Quase 800 mulheres são vítimas de violência doméstica por mês no Pará; veja como denunciar
O número, que equivale a cerca de 26 casos por dia, foi calculado a partir do balanço entre janeiro e maio de 2026
Uma média de 788 mulheres foram vítimas de violência doméstica por mês no Pará. O número, que equivale a cerca de 26 casos por dia, foi calculado a partir do balanço entre janeiro e maio de 2026, quando foram registrados 3.938 casos de lesão corporal nesse contexto, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (Segup).
O cenário reforça um problema persistente, que também registrou aumento no número de casos entre 2024 e 2025: os registros passaram de 9.895 para 10.055, crescimento de aproximadamente 1,6%.
Diante dos dados, a Segup informou que reforça as ações de prevenção e proteção às mulheres por meio da Delegacia Especializada em Feminicídio, do Alerta Pará Mulher, do aplicativo SOS Maria da Penha, da plataforma SOS Mulher, do programa Pró-Mulher Pará, além da Delegacia Virtual e dos totens de atendimento à mulher.
Violência
A violência contra a mulher voltou a ocupar o centro das discussões no Pará nesta semana, após a repercussão do caso envolvendo uma jovem agredida pelo ex-companheiro, um atleta profissional de boxe, em Belém. O episódio reacendeu o debate sobre a importância das denúncias, da atuação rápida das forças de segurança e do fortalecimento das políticas públicas voltadas à proteção das vítimas.
Segundo a investigação, a vítima foi agredida na madrugada de quarta-feira (24), em frente a um hospital particular da capital. Ela relatou que segurava o filho do casal, um bebê de apenas cinco meses, quando foi atacada com diversos socos pelo ex-companheiro. Com ferimentos no rosto, a mulher recebeu atendimento médico, registrou boletim de ocorrência na Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) e utilizou as redes sociais para pedir ajuda na localização do suspeito.
Menos de 48 horas depois, o homem foi preso pela Polícia Civil, na quinta-feira (25), após diligências realizadas pelos investigadores. Com a prisão, o caso passou a simbolizar não apenas a necessidade da responsabilização dos agressores, mas também a importância da denúncia e da rápida resposta da rede de proteção às mulheres vítimas de violência.
‘Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim’
Casos como o registrado em Belém reforçam a necessidade de campanhas permanentes de conscientização. Além de incentivar as denúncias, as ações têm buscado mostrar que a violência doméstica vai muito além das agressões físicas e pode ocorrer também de forma psicológica, patrimonial, moral e sexual.
Uma das campanhas mais recentes foi lançada pelo Governo Federal dentro do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio. A iniciativa utiliza um trecho da música “Maria da Vila Matilde”, eternizada na voz de Elza Soares, com a frase: “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim”.
Ao contrário de campanhas tradicionais, que costumam mostrar mulheres machucadas, a estratégia aposta em uma mensagem direcionada principalmente aos homens, reforçando que a violência gera consequências legais e que a sociedade deve assumir um papel ativo no enfrentamento ao feminicídio.
Os vídeos também destacam que a legislação foi endurecida, apresentam programas de proteção às vítimas, divulgam a modernização do Ligue 180, que passou a contar com atendimento também pelo WhatsApp, e reforçam que mulheres em situação de violência podem contar com apoio jurídico, psicológico e ações voltadas à autonomia financeira para reconstruírem suas vidas.
Romper o ciclo da violência
Para a presidente da Comissão das Mulheres e Advogadas da OAB Pará, Tarita Cajazeira, os casos que ganham repercussão não representam situações isoladas.
“Os casos que chegam à opinião pública não são exceções. Eles revelam uma realidade que existe há muito tempo e que muitas vezes não aparece nas estatísticas porque inúmeras mulheres ainda não conseguem denunciar. As campanhas de conscientização têm um papel essencial justamente porque rompem o silêncio antes que a violência chegue a um ponto sem retorno”, destaca.
Segundo a advogada, o primeiro passo para romper o ciclo da violência é reconhecer que ela existe. “Quando uma mulher identifica que está vivendo uma violência, seja física, psicológica, moral ou econômica, ela começa o processo de libertação. Esse passo nasce da informação. Ela precisa saber que aquilo que está vivendo tem nome, tem lei e tem proteção”, diz.
Coragem
Tarita explica que o medo de denunciar não pode ser tratado como falta de coragem.
“O medo não é irracional. Ele é consequência de um sistema que, durante muito tempo, falhou com essas mulheres. Muitas têm medo de não serem acreditadas. Outras temem represálias do agressor, dependem financeiramente dele ou permanecem presas por vínculos afetivos e pelas ameaças constantes”, explica a advogada.
Ela destaca que a Lei Maria da Penha oferece instrumentos importantes de proteção, mas afirma que a efetividade dessas medidas ainda representa um desafio.
“A mulher pode solicitar medidas protetivas de urgência, o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato e diversas outras garantias. A lei existe. O grande desafio ainda é garantir que essa proteção aconteça de forma rápida e eficiente.”
Outro ponto ressaltado pela especialista é a dependência financeira. “Essa é uma das faces menos visíveis da violência. Quando a mulher não possui renda própria, não consegue pagar aluguel nem sustentar os filhos, sair da relação abusiva passa a representar um risco para a própria sobrevivência. Políticas públicas voltadas para autonomia econômica não são assistencialismo. Elas são instrumentos de prevenção da violência”, garante Tarita.
Segundo Tarita, oferecer qualificação profissional, acesso ao mercado de trabalho, crédito e geração de renda amplia as possibilidades reais de rompimento do ciclo de agressões. “A proteção jurídica sozinha tem limites. Ela precisa caminhar junto com oportunidades para que a mulher consiga reconstruir sua vida", afirma.
Ajuda
A advogada lembra ainda que toda mulher pode procurar ajuda imediatamente. “Quem decide denunciar pode procurar a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher ou qualquer delegacia. Ela tem direito às medidas protetivas, assistência jurídica gratuita, atendimento psicológico e, quando necessário, acolhimento em casa-abrigo. O mais importante é que ela saiba que não precisa enfrentar tudo isso sozinha”, aponta.
Apesar dos avanços, Tarita avalia que ainda existem desafios importantes.
“A cobertura da rede de atendimento ainda é desigual, principalmente fora da Região Metropolitana. As Deams precisam ser ampliadas e fortalecidas. As campanhas educativas são fundamentais, mas precisam estar acompanhadas de uma rede que funcione de ponta a ponta. Violência contra a mulher não é um problema individual. É uma questão estrutural.”
A advogada ainda faz um apelo às vítimas. “Se você está passando por isso ou conhece alguém que esteja, ligue para o 180. O atendimento é gratuito, sigiloso e funciona 24 horas. Você não precisa esperar a situação piorar para pedir ajuda”, finaliza.
Proteção às mulheres
Nos últimos anos, o enfrentamento à violência contra a mulher ganhou novos instrumentos de proteção. Entre eles está o endurecimento da legislação para crimes praticados no contexto da violência doméstica, além da ampliação de medidas protetivas previstas pela Lei Maria da Penha.
O Programa Mulher Segura fortaleceu a integração entre os órgãos responsáveis pelo atendimento às vítimas.
Já o Ligue 180 passou por modernização e agora também oferece atendimento via WhatsApp, facilitando o acesso de mulheres que não conseguem fazer ligações por estarem sob vigilância do agressor.
As políticas públicas também passaram a priorizar ações voltadas à autonomia financeira, oferecendo cursos de qualificação profissional, encaminhamento ao mercado de trabalho e programas de geração de renda para mulheres em situação de violência.
Além disso, a rede de proteção disponibiliza atendimento jurídico gratuito, acompanhamento psicológico e assistência social para auxiliar as vítimas durante o processo de reconstrução de suas vidas.
Polícia acelera investigações
Enquanto campanhas procuram prevenir novos casos, a responsabilização dos agressores também tem sido reforçada.
Nesta semana, a Polícia Civil iniciou a força-tarefa “Juntos por Elas”, mobilizando diferentes diretorias para acelerar investigações de violência doméstica e familiar em todo o Pará.
A ação prevê centenas de diligências, cumprimento de intimações, análise de procedimentos em andamento, instauração de novos inquéritos e o encaminhamento de mais de 400 investigações ao Poder Judiciário.
“O combate à violência contra a mulher exige resposta rápida. Cada inquérito concluído representa uma vítima que teve sua voz ouvida e um agressor mais próximo de ser responsabilizado”, afirmou o delegado-geral adjunto Temmer Khayat.
A diretora de Atendimento a Grupos Vulneráveis da Polícia Civil, delegada Emanuela Amorim, destacou que a mobilização também inclui buscas por pertences das vítimas, apuração de denúncias anônimas e fortalecimento das investigações em andamento.
“Cada diligência realizada representa um compromisso com a proteção das mulheres e com o rompimento do ciclo da violência doméstica.”
Rede de proteção
Também nesta semana, representantes de instituições públicas participaram, no Palacete Pinho, em Belém, do encontro “Fortalecendo a Rede de Enfrentamento à Violência Contra Meninas e Mulheres”.
A programação reuniu profissionais da segurança pública, saúde, assistência social, sistema de Justiça e demais órgãos envolvidos na rede de proteção, com foco no fortalecimento das ações de prevenção, acolhimento e garantia de direitos às vítimas de violência.
Como denunciar
A mulher pode procurar qualquer Delegacia de Polícia, preferencialmente uma Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), para registrar ocorrência e solicitar medidas protetivas.
Também é possível registrar boletim de ocorrência pela Delegacia Virtual, nos casos permitidos.
Em situações de emergência, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190.
Já o Ligue 180 funciona gratuitamente, 24 horas por dia, recebe denúncias, presta orientações, encaminha vítimas para a rede de proteção e também disponibiliza atendimento por WhatsApp. A denúncia pode salvar vidas.
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