Belém 410 anos: por que o poder político ainda é concentrado no centro histórico?
Historiador, cientista político e arquiteta analisam a concentração dos poderes na Cidade Velha e Campina e o impacto disso na dinâmica da capital
Ao completar 410 anos, Belém apresenta uma geografia do poder que, embora tenha iniciado um processo de descentralização para bairros como o Marco e o Souza, mantém raízes simbólicas profundas no centro histórico. Na Cidade Velha e na Campina, palácios que atravessaram o período colonial e a era da borracha continuam sendo o palco de decisões vitais. No entanto, o crescimento da cidade forçou o deslocamento de órgãos fundamentais, como o Tribunal de Justiça do Pará para áreas de expansão da península.
Essa configuração urbana reflete a gênese da ocupação do território, onde as instituições se estabeleceram junto ao núcleo original em 1616. Para o historiador Márcio Neco, essa permanência é histórica.
"Nós temos que perceber que a cidade nasceu e se concentrava somente no bairro que era chamado bairro da Cidade, o que hoje nós temos como Cidade Velha. Posteriormente, nós vamos ter o surgimento do bairro da Campina. Então, naturalmente, que as sedes dos poderes judiciário, militar, religioso, elas se concentravam nesse espaço que consistia na cidade", explica Neco.
O historiador detalha que, embora tenham ocorrido mudanças pontuais, a lógica de ocupação se manteve:
"Foi inevitável que o crescimento urbano da cidade trouxesse e forçasse modificações. E aí eles [os poderes] vão mudar um pouco, se estabelecer em outros prédios. Mas ainda concentrados ali no que historicamente nós conhecemos como a Cidade Velha e a Campina, e estão até hoje, muitos, com algumas mudanças. Surge então o pensamento de uma transferência desses espaços. Mas eles estão estabelecidos ali desde o período colonial, com algumas mudanças devido ao crescimento que foi surgindo", contextualiza o historiador.
A arquitetura como mensagem de autoridade e ordem pública
A imponência de prédios, como os palácios Antônio Lemos e Lauro Sodré, carrega uma mensagem institucional. Para a arquiteta e urbanista Roseane Norat, especialista em restauração e preservação do patrimônio arquitetônico pela Universidade Federal do Pará (UFPA), essas fachadas comunicam valores à população.
"As edificações históricas monumentais que também apresentam valores artísticos associados são simbólicas pois, a elas, se associam valores como tradição, autoridade, solidez e permanência institucional. Por meio de fachadas imponentes, do uso de elementos clássicos, da simetria e da escala monumental, esses edifícios comunicam ao cidadão a ideia de ordem, poder e legitimidade do Estado", analisa a professora.
Norat complementa que essa linguagem arquitetônica contribui para a identidade da cidade:
"Há uma mensagem associada desde a Antiguidade que perpassa esses monumentos, reforçando o respeito às instituições públicas. Além disso, sua presença no espaço urbano contribui para a construção da memória coletiva e da identidade da cidade, funcionando como marcos visuais, artísticos e históricos que expressam a continuidade e a estabilidade do poder público", diz ela.
Palácio da Cabanagem, sede da Alepa (Igor Mota / O Liberal)
O historiador Márcio Neco reforça essa análise focando no período da borracha:
"O Palácio Antônio Lemos [atual sede da Prefeitura e do Museu de Arte de Belém] foi construído para ser um espaço que simboliza esse poder municipal. A cidade que se concentrava muito no atual bairro da Cidade Velha tinha ali a sede daquele que a governava bem próximo. E isso fez com que essa monumentalidade do Palácio Antônio Lemos fosse referência para a cidade. Ele reflete muito bem essa imponência, esse período áureo da borracha", pontua Neco.
A centralização política e os desafios de acesso para a população
A predominância das decisões no centro histórico em 2026 traz implicações para a governança. O cientista político Rodolfo Marques avalia que o fenômeno evidencia uma cultura política marcada pela centralização, em um estado que tardou a aderir à independência.
"O fato de que, em 2026, as decisões mais importantes sobre Belém continuem concentradas no mesmo perímetro urbano que sua fundação revela uma cultura política muito marcada pela centralização histórica do poder. Belém é uma cidade com mais de 400 anos. O estado do Pará foi um dos últimos a aderir à independência do Brasil, então tem essa questão da centralidade política; uma permanência simbólica e prática das relíquias políticas no espaço original da cidade", observa Marques.
Para o cientista político, essa continuidade tem dois lados:
"Por um lado, tem um valor histórico institucional dessa continuidade, mas por outro evidencia uma certa dificuldade de a cidade atualizar essa sua lógica de governança. Então, nós temos uma expansão para várias áreas da cidade, mais de 70 bairros, mas as decisões políticas têm essa característica de centralidade muito personificada na figura do prefeito".
Marques pondera, contudo, que o isolamento do poder público não se deve apenas à localização dos prédios, mas sim às deficiências na mobilidade urbana que dificultam o deslocamento do cidadão até o centro.
"Eu penso que o problema maior não é na localização dos prédios em si, ou na localização dos poderes constituídos, mas principalmente na maneira que você tem para se deslocar: a questão da mobilidade urbana, com a baixa qualidade do transporte público. Isso contribui para um certo isolamento do poder público, por um lado, e por outro, gera um desafio para que a população consiga ter mais acesso à informação e também às decisões que acabam impactando na sua vida", avalia Rodolfo Marques.
É possível adaptar prédios históricos para a gestão moderna?
Diante das demandas tecnológicas e burocráticas atuais, questiona-se a funcionalidade dessas estruturas antigas. Roseane Norat defende que a qualidade construtiva desses imóveis supera a de muitas obras modernas e que a adaptação é tecnicamente viável.
"Sem dúvida, essas obras têm inúmeras qualidades, que as edificações contemporâneas levarão mais de cem anos para alcançar, isso se alcançarem e se forem preservadas ao longo tempo. São edificações para além de esteticamente belas; também são exemplarmente executadas. Espaços amplos, pé direito alto, pisos e forros trabalhados, paredes sólidas, muitas delas com decorações especiais, esquadrias de excelente qualidade", descreve a arquiteta.
Sobre a modernização, ela afirma:
"Um bom projeto de restauração agrega todas as necessidades de acessibilidade e conforto das tecnologias contemporâneas em harmonia e respeito aos elementos históricos a serem preservados. Profissionais qualificados têm todo o preparo técnico para equalizar esses desafios, desenvolvendo projetos de restauro arquitetônico compatibilizados e em harmonia com todos os projetos complementares", explica Norat.
Para finalizar, Márcio Neco recorda que essas paredes guardam mais do que a administração do presente; elas são testemunhas da história política do Pará.
"As paredes [desses prédios] não carregam somente elementos, traços da arquitetura, mas também elementos da história, da Cabanagem, dos grandes conflitos, dos protestos populares. Esses prédios são fundamentais para se analisar, perceber e compreender a rica história do estado do Pará, e conseguem ir além da sua imponente arquitetura e monumentalidade. Eles comunicam uma história", conclui o historiador.
Mapa do poder em Belém
Palácio Antônio Lemos
Praça Dom Pedro II, Cidade Velha. Inaugurado em 1883, quando ainda era conhecido como Palacete Azul, é um ícone do neoclassicismo tardio e abriga o Museu de Arte de Belém (Mabe). O atual nome data da década de 1950.
Palácio Lauro Sodré
Praça Dom Pedro II, Cidade Velha. Construído em 1680 e reconstruído em 1771 pelo arquiteto Antônio Landi, foi a sede histórica do governo do estado até o século passado.
Palácio Cabanagem (Alepa)
Praça Dom Pedro II, 130, Cidade Velha. Sede do Poder Legislativo Estadual, o prédio moderno está integrado ao sítio histórico. Recebeu este nome em 1985, em homenagem aos 150 anos do movimento cabano.
Tribunal de Justiça do Pará
Avenida Almirante Barroso, Souza. Inaugurado em 1872 como o antigo Instituto Lauro Sodré, o atual prédio sede do TJPA data de 1899; em 2006, passou por um restauro.
Câmara Municipal de Belém
Travessa Curuzú, Marco. A sede administrativa, denominada Palácio Augusto Meira Filho, foi inaugurada no local em 2003, após reformas no antigo quartel da Polícia Militar (PM).
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