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Operação contra fraude e desvio de dinheiro público atinge produtora de filme de Bolsonaro

Instituto investigado é uma ONG de propriedade de Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go UP Entertainment Ltd, responsável pelo filme "Dark Horse"

Estadão Conteúdo

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou a Operação WI-FI nesta segunda-feira (1º) para investigar suspeita de fraude em uma licitação da Prefeitura de São Paulo. O contrato, no valor de R$ 108 milhões, foi vencido pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB).

O ICB é uma ONG de propriedade de Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go UP Entertainment Ltd. Esta produtora é responsável pelo filme "Dark Horse", que aborda a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Aditivos no contrato elevaram os repasses para a ONG para R$ 157,1 milhões. As autoridades indicam que pelo menos R$ 26 milhões teriam sido pagos "sem a efetiva prestação do serviço", levando a investigações por fraude na licitação, execução do contrato e possível desvio de recursos públicos.

Alvos e Andamento da Operação

Entre os alvos da Operação WI-FI estão o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Go UP, dois endereços residenciais de Karina e a sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. A ação cumpre oito mandados de busca e apreensão determinados pela 1ª Vara Regional da Garantias (1ª RAJ).

O inquérito que originou a operação foi aberto pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (DICCA), do Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). A investigação visa o contrato entre a Prefeitura e o ICB, após requisição do Ministério Público estadual, a partir de denúncia de Leonardo Carvalho Bastos.

O contrato 01/SMIT/2024 entre o ICB e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia tinha como objetivo a implantação, operação e manutenção de 5 mil pontos públicos de acesso a Wi-Fi em comunidades da periferia paulistana, parte do programa WiFi Livre SP.

As investigações apontam graves indícios de direcionamento e fraude no procedimento de seleção da entidade parceira. O chamamento público contou exclusivamente com a participação do ICB, que, segundo a polícia, não possuía experiência técnica prévia no setor de comunicações, atuando tradicionalmente em feiras e eventos literários e religiosos.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) apontou 20 irregularidades no edital do contrato, recomendando sua suspensão. No entanto, a secretaria manteve o contrato.

Discrepância de Custos e Pagamentos Suspeitos

A Justiça verificou uma "expressiva discrepância econômica" nos valores. Em contratos anteriores da secretaria com a Prodam, o custo de implantação de cada ponto de Wi-Fi era de R$ 230 e a manutenção, R$ 306. O ICB, por sua vez, estipulou R$ 1,8 mil mensais por ponto instalado, sem justificativa técnica ou econômica, sugerindo sobrepreço e lesão ao erário.

Na execução do contrato, apenas 3,2 mil dos pontos de Wi-Fi foram instalados. Três aditivos foram celebrados para prorrogar as obrigações e "justificar os atrasos", aumentando o valor do contrato em R$ 49,1 milhões.

Um relatório da Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e Social da Capital demonstrou antecipação de R$ 26 milhões sem efetivação do serviço. Em julho e agosto de 2024, o ICB recebeu R$ 11 milhões relativos aos 3,2 mil pontos supostamente instalados, com suspeita de que parte deles sequer tenha sido implementada.

Até dezembro de 2025, a Prefeitura de São Paulo pagou R$ 83 milhões ao ICB e reservou R$ 53 milhões no orçamento de 2024, dos quais R$ 12,2 milhões já foram liquidados.

Conexão com o Filme "Dark Horse" e Coaf

A Polícia Civil solicitou à Justiça acesso às análises do Conselho de Controle das Atividades Financeiras (Coaf) sobre as movimentações financeiras do ICB, da Go UP e de Karina. Uma das hipóteses é que parte dos recursos públicos tenha sido desviada para financiar a produção do filme "Dark Horse".

A obra teve mais de 90% de seu orçamento bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. O financiamento secreto foi negociado entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, mesmo após a prisão do banqueiro em novembro de 2025 por fraudes bilionárias, conforme mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF).

O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira, da 2ª DICCA, destacou em ofício haver "consistentes suspeitas de confusão patrimonial entre o instituto e a produtora". Ele indica que recursos do programa "WiFi Livre SP" podem ter sido desviados para custear o filme, utilizando contas de empresas subcontratadas para lavagem de valores.

O roteiro do filme "Dark Horse" é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que em 2024 destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares para a ONG. O site Intercept Brasil revelou Flávio Bolsonaro negociando US$ 24 milhões (R$ 134 milhões na cotação da época) para o financiamento do longa-metragem.

Posicionamento da Prefeitura de São Paulo

A Prefeitura de São Paulo informou que colabora com as investigações e está à disposição das autoridades. Todo o material requisitado foi encaminhado e é de acesso público através da prestação de contas do município.

A administração municipal afirma que o programa funciona normalmente na cidade. Dos 3,2 mil pontos contratados, apenas 52 estavam offline e em manutenção em uma manhã de segunda-feira. A Prefeitura não efetuou pagamento por 5 mil pontos, e o aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados.

A Prefeitura reforça que toda a prestação de contas, incluindo documentos, notas fiscais e contratos, está disponível no sistema SEI, que é público. O processo também foi acompanhado pelo Tribunal de Contas do Município (TCM). A administração "repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos", afirmando que o contrato do ICB seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade.

O chamamento público ocorreu em 2024, quando não havia produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado da parceria é de R$ 1.280,80 por ponto/mês, valor inferior às propostas de 2022 de R$ 2.026,26 e R$ 5.092,14 por ponto/mês.