Ex-deputado Wladimir Costa é denunciado por distribuir medicamentos para coronavírus

Em publicações em suas redes sociais, Wladimir critica políticos, farmácias, laboratórios e planos de saúde

Redação Integrada

O ex-deputado federal Wladimir Costa está envolvido em mais uma polêmica. Em suas redes sociais, ele aparece distribuindo remédios para a população – muitos deles controlados – e faz pesadas críticas a políticos, farmácias, laboratórios e planos de saúde. Nos vídeos que gravou, alguns com mais de 50 minutos, chega a incitar a violência. “É melhor vocês venderem preço justo do que eu pegar duas a três mil pessoas e mandar invadir as farmácias de manipulação”, declarou, ao denunciar suposto esquema de superfaturamento nesses estabelecimento. 

Em outro vídeo, ao falar dos planos de saúde, afirmou que iria “entrar e quebrar tudo”, e continuou: “Até vocês mandar me prender, chamar a polícia, até vocês vão ter dificuldades até de mandar os cara me prender, porque eu sou considerado pelos polícia, os cara gostam de mim. Vários deles já vieram pegar medicamentos comigo. Já fui três vezes homenageado pela Polícia Militar e uma pela Polícia Civil”.

Alguns seguidores têm manifestado apoio às ações divulgadas pelo ex-deputado, de distribuição de remédios e às declarações. Na última quinta-feira (14), o Conselho Regional de Farmácia publicou uma nota de repúdio à atitude do ex-deputado federal Wladimir Costa, que chamou de irresponsável, de distribuir “kit” de medicamentos à população, sem critérios de segurança e sem a presença do profissional farmacêutico.

A entidade diz que tomou conhecimento do fato pelas redes sociais e por denúncias anônimas e que também apresentou denúncia tanto à Polícia Civil quanto à Vigilância Sanitária. “Salienta-se que a dispensação de qualquer medicamento necessita da orientação técnica qualificada do farmacêutico, sendo um ato privativo do profissional, de acordo com a Resolução nº 572/2013 do CFF e Lei nº 13.021/2014, e que atenda os protocolos sanitários de dispensação e rastreabilidade dos medicamentos controlados (Portaria Anvisa nº 344/98 e RDC Anvisa nº 54/2013)”, diz a nota.

A Polícia Civil informou que ainda não foi notificada oficialmente sobre a denúncia. Já a Secretaria Municipal de Saúde de Belém, órgão ao qual a Vigilância Sanitária Municipal é vinculada, informou que recebeu a denúncia e irá proceder com a investigação do caso.

Fiscal do Conselho Regional de Farmácia, César Gomes alerta que a atitude do ex-deputado traz vários riscos à saúde. “Primeiro, a gente não sabe como ele adquiriu esse medicamento, na quantidade que aparece nos vídeos. Geralmente, para adquirir essa quantidade, você tem que ser distribuidor ou farmácia. A lei proíbe que seja adquirido por pessoa física, na quantidade que tem. Segundo, a forma como ele trata o medicamento, ele carrega no carro. Ele está distribuindo no meio da rua, sem orientação nenhuma”, declarou.

César chama atenção, ainda, para os efeitos adversos da hidroxicloroquina, um dos medicamentos que aparece sendo distribuído por Wladmir Costa. “Ele dá a caixa inteira para a pessoa, a embalagem tem trinta comprimidos”, enfatiza. As diretrizes para diagnóstico e tratamento da covid-19, divulgadas pelo Ministério da Saúde, mostram que o tratamento com hidroxicloroquina deve ser de um comprimido de 400 mg, duas vezes ao dia, no primeiro dia (800 mg de dose de ataque), seguido de um comprimido 400 mg, uma vez ao dia no segundo, terceiro, quarto e quinto dias (400 mg por dia), o que daria seis comprimidos no total.

“O que ele (pessoa que recebeu a caixa com o medicamento do ex-deputado) faz com o restante do medicamento? Dá pro vizinho? Aí temos uma pessoa leiga, que está dando para outra pessoa leiga um medicamento, sem orientação, sem prescrição médica. Está colocando em risco uma série de pessoas”, alerta.  “É uma irresponsabilidade histórica de um cidadão que já foi deputado federal, deveria ser esclarecido. Ele está cometendo não só um crime, mas vários crimes”, completa.

O fiscal do CRF esclarece que, pelo fato de Wladimir Costa não ser farmacêutico, e a entidade apurar a conduta dos profissionais da área, a medida que pôde ser tomada, nesse caso, foi apresentar denúncias aos órgãos responsáveis. “A polícia deveria investigar. Onde ele conseguiu, com quem ele conseguiu e em que quantidade ele conseguiu isso. Porque as próprias farmácias, os hospitais e o próprio governo estava tendo dificuldade, e um cidadão consegue?”, questiona.

O ex-deputado Wlad Costa escancara a ação nas redes sociais: “Já são 14h30 desta segunda-feira e já distribuímos 422 cartelas de azitromicina e ivermectina". Em outra publicação, ele diz que está distribuindo, mediante receita médica, medicamentos que “nem nas farmácias existem”. Ainda em seus perfis, em publicação do dia 4 de maio, ele diz que precisará viajar em busca de grandes fornecedores de ivermectina, hidroxicloroquina e azitromicina. No dia 29 de abril, publicou um vídeo em frente a uma farmácia de Belém, afirmando que não encontrou os remédios para tratamento da covid-19.

O Liberal ligou para vários contatos, que seriam do ex-deputado, mas ele não foi encontrado. Em uma publicação, ele cita veículos de comunicação que estariam o procurando, dizendo que "enquanto houver pandemia de coronavírus, segue na luta para salvar vidas no Pará e não tem tempo para ser correspondente de nenhum veículo de comunicação nacional”, escreveu, há quatro dias.

Ele se manifestou, também pelas redes sociais, sobre a nota de repúdio publicada pelo Conselho Regional de Farmácia, fazendo duros ataques à diretoria da entidade. Afirma que está salvando vidas e que “conhece bem as estirpes de vocês e os poderosos que estão atrás de vocês”, diz, seguido de outras críticas aos representantes do conselho.

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