Eleições no Pará: 'vazios digitais' e cultura oral tornam Estado alvo sensível para IA e fake news
Cientista político alerta que a dependência do WhatsApp em áreas ribeirinhas e a força da oralidade no Estado exigem estratégias específicas de combate à desinformação
A corrida eleitoral de 2026 já começou nos bastidores e, embora o Brasil registre números superlativos de conectividade, a batalha pelo voto no Pará terá contornos dramáticos e particulares. Enquanto o marketing político nacional discute o refinamento de dados, na Amazônia o desafio esbarra na geografia e na infraestrutura. Com o maior eleitorado da região Norte, o Estado é um terreno fértil — e perigoso — para a desinformação, potencializada por "vazios digitais" onde a internet se resume a um aplicativo: o WhatsApp.
Dados nacionais apontam que o Brasil iniciou 2024 com 187,9 milhões de usuários de internet, cobrindo 86,6% da população, segundo o relatório "Digital 2024: Brazil". No entanto, para o cientista político e professor universitário Rodolfo Marques, essa estatística precisa ser lida com lupa na realidade paraense. Segundo ele, em muitos municípios do interior e áreas ribeirinhas, os planos de dados limitados (zero-rating) criam um ecossistema fechado de informação.
Dependência de planos limitados restringe checagem de fatos
"Quando o cidadão não pode clicar em links externos sem gastar dados, ele tende a consumir a informação que chega pronta em áudio ou material encaminhado. O WhatsApp praticamente é a internet; as pessoas não têm acesso a buscadores, sites de checagem ou portais de notícias", analisa Marques.
O especialista destaca que, no interior do Estado, a informação que circula em grupos de família e da igreja possui um peso desproporcional.
"A informação que chega pelo grupo da comunidade tem um peso enorme. O combate a isso é tecnológico, mas passa por aquilo que chamamos de 'media education', parcerias com rádios comunitárias e lideranças locais para gerarem confiança", pontua.
Cultura da oralidade no Pará facilita golpes com áudios falsos
Outro ponto de atenção para 2026 é o uso de Inteligência Artificial (IA) para a criação de deepfakes. Se no resto do mundo a preocupação é com vídeos manipulados, no Pará, o perigo mora no som. A forte tradição oral e a credibilidade do rádio em comunidades afastadas tornam o eleitorado vulnerável à clonagem de voz.
"O Pará é um estado onde a questão da oralidade é muito forte. O rádio tem enorme credibilidade e a palavra falada, a voz conhecida, acaba tendo muito peso", explica Rodolfo. Para ele, o risco é real e iminente: "A chamada clonagem de voz pode explorar isso com mensagens falsas atribuídas a prefeitos, pastores e lideranças comunitárias. Uma vez que o áudio se espalha, desmentir depois é muito mais difícil, e em campanhas de tiro curto isso acaba tendo um impacto, sem dúvida", alerta o professor.
Tecnologia pode aprofundar desigualdade entre candidatos
Embora ferramentas de IA prometam democratizar a produção de conteúdo — permitindo que candidatos menores façam vídeos e textos com baixo custo —, a realidade estrutural pode ampliar o abismo entre as campanhas. O publicitário e estrategista nacional Guto Araujo reforça que "o candidato que não compreender a lógica dos dados e das narrativas segmentadas entra na corrida em desvantagem".
Rodolfo Marques concorda e complementa com a visão local:
"A IA tem um discurso muito sedutor de democratização, mas a grande vantagem competitiva não está somente na produção de conteúdo, e sim na análise de dados e na microsegmentação. Nas eleições estaduais e presidenciais, quem já tem estrutura e dinheiro tende a usar a IA de forma muito mais eficiente. Para candidatos menores, a IA ajuda, mas não resolve o desequilíbrio estrutural e financeiro", avalia.
Fiscalização em 144 municípios desafia a Justiça Eleitoral
Diante desse cenário complexo, recai sobre o Tribunal Regional Eleitoral do Pará (TRE-PA) a hercúlea tarefa de fiscalizar o uso ético dessas tecnologias em um estado de dimensões continentais e áreas de difícil acesso.
"O TRE do Pará tem quadros muito qualificados e vem sendo um exemplo no enfrentamento das fake news. Mas o Estado traz desafios gigantes com seus 144 municípios e realidades distintas", pondera Marques. Ele finaliza com um alerta para a sociedade civil: "Sem todo esse suporte, a assimetria entre o que a tecnologia permite e o que o Estado consegue fiscalizar pode eventualmente crescer".
Número de brasileiros conectados
Usuários de internet: 187,9 milhões (86,6% da população)
Usuários de redes sociais: 144 milhões (66,3% da população)
Fonte: Relatório “Digital 2024: Brazil”
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