Cinco pessoas foram presas pela Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCRJ), nesta terça-feira (21/7), durante a operação “Metástase”, suspeitas de participação em uma organização criminosa interestadual especializada em roubos e distribuição de medicamentos oncológicos e imunossupressores de alto valor no mercado. Segundo a PCRJ, as investigações apontaram que cerca de 25 empresas de fachada, distribuídas no Pará, Rio de Janeiro, São Paulo e Goiás, integravam a engrenagem financeira do grupo e eram utilizadas para receptar os medicamentos roubados no Rio.
As apurações policiais revelaram que a quadrilha movimentou mais de R$ 33 milhões em apenas um ano. A PCRJ pediu à Justiça o bloqueio de R$ 30 milhões em contas bancárias, além do sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens e valores utilizados pelo bando para ocultar o patrimônio.
O trabalho investigativo da Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Capital (DRFC-CAP) identificou a participação do grupo em pelo menos 20 crimes semelhantes nos últimos seis meses, além da movimentação financeira superior a R$ 33 milhões no período de um ano, entre 2025 e 2026, por meio da utilização de empresas de fachada. As investigações também indicaram que o material roubado era reinserido em instituições públicas de saúde de todo o país por meio de processos licitatórios na modalidade de tomada de preços.
Durante meses de investigação, os agentes reconstruíram toda a estrutura da organização criminosa e desvendaram seu modus operandi. Os policiais identificaram diferentes núcleos, cada um responsável por uma etapa da operação: o núcleo dos roubadores; o núcleo logístico-financeiro intermediário; o núcleo logístico-financeiro final; e o núcleo de suporte territorial.
A apuração da Polícia Civil do Rio de Janeiro revelou que o esquema ia muito além do roubo das cargas transportadas. Após as ações criminosas, realizadas por criminosos fortemente armados, os medicamentos eram levados para áreas dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), no Complexo da Maré, onde ocorria o transbordo e a redistribuição da carga. A facção criminosa atuava no suporte territorial, fornecendo apoio bélico e proteção ao núcleo de roubadores. Em seguida, um segundo núcleo era responsável pelo armazenamento, fracionamento e envio dos medicamentos roubados, ainda conforme as autoridades.
Para esconder a origem dos produtos e enviá-los aos receptadores finais em diversos estados do país, os integrantes utilizavam empresas de fachada, transportadoras, entregadores e "laranjas". As equipes também identificaram membros do grupo responsáveis por aliciar funcionários de transportadoras para obter informações privilegiadas sobre rotas e cargas.
Segundo os agentes, os medicamentos eram revendidos tanto para hospitais privados quanto, em alguns casos, para instituições públicas de saúde, por meio de processos licitatórios na modalidade de tomada de preços. Ao oferecer valores inferiores aos praticados pelo mercado regular, o grupo conseguia inserir produtos de origem criminosa na cadeia legítima de fornecimento. Os policiais também identificaram o líder da organização criminosa, um homem com longo histórico de envolvimento em roubos de cargas.
De acordo com as informações coletadas, o esquema representa uma grave ameaça não apenas ao patrimônio, mas também à saúde pública. Medicamentos oncológicos e imunossupressores exigem rigoroso controle de temperatura e armazenamento durante todo o transporte. Quando mantidos em condições inadequadas, podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou até gerar substâncias nocivas. Além dos crimes, o volume expressivo das cargas subtraídas pode comprometer o abastecimento dos sistemas de saúde, impactando diretamente o tratamento de pacientes oncológicos, transplantados e pessoas com doenças autoimunes.
Os policiais da DRFC-CAP analisaram imagens de câmeras de segurança, monitoramento estratégico da atuação do bando, cruzamento de dados telemáticos, fiscais e financeiros, além do acompanhamento da movimentação das cargas roubadas. As diligências realizadas permitiram que os agentes reunissem um robusto conjunto probatório, o que fundamentou a representação pelas medidas cautelares, posteriormente deferidas pela Justiça. Os mandados foram cumpridos nesta terça-feira (21/7) no Rio de Janeiro; na capital paulista e nos municípios de Santo André e São Caetano do Sul, em São Paulo; em Goiânia, Goiás; e em Belém.
Redução da eficácia do tratamento
Segundo Luís Eduardo Werneck, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia (SBC), a utilização de um cuja origem é desconhecida diminui a eficiência terapêutica do tratamento, já que não é possível comprovar de onde veio.
“No Brasil, todos os medicamentos, não só os oncológicos, têm um preço tabelado. Não dá para comparar nada abaixo do valor sem desconfiar da lisura. O que diferencia o medicamento oncológico dos demais é o tipo de formulação e as matérias-primas, que são para tratar tumores”, contou.
Werneck afirmou que, quando um paciente faz uso de um medicamento sem conhecer a origem dele, dificulta a prescrição do médico, já que o profissional não sabe se a substância terá o efeito terapêutico previsto ou se irá causar efeitos colaterais, por desconhecer a forma de armazenamento do remédio ou controle de temperatura dele. Para que isso não aconteça, Luís orientou que é preciso comprar esses medicamentos em locais de confiança.
“A pessoa tem que ficar de olho no preço. Tudo que tiver vantagem indevida, alguém está pagando a conta. O paciente precisa avaliar a embalagem e os lacres. Outro ponto importante é pedir orientação médica ou do farmacêutico do hospital para saber se aquela medicação está em conformidade sanitária”, destacou.
De acordo com Werneck, a SBC mantém constante contato com os Conselhos de Farmácia e vigilâncias sanitárias de todo o país “na tentativa de coibir e controlar toda a cadeia de suprimentos dos medicamentos”. Ele avaliou que essa parceria significa “uma união de forças para que a gente consiga organizar ou manter os pacientes em segurança”.
“Temos conseguido dar resultados melhores no tratamento oncológico, o que não ocorreria com um medicamento fraudado. Na condição de roubo ou desvio, é mais fácil controlar quem compra do que quem vende, porque, enquanto tiver quem compra, vai ter quem vende. E a fiscalização do Pará é muito eficiente, tanto da Sespa (Secretaria de Saúde Pública) quanto das vigilâncias municipais. O número dessas ocorrências no Pará é muito menor do que nos outros estados", reforçou.
Esquema expõe vulnerabilidades da cadeia de distribuição
Para a vice-presidente do Conselho Regional de Farmácia do Pará (CRF-PA), Jorgete Carneiro Chaves, o caso evidencia a vulnerabilidade da cadeia de distribuição de medicamentos de alto custo diante da atuação de organizações criminosas. Segundo ela, medicamentos oncológicos, imunossupressores e outros produtos sujeitos a controle especial possuem elevado valor agregado e, por isso, tornam-se alvo de roubos, desvios e revenda irregular. “O caso evidencia que a cadeia de distribuição de medicamentos de alto custo é complexa e vulnerável a ações criminosas, como roubo de cargas, desvio e revenda irregular. Por se tratar de produtos de alto valor agregado, como medicamentos oncológicos e imunossupressores, além de medicamentos de controle específico, como anestésicos e analgésicos previstos na Portaria nº 344/98 do Ministério da Saúde, esses produtos tornam-se alvo de organizações criminosas que visam o lucro em detrimento da saúde pública”, afirma.
Ela ressalta que esses medicamentos exigem controle rigoroso desde a fabricação até a dispensação ao paciente. “Esses produtos exigem controle de origem, armazenamento, transporte e dispensação, pois qualquer desvio compromete não apenas o patrimônio público e privado, mas principalmente a segurança do paciente”, alerta.
De acordo com Jorgete, o episódio chama atenção para a necessidade de atuação integrada entre órgãos de fiscalização, forças de segurança, fabricantes, distribuidores, estabelecimentos de saúde e profissionais farmacêuticos para prevenir e combater esse tipo de crime.
Rastreabilidade garante segurança
A vice-presidente do CRF-PA explica que medicamentos de alto custo percorrem uma cadeia logística rigorosamente controlada. “Os medicamentos percorrem uma cadeia logística que começa na indústria farmacêutica, passa por distribuidores autorizados e chega aos hospitais, clínicas ou farmácias habilitadas, sempre acompanhados por documentação fiscal e controles específicos”, explica.
Segundo ela, a rastreabilidade desses produtos é garantida pelo Sistema Nacional de Controle de Medicamentos (SNCM) e pelas normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "A rastreabilidade é realizada por meio de códigos bidimensionais (DataMatrix), que registram informações como lote, validade e origem. O sistema foi criado exatamente para combater fraudes e garantir a segurança do paciente”, detalha.
Ela destaca ainda que muitos desses medicamentos são termolábeis e exigem monitoramento constante de temperatura durante o transporte e o armazenamento. “Cada etapa deve ser registrada para garantir a procedência e permitir a identificação da origem do produto em caso de desvios ou irregularidades. Essa rastreabilidade é um importante mecanismo de proteção à saúde da população”, garante.
Armazenamento inadequado pode comprometer o tratamento
Jorgete alerta que medicamentos oncológicos e outros produtos de alto custo podem perder a eficácia quando armazenados de forma incorreta. “Muitos medicamentos, inclusive os oncológicos, são termossensíveis e devem ser mantidos em faixas de temperatura rigorosamente controladas. A exposição a temperaturas inadequadas pode causar degradação do princípio ativo, perda de eficácia terapêutica e, em alguns casos, aumento do risco de reações adversas ou até mesmo toxicidade”, alerta.
Ela ressalta que essas alterações nem sempre são perceptíveis visualmente. “Por isso, nunca se deve utilizar medicamentos cuja origem ou condições de conservação sejam desconhecidas, para garantir a segurança e a efetividade do tratamento”, orienta.
Papel do farmacêutico
Segundo a vice-presidente do CRF-PA, o farmacêutico desempenha papel fundamental na prevenção de irregularidades ao longo da cadeia de distribuição. “O farmacêutico é o profissional responsável por verificar a procedência do medicamento, conferir informações como lote, validade e condições de armazenamento, realizar o registro da dispensação, monitorar problemas relacionados ao produto e comunicar aos órgãos competentes qualquer suspeita de irregularidade”, informa.
Ela acrescenta que o profissional também orienta os pacientes sobre o uso correto dos medicamentos. “O farmacêutico detém o conhecimento sobre o medicamento, seu mecanismo de ação, posologia, interações medicamentosas e orienta o paciente quanto ao uso correto. Sua atuação é fundamental para promover o uso seguro e racional dos medicamentos”, declara.
O que fazer em caso de suspeita
Caso haja suspeita de irregularidade, Jorgete orienta que o medicamento não seja utilizado e que as autoridades competentes sejam comunicadas imediatamente. “Dependendo da situação, podem ser acionadas a Vigilância Sanitária municipal ou estadual, a Anvisa, as forças policiais e o estabelecimento onde o medicamento foi adquirido. Quando a suspeita envolver irregularidades relacionadas à atuação farmacêutica, o Conselho Regional de Farmácia também pode ser comunicado pelos canais denuncia@crfpa.org.br ou ouvidoria@crfpa.org.br”, orienta Jorgete.
Orientações aos pacientes
A principal recomendação, segundo a vice-presidente do CRF-PA, é adquirir medicamentos apenas em estabelecimentos regularmente autorizados. “Desconfie de ofertas com preços muito abaixo do mercado, vendas por canais informais ou produtos sem comprovação de procedência. Medicamentos de alto custo exigem cuidados rigorosos de conservação e controle, e sua utilização deve ocorrer com total segurança”, fala.
Ela reforça que medicamentos não podem ser tratados como uma mercadoria comum. “O medicamento é um produto de saúde, não uma mercadoria comum. Quando há desvio da cadeia regular de distribuição, perde-se não apenas o controle patrimonial, mas também a garantia de qualidade, eficácia e segurança do tratamento, o que pode comprometer diretamente a vida de pacientes em situação de grande vulnerabilidade, como aqueles em tratamento oncológico ou utilizando imunossupressores”, afirma.
Por fim, Jorgete destaca a importância da atuação do farmacêutico na proteção da saúde da população. “O farmacêutico é um importante aliado da população na proteção da saúde, e o Conselho Regional de Farmácia reafirma seu compromisso com a fiscalização do exercício profissional e com a defesa da assistência farmacêutica segura, ética e de qualidade para toda a sociedade”, conclui.
