'Existe um abismo entre a política e o povo', afirma Guilherme Boulos em entrevista exclusiva
Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, o Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência do Brasil comenta temas centrais do cenário político
Em entrevista exclusiva ao Grupo Liberal, o Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência do Brasil, Guilherme Boulos comenta temas centrais do cenário político e econômico brasileiro, como o fim da escala 6x1, taxação dos super-ricos, soberania nacional, relação entre Brasil e Estados Unidos, eleições de 2026, Congresso Nacional e os desafios do governo Lula.
Leia a entrevista na íntegra:
Sobre o fim da escala 6 por 1. O senhor disse que o presidente Lula quer incorporar esse sistema de maneira imediata. Como vocês sugerem que deve ser feita essa transição de modo que valorize o trabalhador, sem afetar o sistema produtivo e empresarial?
Guilherme Boulos: Quando se aprovou medidas ao longo do tempo para beneficiar grandes empresários, ninguém falou em transição. Quando se aprova bilhões e bilhões de reais de isenção fiscal, de isenção tributária, garantias que vão favorecer aqueles que já têm privilégios, nunca se falou em transição no Brasil. Né?
Quando se aumenta salário de parlamentar no Brasil, não se fala em transição. Agora, na hora de garantir um direito para o trabalhador, querer estabelecer uma transição de quatro, cinco, eu vi gente falando em 10 anos de transição. Isso é inadmissível. Isso é uma tentativa de postergar um debate que a própria sociedade brasileira já colocou como urgente.
Saiu em pesquisa que 74% dos brasileiros são a favor do fim imediato da escala de trabalho. Agora, os impactos em relação ao setor produtivo empresarial estão sendo artificialmente superestimados. Há um terrorismo econômico de grandes entidades empresariaisfalando vai tirar empregos, vai falir, não vai dar conta.
Temos um estudo do IPEA, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Dizendo a partir de uma análise de setor a setor, de todos os setores que tem 6 por 1. Varejo, comércio, construção civil, o próprio agro, pegando setor a setor, o impacto econômico no faturamento das empresas é semelhante a quando se tem aumento real do salário mínimo.
E em todos os governos do Lula, existe aumento do salário mínimo e nenhuma empresa faliu por isso. As empresas precificaram e se adaptaram. O fim da escala é um debate que não começou agora, não caiu de paraquedas. A PEC é de 2024. Já existiam outras PECs para redução da jornada de trabalho. É plenamente possível ter uma reorganização de escalas do conjunto do setor empresarial.
Os estudos mostram não apenas que o impacto no faturamento está sendo superestimado. Em comparação internacional mostra que aqueles países que reduziram a jornada de trabalho, adotaram a 5 por 2, e ainda mostram que esses países tiveram aumento de produtividade, porque um trabalhador mais descansado é um trabalhador que rende melhor, mais produtivo, erra menos, tem menos afastamento por problemas de saúde mental, tem menos acidentes de trabalho.
Por todas essas razões, não vemos sentido num debate de transição de dois, quatro, seis ou qualquer que seja a quantidade de anos que temos visto algumas figuras defenderem no congresso.
Sua ida para a Secretaria-Geral gerou debates sobre a aproximação entre o governo e os movimentos sociais, especialmente pela sua trajetória política ligada a essas pautas. Como o senhor avalia a sua contribuição, ocupando um cargo institucional, para as bandeiras que sempre defendeu e para a esquerda brasileira?
Vim aqui para ser ministro chefe da Secretaria Geral da Presidência como uma missão do presidente. Lula me convidou com a missão de ajudar a colocar o governo na rua. Estamos viajando o Brasil, levando as políticas do governo e chegando em lugares onde muitas vezes os governos não chegam.
E ao mesmo tempo, abrindo as portas aqui do Palácio do Planalto, para os setores populares. Historicamente, banqueiro, grande empresário, nunca precisou marcar hora e entra e sai dos palácios a hora que quer. O que o Lula me pediu: "garantir que os trabalhadores, os movimentos sociais, as organizações da sociedade brasileira tenham o mesmo tratamento".
Desde então, já recebemos centenas de grupos, ouvimos suas pautas, demos encaminhamento para suas demandas, tivemos avanços importantes.
Estamos tocando programas, tocando um diálogo para buscar garantir os gestos do governo Lula e também a luta por dignidade e reconhecimento desses trabalhadores. É um conjunto de tarefas e missões. E eu não vou ser candidato esse ano por essa missão.
Então, eu fui o deputado federal mais votado da esquerda no Brasil, mas o presidente Lula pediu para ajudá-lo no governo nesse momento e também contribuir com a sua campanha à reeleição e por isso fico no governo. E acho que, enfim, vamos chegar bem nesse quarto ano de governo.
Já foi feito no ano passado o aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cerca de R$ 5 mil, além do início da taxação de altas rendas no Brasil, um debate que historicamente era mais limitado. O tema da soberania também aparece como central, em um contexto em que o presidente Lula, segundo a fala, participa de agendas internacionais e defende a posição do Brasil no cenário global.
Essas pautas são eixos importantes do governo e da estratégia política para o período eleitoral de 2026.
Como o senhor avalia essa relação política com os EUA e de que forma acredita que ela pode impactar as eleições de 2026? O senhor vê possibilidade de algum tipo de influência externa ou interferência dos Estados Unidos no cenário político e eleitoral brasileiro?
Estamos vivendo uma reorganização geopolítica e isso não é segredo para ninguém. Os EUA estão desenvolvendo uma política externa mais agressiva. O que se fez na Venezuela, e agora no Irã, é para buscar recursos e minerais, petróleo para eles, né?
Nós temos uma guerra fria dos EUA com a China na disputa de mercados e de territórios no mundo, que é um pano de fundo de tudo isso e uma tentativa do governo norte-americano de levar países a um modelo quase neocolonial, de rendição, para servir ao interesse deles.
E o Lula foi, talvez até mundialmente, o maior líder que enfrentou isso e que não aceitou botar soberania e negociação. Ele falou: "Eu negocio questão comercial, o modelo de exploração mineral que preserve a soberania brasileira, negocio temas de crime organizado, o que for preciso. Mas soberania nacional, isso eu não negocio!”. Tanto é que o Lula, ano passado, foi capa do New York Times, como o único estadista que enfrentou Trump.
Parte dos chefes de estado da Europa, que são países, às vezes, mais ricos e com mais poderio de fogo que o Brasil, se ajoelharam para o Trump. E o Lula fez o enfrentamento. O Lula se colocou como estadista. Então, é evidente que esse tema tem um pacto na política nacional.
Temos gente que ficou usando a bandeira nacional durante anos para fazer politicagem, se dizendo patriota, e na primeira oportunidade que teve traiu a pátria. E na primeira oportunidade que teve, conspirou contra o Brasil lá nos EUA, contra os empregos e os trabalhadores brasileiros, contra os empresários brasileiros, inclusive.
Essa gente bateu continência para a bandeira dos Estados Unidos, eu acho que isso vai ficar para a história brasileira. Um dos capítulos mais vergonhosos, num 7 de setembro, os bolsonaristas, num símbolo que é a Avenida Paulista, botarem uma bandeira gigante dos Estados Unidos. A data marca o dia da independência brasileira. E eles votam a bandeira de um país que tá com uma estratégia de colonização? É uma vergonha.
Então, é evidente que esse tema vai aparecer.
Enquanto o governo lança programas e medidas, algumas pesquisas ainda mostram dificuldade de avanço na aprovação do governo. Como o senhor avalia esse desafio de transformar essas ações em maior apoio popular? E qual é o maior desafio hoje do governo e também dessa campanha do presidente Lula para melhorar a percepção?
Eleição e percepção política, parte da comparação. Essa é a grande questão. A campanha vai permitir que a gente compare. Uma coisa é dizer: tá, o Lula contratou não sei quantos mil médicos do Mais Médicos. Outra coisa é dizer, o governo anterior, do papai do atual adversário do Lula, não contratou nada e tentou acabar com Mais Médicos e o Lula retomou.
O governo anterior não fez um uma casa popular no Brasil, acabou com Minha Casa, Minha Vida e o Lula agora tá já passou de 2 milhões de casas em 3 anos. Debochou das pessoas durante a pandemia. De quem tinha falta de ar, de quem estava morrendo por Covid, dizendo para buscar a vacina na casa da mãe dos outros. Todo mundo lembra?
Queria botar granada no bolso dos trabalhadores e congelar aposentadoria, congelar a BPC (Benefício de Prestação Continuada), aliás o senhor Flávio Bolsonaro disse que é parte do programa de governo dele. Sorte do povo brasileiro que ele não vai ser eleito e portanto não, isso não vai acontecer.
Este é o governo que faz aumento real do salário mínimo, compra briga e manda PL com urgência para acabar com a escala 6 por 1 e manda taxar super rico. Veja, a comparação sendo feita no processo da campanha eleitoral, vai ser decisiva para o povo brasileiro tomar o seu posicionamento. E por isso, eu tô muito tranquilo.
Porque, na hora que comparar, é 7 a 1 em todos os quesitos. Em qualquer área. Quer falar de rodovia? Quer falar de porto? Quer falar de moradia? Quer falar de combate à fome? Quer falar de saúde? Quer falar de educação? Em qualquer área, em qualquer estado.
Pegue o que o Bolsonaro fez pelo Pará, o que que o Lula tá fazendo pelo Pará. Gente, não tem comparação, é só 7 a 1.
E não só nas realizações, também na trajetória. O Lula tem biografia, as pessoas podem gostar ou não gostar do Lula. É normal numa democracia. As pessoas podem votar nele ou não votar nele.
Mas qualquer pessoa de bom senso reconhece a trajetória política do Lula como um cara com compromisso com o povo, como um cara que tirou milhões de brasileiros da miséria, que mudou a região nordeste e a região norte do Brasil radicalmente, como um cara estadista que orgulha o Brasil no mundo. Qual é a biografia do Flávio Bolsonaro?
Sobre o caso do Banco Master, o senhor está acompanhando a operação?
Eu tô acompanhando pela imprensa, como todo mundo. A operação da Polícia Federal e que eu acho que reforça uma coisa. É muito engraçado, né, os bolsonaristas enchiam a boca para falar do Master. E quem agora teve busca e aprendeu porque recebia, segundo a PF, mesada de R$300.000 do Vorcaru, era o seu Ciro Nogueira. Quem é o Ciro Nogueira? Foi o ministro da Casa Civil do Bolsonaro.
Ou seja, os governadores bolsonaristas, lá o Cláudio botou 1 bilhão da previdência dos velhinhos do Rio de Janeiro para o Master. O governador bolsonarista aqui do Distrito Federal, o seu Ibanês, queria tentar salvar o Master, jogar para baixo do tapete usando o banco público, dinheiro público. Então, veja, o Master é o BolsoMaster.
Eu acho que essa operação mais uma vez mostra quem é que está comprometido. E tem outra. Na semana passada nós tivemos aquele episódio vergonhoso do Senado Federal rejeitando a indicação do Jorge Messias. E todo mundo noticiou que que tava no acórdão entre os bolsonaristas e o Davi Alcolumbre para rejeitar a indicação do Messias. Era enterrar a CPI do Master.
Eu acho que a operação é mais uma demonstração de que esse escândalo tem DNA. E o DNA desse escândalo é o bolsonarismo.
O governo federal tem reforçado o discurso da justiça tributária. O senhor acredita que essa narrativa consegue dialogar com o eleitorado para além da base tradicional de apoio ao governo Lula e à esquerda?
Eu acredito que sim, porque as pessoas têm senso de justiça. Veja, você zera o imposto de renda de quem ganha até R$5.000 e faz quem ganha mais de 1 milhão por ano pagar 10%. Eu tô para encontrar alguém que me diga que isso é injusto, que é absurdo. E não precisa ser de esquerda, é ter um senso de justiça.
‘Ah, isso é coisa de comunista’. Vai ver qual é o sistema tributário dos EUA. Com tributação sobre altas rendas e patrimônios. Um dos problemas do sistema tributário que a gente tem é que a tributação no Brasil, historicamente, pesa especialmente sobre o consumo.
O que incide na inflação, torna os produtos mais caros é o ICMS, com o IPI, com o monte de imposto. Agora vai simplificar a tributação depois da da reforma tributária, no período de transição que vai iniciar agora.
Temos uma tributação bem abaixo da média internacional sobre altas rendas e patrimônios, o Lula começou a corrigir essa injustiça. Botou a mão nesse vespeiro, que é difícil. Porque quem vai abrir mão dos seus privilégios? De maneira tranquila? Não existe. Comprou uma briga com gente poderosa. E as pessoas veem isso e se sentem representadas.
O Lula tá com a cabeça em governar o povo brasileiro. Enquanto o Flávio Bolsonaro tá com a cabeça na dancinha do TikTok. Cada um com as suas escolhas e prioridades. O povo brasileiro é sábio e vai saber escolher, eu não tenho dúvida nenhuma.
A política brasileira está bastante polarizada. Mas o congresso atual tem seguido uma linha bastante conservadora. E que puxa mais ali para para os princípios de direita. Quais as estratégias do governo para alimentar relações com o congresso a fim de manter uma relação e comunicação melhor sem abrir mão das pautas históricas que são defendidas pela esquerda?
O governo atual é um governo de coalizão, que se elegeu numa frente ampla, para derrotar, é, o desastre que foi o Jair Bolsonaro governando o Brasil, em defesa da democracia, em defesa dos interesses populares, é, esse foi o grande tema da eleição de 2022.
E a esquerda não tem maioria no congresso. A esquerda tem 130 deputados de 513 e não chega a 20 senadores dos 81. Essa é a realidade.
Então, para poder governar e aprovar as medidas, aprovar, zerar impostos e começar taxar super rico e aprovar as medidas populares do governo, o presidente tem que fazer composição. Esse é o sistema político brasileiro, que aliás precisa mudar, muito francamente. Eu sou um defensor de uma reforma do sistema político e do sistema judicial no Brasil.
Não tem como. O cidadão comum olha para o sistema político hoje e não acredita, não vê credibilidade naquilo. Temos um sistema político afastado da maioria do povo, com abismo entre o poder e as pessoas, entre a política e a sociedade. Nós temos um sistema político com poucos mecanismos de participação da sociedade.
Temos um sistema político que está, inclusive, em pane. Porque o congresso quer tomar função do presidente da República. Como isso é possível? R$60 bilhões de reais em emenda parlamentar, muitas vezes sem transparência.
Muitas vezes essas emendas - e aí não sou eu quem está dizendo, é o Ministério Público e a Polícia Federal - são decisões tomadas de costas para a sociedade. Isso a sociedade tá vendo, tá atenta e tem que estar cada vez mais atenta.
Outro exemplo, é o Congresso Nacional. Eu sou um defensor de voto em lista. Sabe como é que funciona hoje? Assim você vota na lista dos deputados do seu candidato à presidência, é isso. Esse formato permite condições melhores de governabilidade. Não é viável que, para ter governabilidade, tenha que ser todo dia uma negociação e que passe por cada vez mais exigência, faca no pescoço, emenda…
Agora, nós temos um sistema que exige um governo de coalizão. E nesta coalizão, nem sempre o presidente da república vai poder tomar todas as decisões que ele gostaria de tomar e do projeto que foi eleito nas urnas. Acho que isso tem que passar também por pressão da sociedade.
O voto, muitas vezes, é clientelista e com a emenda parlamentar isso se tornou um mecanismo ainda mais vicioso. Por que, agora, as pessoas votam por gratidão do asfalto ou pelo lugar na fila do posto de saúde e nem sabe como que esse representante – que ela ajudou a eleger – , tá votando e representando ela no Congresso.
O senhor diria que então essa pressão da sociedade seria o primeiro passo para essa mudança?
Existem vários projetos de reforma política engavetados no congresso. Porque a tendência natural de quem tá lá é deixar como tá.
Então, o governo hoje não tem força para chegar e falar: "Eu vou botar aqui uma reforma política e o congresso vai aprovar". Esqueça, vai ficar engavetado. Então, é preciso ter um movimento do conjunto da sociedade brasileira, de quem também acredita que é preciso ter um sistema político mais transparente, com mais participação popular, um sistema político com menos privilégios. Eu acredito que é dessa forma. É com o movimento do conjunto da sociedade, dos movimentos sociais organizados. Para que a gente tenha condições de mudar o sistema político no Brasil.
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