Intolerância religiosa: objetos de matriz africana são destruídos após invasão de imóvel em Belém
Os objetos religiosos foram o alvo dos invasores
Um estabelecimento comercial que possuía objetos de religião matriz africana foi invadido e vandalizado no bairro do Reduto, em Belém. O caso foi registrado na última terça-feira (2), quando não havia ninguém no imóvel. A proprietária do local, em entrevista ao O Liberal nesta sexta-feira (5/6), afirmou acreditar se tratar de um caso de intolerância religiosa, pois o dinheiro que estava guardado no empreendimento não foi levado. A Polícia Civil investiga o crime.
A vítima, Jennifer Ludmila Carvalho Dias, de 23 anos, afirmou à reportagem que percebeu algo estranho ao chegar ao imóvel e notar que o portão estava fora do lugar. "Eu tinha ido para lá por volta das 11h da manhã e vi o portão mais para frente. Então falei com a proprietária, porque é alugado. Aqui funciona como um estabelecimento comercial e a gente inaugurou recentemente, no dia 23 de maio", relatou.
Segundo Jennifer, a proprietária do imóvel informou que ia providenciar o conserto do portão. A jovem chamou uma amiga enquanto aguardava para entrar no estabelecimento. Foi nesse momento que descobriu os danos causados dentro do local.
"Quando abri a janela para olhar, vi todas as imagens quebradas. Tudo estava destruído. O dinheiro estava lá, mas todas as minhas imagens estavam destruídas. Levaram meu baralho, minhas guias, meus fundamentos e quebraram minha mesa de leitura de cartas. Só o dinheiro eles deixaram", contou.
A empresária registrou um boletim de ocorrência logo após constatar a invasão. "Imediatamente eu fui fazer um boletim sobre isso. A perícia veio aqui para fazer os levantamentos e bater as fotos", afirmou.
Para Jennifer, os indícios apontam para um possível caso de intolerância religiosa. Adepta da vertente Tambor de Mina, ela acredita que os objetos religiosos foram o alvo principal dos invasores. "Eu acho que foi um caso de intolerância, justamente porque não levaram o dinheiro. Entraram aqui, quebraram tudo relacionado à minha religião e deixaram o dinheiro no local", disse.
A vítima informou que trabalha no imóvel desde a inauguração. Segundo ela, houve apenas um episódio anterior envolvendo um desentendimento com um morador da área.
"A gente desconfia de todo mundo. Desde o ocorrido, nenhum vizinho reclamou de absolutamente nada. Somente tivemos um desentendimento com um vizinho que veio aqui no dia da inauguração. Ele disse que ninguém gostava das imagens, das velas e nem dos guias. Que íamos arrumar confusão com os vizinhos que não gostavam. Depois disso, ninguém mais falou nada sobre meus itens de religião de matriz africana", relatou.
Jennifer ressalta, porém, que não pretende apontar culpados sem provas. “Nós não estamos acusando ninguém. Só queremos saber quem fez isso”, declarou.
Investigação
Após o crime, a Polícia Militar esteve no local e solicitou imagens de câmeras de segurança instaladas nas residências vizinhas. “Tentamos pegar as imagens dos vizinhos para ver se conseguíamos identificar o suspeito. A Polícia Militar também pediu essas imagens e recolheu registros da rua”, informou.
De acordo com a empresária, alguns moradores chegaram a procurá-la após a repercussão do caso. "Alguns vizinhos vieram falar comigo e disseram que não viram nada e que não tiveram envolvimento com isso", afirmou.
Jennifer contou ainda que nunca havia passado por uma situação semelhante e que o episódio provocou forte abalo emocional.
“Eu nunca tinha passado por algo assim. Acho que foi justamente por acreditar que se trata de intolerância religiosa que entrei em desespero e em pânico quando vi tudo quebrado. Nunca vivi algo semelhante que demonstrasse esse nível de violência. Nunca imaginamos que um dia vamos ser vítimas disso”, relatou.
Repúdio
Nas redes sociais, o estabelecimento divulgou uma nota pública repudiando o ocorrido. No comunicado, o empreendimento classificou a ação como um ato de intolerância religiosa e destacou que os danos atingiram objetos e símbolos ligados à fé da proprietária.
"O Espetinho do Malandro vem a público manifestar seu mais profundo repúdio aos atos de intolerância religiosa ocorridos recentemente, que culminaram na depredação e no vandalismo de objetos e símbolos ligados à fé e à espiritualidade", diz trecho da nota.
O estabelecimento também afirmou que episódios dessa natureza representam um ataque à liberdade religiosa e reforçou o compromisso com o respeito à diversidade de crenças.
"Lamentamos profundamente o ocorrido e reforçamos nosso compromisso com o respeito, a diversidade e a convivência pacífica entre todas as crenças e manifestações religiosas. Intolerância religiosa não é opinião: é desrespeito", conclui o comunicado.
O caso segue sob investigação das autoridades para identificar os responsáveis pela invasão e pelos danos causados ao estabelecimento. A Redação Integrada de O Liberal solicitou mais informações sobre o caso para a Polícia Civil e aguarda o retorno.
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