Mãe cobra conclusão de inquérito sobre jovem morto durante ação da PF em Belém
Marcello Victor Carvalho de Araújo, de 24 anos, morreu dentro do apartamento onde morava, na rua dos Mundurucus, no bairro do Jurunas.
Onze meses após a morte de Marcello Victor Carvalho de Araújo, de 24 anos, durante uma operação da Polícia Federal em Belém, a mãe do jovem, Ana Suellen Carvalho de Araújo, voltou a cobrar a conclusão do inquérito que apura as circunstâncias da ação policial. Marcello morreu em 8 de outubro de 2025, dentro do apartamento onde morava, na rua dos Mundurucus, no bairro do Jurunas, enquanto agentes federais cumpriam mandados da Operação Eclesiastes.
“Hoje completam 11 meses da morte do meu filho Marcelo Carvalho. São 11 meses desde que a minha vida foi atravessada pela pior dor que uma mãe pode conhecer. 11 meses sem ouvir sua voz, sem seu abraço, sem sua presença. 11 meses tentando aprender a existir em um mundo no qual meu único filho não está mais”, declarou Ana Suellen.
Segundo a mãe, além do luto pela perda do filho, a família convive com a espera pela conclusão da investigação. Ela afirma que busca esclarecimentos sobre o que ocorreu durante a operação e eventual responsabilização pela morte de Marcello.
“Esses 11 meses não são marcados apenas pelo luto e pela saudade. São também 11 meses de espera por respostas. 11 meses aguardando a conclusão de um inquérito que apura as circunstâncias da morte do meu filho, circunstâncias essas já constatadas em laudo”, afirmou Ana Suellen.
Marcello trabalhava como assistente administrativo da Polícia Civil do Pará e estava no imóvel quando os policiais federais chegaram para cumprir os mandados. O alvo da operação era outro homem, investigado por envolvimento com uma organização suspeita de tráfico internacional de drogas e lavagem de dinheiro. Esse homem foi preso no apartamento.
Na época, a Polícia Federal informou que Marcello teria reagido à abordagem, agredido um dos agentes e tentado tomar a arma de outro policial. A família contesta essa versão desde o início das investigações.
Após a ocorrência, a Polícia Federal instaurou um inquérito, apreendeu as armas utilizadas pelos agentes e afastou temporariamente os policiais envolvidos. O Ministério Público Federal também abriu um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para acompanhar a apuração das circunstâncias da morte.
Laudo aponta dois disparos
Entre os elementos analisados na investigação está o laudo de necropsia. Conforme informações divulgadas após a defesa da família ter acesso ao documento, Marcello foi atingido por dois disparos.
O primeiro tiro, de pistola calibre 9 mm, teria sido efetuado a curta distância e atingido a região do queixo, seguindo uma trajetória de cima para baixo. Segundo as informações sobre o laudo, esse ferimento não foi responsável pela morte.
O segundo disparo partiu de um fuzil e teve trajetória de baixo para cima, provocando lesões graves em órgãos vitais. Esse tiro foi apontado como responsável pela morte.
O advogado da família sustenta que as conclusões periciais divergem de pontos da versão apresentada pelos policiais sobre a dinâmica da ocorrência. Trata-se da interpretação da defesa de Ana Suellen, enquanto a investigação oficial ainda deve esclarecer a sequência dos fatos e eventual responsabilidade dos agentes envolvidos.
O apartamento onde Marcello morava também passou por uma nova perícia oito dias após a morte. A diligência foi realizada a pedido do Ministério Público Federal e contou com integrantes do MPF, da Polícia Federal e da Polícia Científica do Pará, com o objetivo de complementar a reconstrução das circunstâncias do caso.
“Eu estou esperando que o Estado me diga o que aconteceu, quem será responsabilizado e quando essa investigação terá fim. E hoje eu faço uma pergunta diretamente ao delegado responsável da Polícia Federal: até quando? Até quando eu, uma mãe, terei que esperar para a conclusão da investigação da morte do meu próprio filho?”, questionou a mãe do jovem morto.
Ana Suellen afirma que a cobrança da família não é por um tratamento diferenciado, mas por informações sobre o andamento da investigação.
“Eu não estou pedindo favor. Não estou pedindo que o Estado seja bonzinho comigo. Eu tô pedindo respeito, transparência. Estamos cobrando o cumprimento de um dever do Estado”, disse Ana Suellen.
“Porque, do outro lado desse inquérito, não existe apenas um número de processo, folhas, laudos e documentos. Existe um filho morto, o meu filho morto. Existe uma mãe que enterrou seu único filho. Existe uma família esperando respostas há 11 meses”, afirmou.
Para a mãe, a demora na conclusão da investigação prolonga o sofrimento da família. “Cada dia de silêncio prolonga meu sofrimento. Cada adiamento aumenta a minha sensação de abandono. Cada mês sem uma conclusão transforma a espera em mais uma forma de violência contra quem já teve a vida destruída”, declarou.
Ela também voltou a cobrar respostas da Polícia Federal sobre a conclusão do procedimento.
“Por isso, hoje eu me dirijo também à Polícia Federal. Quanto tempo mais será necessário para que a morte do meu filho tenha uma resposta? Eu já perdi aquilo que tinha de mais precioso nessa vida”, afirmou.
“Não existe investigação capaz de devolver meu filho aos meus braços, mas existe algo que o Estado ainda pode e deve entregar: verdade, responsabilização e justiça. Eu não vou cansar de me perguntar, eu não vou me calar diante da demora. Não vou permitir que o tempo transforme a morte do meu filho em apenas mais um processo esquecido dentro de uma gaveta”, disse Ana Suellen.
A Redação Integrada de O Liberal solicitou mais informações sobre o caso ao Ministério Público do Pará e ao Tribunal de Justiça do Estado do Pará, e aguarda o retorno.