pois o sangue não chega no cérebro. Basta quatro segundos de queda de fluxo para a pessoa perder a consciência, ficar desorientada e pode até desmaiar”, diz.

Ainda segundo o médico, existe a taquicardia ventricular com e sem pulso. A sem pulso é considerada uma parada cardíaca e pode levar a morte súbita. Por aumentar o intervalo QT, o clobutinol pode interagir com outras medicações, como a azitromicina. Alguns antiarrítmicos, como a amiodarona, podem ter efeitos somados ao medicamento. Já antidepressivos, como escitalopram e quetiapina, também interagem com o clobutinol e aumentam o risco de reações adversas. 

Etapas

Até o lançamento no mercado, todos os medicamentos passam por algumas etapas que garantem a segurança, segundo o médico. A primeira é a investigação in vitro, a segunda envolve testes piloto com poucos pacientes. Os estudos na fase três são feitos com populações maiores e, por fim, há a fase quatro, chamada farmacovigilância.

“A farmacovigilância é quando o produto já está no mercado em amplo uso e você começa a receber informações a respeito de efeitos colaterais que às vezes não surgiram durante as fases iniciais de estudo. Quando os medicamentos são considerados deletérios ou possivelmente deletérios, isso chama a atenção dos órgãos, como a nossa Anvisa”, diz Rodrigo.

Quando os alertas se tornam frequentes, os órgãos responsáveis precisam tomar decisões como a ocorrida com o clobutinol. A suspensão evita um risco maior para a população e possibilita o detalhamento de estudos, para garantir a segurança completa do fármaco. 

Sintomas exigem atenção redobrada

A orientação é a interrupção imediata do uso de medicamentos à base de clobutinol. O médico cardiologista Rodrigo Almeida explica que a medicação não possui um efeito permanente ou duradouro e os sintomas decorrentes devem desaparecer com a interrupção do remédio. Se o paciente estava fazendo uso da medicação, deve observar se surgiram palpitações, popularmente conhecidas como “batidas no peito”. Caso se tornem frequentes ou persistentes, é preciso procurar atendimento médico.

“Essas complicações, se eventualmente gerarem algum nível de arritmia realmente mais séria, podem gerar tontura, vista escura e até desmaio. Em última instância, naqueles casos mais graves, até uma morte súbita, quando desenvolver ataque cardíaco ventricular ou até a fibrilação ventricular, que são os dois tipos de paradas cardíacas mais graves que nós temos”, alerta o médico.

No caso de idosos, por exemplo, o uso de outros medicamentos em conjunto podem aumentar o risco de interações e quadros graves. Já as crianças possuem uma frequência cardíaca mais elevada, natural da idade, que pode aumentar por conta do uso de clobutinol. Para evitar o uso do medicamento suspenso, existem algumas alternativas, como a lavagem nasal com soro fisiológico. 

O médico recomenda também a hidratação e o consumo de mel para aliviar sintomas de tosse. Existem medicamentos seguros, como adropropizina, cloperastina, acetilcisteína e ambroxol. No entanto, todos devem ser utilizados conforme orientação médica, para evitar riscos da automedicação.

“Se tem uma tosse seca, que está persistindo por muito tempo, procure um profissional de saúde. Começa com o otorrino, por exemplo, para ele avaliar a situação, avaliar se não virou uma rinite crônica, uma rinossinusite ou até uma faringite crônica, para que trate adequadamente, e não ficar se automedicando. Cuidado com dicas de vizinhos, para não achar que o medicamento que serviu para um serve para você também”, orienta Rodrigo.

Até mesmo xaropes fitoterápicos, como o Abrilar, devem ser utilizados com cautela e a partir de orientação profissional. No caso de alternativas naturais, como o gengibre, também é preciso atenção, pois é um ingrediente termogênico que aumenta a frequência cardíaca. O mesmo vale para a canela e outros insumos.

“É preciso tomar cuidado, porque se exagerar, pode causar problemas. Nem tudo que é natural é necessariamente bom, temos que ter em mente que a diferença entre o veneno e o remédio é a dose”, pontua.

Rodrigo destaca que a Anvisa possui canais de farmacovigilância, onde a própria população pode notificar medicamentos. Os profissionais de saúde também realizam a orientação, auxiliando no monitoramento contínuo, de longo prazo, de substâncias que já estão no mercado.

A população pode acessar por meio do link: https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/fiscalizacao-e-monitoramento/farmacovigilancia.

*Ayla Ferreira, estagiária de Jornalismo, sob supervisão de Fabiana Batista, coordenadora do Núcleo de Atualidades.