Mensagens de advogado do PL revelam desvio de emendas por Valdemar, aponta PF
Os advogados de Valdemar, Marcelo Bessa e Thiago Fleury, afirmaram que a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, de determinar a indisponibilidade de bens de até R$ 119 milhões do presidente do PL se baseia em "premissas frágeis"
Os investigadores da Polícia Federal (PF) responsáveis pela Operação Transparência - ofensiva que apura um esquema de desvio em série de emendas parlamentares do chamado orçamento secreto - chegaram ao nome do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, após analisar mensagens trocadas entre a ex-assessora do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca", e Garigham Amarante Pinto, advogado que atua junto à liderança do partido no Congresso. Segundo a investigação, os dois teriam operado, a mando de Valdemar - que não exerce mandato eletivo - um esquema que desviou R$ 119 milhões em emendas parlamentares.
Os advogados de Valdemar, Marcelo Bessa e Thiago Fleury, afirmaram que a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, de determinar a indisponibilidade de bens de até R$ 119 milhões do presidente do PL se baseia em "premissas frágeis, inferências subjetivas e em uma indevida criminalização da atividade político-partidária". Segundo a defesa, é "natural e legítima" a atuação de Valdemar junto à bancada do partido. Já o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato da sigla à Presidência, apontou atuação seletiva da PF (veja as duas manifestações abaixo).
Em uma das conversas coletadas pela PF, Mariângela Fialek pergunta a Nara Benedetti Nicolau Brum, servidora da Câmara dos Deputados lotada na liderança do PL, se ela havia repassado uma planilha da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba). Nara responde: "As do Valdemar já estamos terminando de cadastrar", em referência, segundo a PF, às emendas comandadas pelo presidente do PL.
Principal alvo da Operação Transparência, Mariângela Fialek teve seu aparelho celular apreendido pela Polícia Federal em dezembro de 2025. Os investigadores constataram nas mensagens um "arranjo decisório paralelo" para a destinação de verbas públicas, no qual Valdemar aparece como responsável pela definição e pelo remanejamento de emendas.
Em outro diálogo, registrado em 25 de agosto de 2025, Garigham Amarante Pinto informa a Mariângela que havia marcado uma reunião com Valdemar às 10h30 e acrescenta: "Acho que ele vai jogar no Turismo os 24. Pode ser?". Em resposta, Mariângela pede calma e diz que informaria "quanto", acrescentando que já havia resolvido parte das indicações e que, até o fim do dia, repassaria os dados. Garigham então responde: "Pode colocar o máximo que der. Ele tá querendo Turismos".
No dia seguinte, o advogado do PL volta a procurar Mariângela e pergunta: "Fechou o valor do Pres Valdemar?". Ela responde: "Se puder trocar tudo turismo ótimo", ao que o advogado replica: "24 milhões tá bom".
Horas depois, Garigham informa que havia "voltado do VCN" - sigla que, segundo a investigação, faz referência a Valdemar Costa Neto - e combina um encontro com Mariângela. Em seguida, envia uma lista com municípios, CNPJs e indicações relacionadas à área de Turismo. Para a Polícia Federal, o material indica que os R$ 24 milhões discutidos nas mensagens correspondiam a emendas direcionadas por Valdemar.
Em 28 de agosto de 2025, Nara Brum encaminha a Mariângela uma planilha intitulada "Alteração em Turismo - VCN". Mariângela responde: "Já tenho", mas Nara esclarece: "Não, o Valdemar pediu pra trocar algumas das indicações que ele fez ontem em turismo, porque os municípios não iriam conseguir executar".
'Centralizam, processam e organizam' o esquema, pontua Dino
Para o ministro Flávio Dino, as investigações da Operação Transparência indicam que Mariângela Fialek, Nara Benedetti Nicolau Brum e Garigham Amarante Pinto "centralizam, processam e organizam as indicações a comando de Valdemar".
"O papel dos suspeitos é contabilizar e planilhar as indicações do presidente do PL, distribuindo seus interesses conforme as "cotas" de cada parlamentar, de comissões ou mesmo da Mesa Diretora da Câmara. Em muitas conversações, observam-se claras manobras no sentido de realocar indicações de Valdemar conforme as diretrizes passadas pelo ex-parlamentar, em evidente desvio de finalidade", destaca o ministro.
"Os três servidores da Câmara, de maneira irretorquível, têm plena consciência da clandestinidade dessa atuação. Ocupam posições que não só conferem posse funcional sobre informações sensíveis e etapas internas do fluxo de alocação de emendas, como impõem a obrigatoriedade de não agir em desconformidade com diretrizes não republicanas", conclui Dino.
Advogado do PL atuava como 'verdadeiro emissário' de Valdemar, aponta PF
Outro personagem apontado pela investigação é Garigham Amarante Pinto, advogado que ocupa cargo de natureza especial na liderança do PL na Câmara. Segundo a PF, ele aparece como um dos principais interlocutores de Valdemar na indicação de emendas, atuando na articulação política das destinações.
A investigação aponta que Garigham seria uma pessoa de confiança de Valdemar e atuaria como uma espécie de emissário oficial do presidente do partido no esquema. Diálogos coletados pela PF indicam que ele não apenas transmitia demandas, mas também participava das tratativas sobre valores, áreas prioritárias e o momento de formalização das indicações.
Segundo a PF, Garigham participava de reuniões com Valdemar, repassava os resultados desses encontros a 'Tuca' e levava orientações sobre a concentração de recursos em determinadas áreas orçamentárias, como uma quantia de aproximadamente R$ 24 milhões mencionada nas conversas.
Ele também encaminhava listas com municípios, CNPJs e áreas temáticas, o que, segundo a investigação, indicaria participação na definição dos beneficiários das emendas.
"Sua atuação denota, portanto, uma posição intermediária entre o núcleo decisório político e a estrutura administrativa responsável por executar as indicações, funcionando como vetor de pressão e alinhamento das tratativas", pontua Dino.
Defesa de Valdemar cita premissas frágeis
Em nota divulgada pela defesa e compartilhada por Valdemar Costa Neto nas redes sociais, os advogados do presidente do PL criticaram a decisão e citaram o que chamaram de "indevida criminalização da atividade político-partidária". Veja a íntegra da manifestação:
"A defesa de Valdemar Costa Neto recebe com surpresa a decisão do ministro Flávio Dino, que decretou medidas cautelares em seu desfavor. Com o devido respeito, a decisão parte de premissas frágeis, inferências subjetivas e de uma indevida criminalização da atividade político-partidária.
Valdemar Costa Neto nega categoricamente a prática de qualquer crime. Não há qualquer prova, ou mesmo indício, de que tenha aderido conscientemente a um suposto esquema criminoso.
É natural e legítimo, no sistema democrático, que um presidente partidário dialogue com parlamentares, defenda prioridades programáticas, articule interesses nacionais e regionais e influencie politicamente sua bancada. Nada há de criminoso nisso.
A atuação político-partidária somente poderia ter relevância penal se acompanhada de indícios concretos de fraude, desvio funcional, ocultação deliberada ou apropriação indevida da execução da despesa pública. Esses elementos não estão minimamente demonstrados.
A defesa também destaca o fato de que a Procuradoria-Geral da República foi contrária à decretação das medidas cautelares.
Ainda assim, foram impostas restrições graves com base em suposições, sem qualquer demonstração individualizada de dolo, fraude, desvio de finalidade ou participação consciente em qualquer crime, além de estar claro na decisão de que não houve, com o devido respeito, qualquer vantagem pessoal para Valdemar Costa Neto.
É especialmente preocupante a premissa de que a indisponibilidade deve recair sobre o patrimônio integral do investigado "até que o inquérito aponte elementos mais seguros". A reconhecida incerteza investigativa não autoriza constrição patrimonial ampla, tampouco qualquer presunção de culpa."
Flávio Bolsonaro critica atuação da PF
Pré-candidato do PL à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro criticou a Polícia Federal, dizendo que há forma seletiva para "constranger um adversário político do atual governo". Veja a íntegra da manifestação de Flávio Bolsonaro:
"Sobre a decisão de hoje do ministro Flavio Dino (STF) contra o presidente do meu partido, Valdemar Costa Neto (PL):
1. Tenho certeza que o presidente Valdemar saberá dar todas as respostas aos pontos levantados
2. Como presidente do maior partido do Brasil, é natural que ele atue politicamente junto a deputados federais, em especial os do próprio PL.
3. Lamentável ver a PF atuando de forma seletiva para constranger um adversário político do atual governo. A Polícia Federal, que diz não ter efetivo, nem recursos para investigar as denúncias contra Lulinha, filho do presidente Lula, mais uma vez mobiliza recursos para atacar adversários do presidente. Essa perseguição precisa parar."
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