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ENTREVISTA

‘É uma pirataria, para não dizer que é furto’, diz presidente da ANJ sobre uso de jornalismo por IA

Presidente-executivo da ANJ avalia como “histórica” decisão do Cade de aprofundar investigação sobre uso de notícias por plataformas digitais sem remuneração aos veículos de imprensa

Jéssica Nascimento

23 de maio de 2026 às 17:00

Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais.

Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais. ( Foto: Foto: Arquivo | ANJ | Divulgação )

A decisão do plenário do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de aprofundar a investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google sem remuneração aos veículos de mídia foi classificada como “histórica” por Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ). Em entrevista ao Grupo Liberal, ele afirmou que o avanço da inteligência artificial agravou os desafios à sustentabilidade econômica da imprensa e criticou o uso de reportagens por plataformas digitais sem compensação financeira.

Cade investiga uso de conteúdo jornalístico por plataformas

Segundo Marcelo Rech, a abertura do processo administrativo pelo Cade representa um avanço importante em uma discussão que se arrasta desde 2019 e agora passa a incluir o uso de conteúdo jornalístico por ferramentas de inteligência artificial.

“Parece uma decisão muito importante, uma decisão histórica muito positiva por parte do Cade”, afirmou.

Para ele, a expansão das plataformas de IA elevou a gravidade do problema ao utilizar conteúdos produzidos por veículos de imprensa para treinar modelos e oferecer respostas aos usuários sem redirecionamento às fontes originais.

Rech citou empresas como Google, OpenAI, Claude, Perplexity, DeepSeek e Grok ao afirmar que essas tecnologias utilizam reportagens, colunas e notícias produzidas “a um custo muito alto” pelas redações.

“Eles entraram nos sites, muitos deles protegidos por barreiras de assinatura, capturaram todos os conteúdos digitais, levaram para alimentar seus modelos e agora oferecem respostas sem pagar nada a quem produziu aquele conteúdo. Isso aí tem um nome, isso é uma pirataria, no mínimo, para não dizer que é furto”, declarou.

O dirigente defendeu que haja uma regulamentação baseada em acordos entre plataformas e empresas jornalísticas. “Nós acreditamos que o melhor processo é que haja um acordo entre as plataformas e os veículos de comunicação para que haja um uso autorizado desses conteúdos”, disse.

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Imprensa enfrenta adaptação após perda de receitas

Ao comentar o cenário econômico da imprensa brasileira, Marcelo Rech destacou que os jornais foram um dos primeiros setores impactados pela transformação digital e pela migração de receitas publicitárias para a internet.

Ele lembrou que, ainda nos anos 1990, os classificados impressos — importante fonte de receita para jornais — começaram a desaparecer com o avanço da internet comercial.

“Houve realmente uma perda muito significativa de receitas. Todos os veículos de comunicação do planeta, e no Brasil não é diferente, sofreram muito com a internet”, afirmou.

Apesar dos impactos, o presidente da ANJ avalia que o setor conseguiu se reinventar. Segundo ele, os jornais deixaram de ser apenas produtos impressos e passaram a operar em diferentes formatos e plataformas. “Os jornais hoje são usinas de informação que produzem conteúdo em 360 graus, 24 horas por dia, sete dias por semana”, declarou.