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Relações exteriores

Embaixador Ruy Pereira defende cooperação internacional com base na 'amazonização'

Diretor da Agência Brasileira de Cooperação destaca relevância do protagonismo regional na elaboração de políticas públicas

Fabrício Queiroz

12 de agosto de 2023 às 08:10

Diretor da Agência Brasileira de Cooperação avaliou participação da população local nos eventos pré-COP 30

Diretor da Agência Brasileira de Cooperação avaliou participação da população local nos eventos pré-COP 30 ( Foto: Cristino Martins / O Liberal )

O Estado do Pará esteve no centro do debate sobre desenvolvimento sustentável e cooperação internacional na Pan-Amazônia nas duas últimas semanas. Durante a realização dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia um aspecto ficou evidente: a necessidade de que os debates sobre o tema passem a privilegiar mais as percepções e as narrativas dos próprios moradores da região. Essa é a avaliação do diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), embaixador Ruy Pereira, que esteve em Belém para participar dos eventos e concedeu uma entrevista exclusiva para o Grupo Liberal.

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Na conversa com o analista de política internacional e articulista do jornal O Liberal, Gustavo Freitas, o diplomata disse que um dos frutos das discussões foi a criação do neologismo “amazonizar”, que reflete o espírito das propostas apresentadas pelos organismos de cooperação dos países integrantes da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA).

“Nós pensamos que amazonizar a Amazônia significa fazer com que a Amazônia seja capaz de construir uma narrativa sobre si própria a partir de si própria, com uma visão própria sobre a sua situação e sobre as possíveis soluções e objetivos a partir dessa constatação própria. Eu repito o termo ‘própria’ justamente para frisar o que é amazonizar”, explicou o diretor da ABC.

Nesse sentido, Ruy Pereira esclarece que é preciso fomentar espaços como os Diálogos Amazônicos e instâncias como a OTCA para que as visões de povos indígenas e comunidades tradicionais sejam incorporadas nas políticas públicas elaboradas para a região. “O que se observa é que as políticas públicas aplicadas na Amazônia, as iniciativas de cooperação internacional para o desenvolvimento da Amazônia partem de narrativas alheias à Amazônia. Partem de narrativas construídas nos gabinetes em Brasília, partem de narrativas construídas no setor privado em São Paulo ou no Rio de Janeiro, partem de narrativas construídas nos gabinetes públicos e privados do mundo desenvolvido”, critica o embaixador defendendo que é possível conciliar essa visão exógena com as demandas endógenas.

“A amazonição da Amazônia não significa dizer que nós pulemos de um extremo ao outro, ou seja, como se a partir de agora só quem pode falar sobre a Amazônia fossemos nós. Não é isso, mas fazer com que a nossa visão sobre si mesma deva ser incorporada ao debate sobre o que é a Amazônia e como vamos fazê-la entrar em uma trajetória de desenvolvimento sustentável que respeite e proteja as populações que vivem dentro da Amazônia”, acrescenta.

Em entrevista ao Grupo Liberal, o embaixador Ruy Pereira esclareceu sobre o conceito de "amazonizar"
Em entrevista ao Grupo Liberal, o embaixador Ruy Pereira esclareceu sobre o conceito de "amazonizar" (Cristino Martins / O Liberal)

Para ele, o conceito de “amazonização” abrange ainda a necessidade de compreensão sobre as diversas realidades da região sejam elas rurais ou urbanas, o reconhecimento de que é preciso valorar a contribuição da Amazônia para o clima global e que o desenvolvimento científico e os conhecimentos dos povos originários podem ser aliados na reflexão sobre as demandas e interesses do bioma e suas populações. “A Amazônia é sobretudo vida e essa vida deve ser respeitada, cuidada, promovida e estimulada. Isso significa amazonizar a Amazônia”, sintetiza.

Política externa

A ABC é um órgão vinculado ao Ministério das Relações Exteriores que tem a missão de planejar, coordenar, negociar, aprovar, executar, acompanhar e avaliar as estratégias de cooperação do Brasil com os demais países, sobretudo no que se refere à cooperação técnica e a cooperação humanitária. A presença da Agência é particularmente importante na região da América Latina e Caribe e na África, mas há iniciativas desenvolvidas em outras nações, como é o caso do Canadá.

Apesar de não atuar especificamente no âmbito de acordos bilaterais ou multilaterais de interesse econômico, Ruy Pereira considera que a experiência da ABC, em consonância com a tradição da política externa brasileira e os debates realizados em Belém, proporcionam ferramentas para que o Brasil avance também nas discussões econômicas.

“Para fazer avançar o acordo Mercosul-União Europeia, por exemplo, eu penso que é preciso aquilo que o Presidente da República já disse repetidas vezes: vontade política, obstinação e ter visão de futuro de que nós estaremos melhor e a Europa estará melhor com o acordo”, avalia o embaixador.

Durante a entrevista, Ruy Pereira analisou ainda a realização dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia como eventos preparatórios para a COP 30, em 2025, na capital paraense. Para ele, a experiência desses encontros traz à tona a emergência de uma abordagem diferente para esses espaços, em que as populações locais passam a ter um papel mais determinante.

Ele cita o exemplo dos Diálogos que, em sua visão, mostraram uma capacidade convocatória sem igual, mobilizando cerca de 27 mil pessoas entre cidadãos comuns e entidades públicas e privadas interessadas nas questões locais. “Eu acho que a Cúpula da Amazônia não é o fim. É o começo. E eu tenho a convicção de que será um começo da trajetória de uma política externa que será mais ampla porque envolverá o conjunto dos países-membro da OTCA, o que fará com que haja uma convergência de interesses e de visões de todos os países”, ressaltou.