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‘Gato’ na fiação elétrica: Pará registra média de 66 casos de furto de energia por mês

O crime representa riscos à segurança, como incêndios, choques elétricos fatais e danos a equipamentos das residências envolvidas e de imóveis vizinhos.

O Liberal

Ao longo de 2025, o Pará registrou 802 boletins de ocorrência relacionados ao furto de energia elétrica, prática popularmente conhecida como “gato”. O número corresponde a uma média de 66 registros por mês no estado. O balanço foi divulgado pela Polícia Civil do Pará. Além de configurar crime, sujeito a multas e à obrigação de ressarcir os prejuízos causados, o furto de energia representa riscos à segurança, como incêndios, choques elétricos potencialmente fatais e danos a equipamentos das residências envolvidas e de imóveis vizinhos.

De acordo com a Polícia Civil, os dados ainda apontam que, em 2024, foram registrados 985 boletins de ocorrência pelo mesmo crime. Quanto às prisões em flagrante, os dados mostram aumento: 327 pessoas foram detidas em 2024 e, em 2025, o número subiu para 422 flagrantes. Já em 2026, apenas entre os dias 1º e 12 de janeiro, a corporação contabilizou cinco prisões relacionadas ao furto de energia. A Polícia Civil reforça que o crime segue em investigação contínua e que operações específicas têm sido realizadas para coibir a prática e responsabilizar os envolvidos.

Riscos

O ato de fazer o ‘gato’ na fiação elétrica apresenta um grande risco para quem manuseia a fiação e, a longo prazo, para quem convive próximo ao local onde o furto da energia ocorre. Segundo o engenheiro eletricista Raphael Barradas, que atua com projetos de instalações elétricas de baixa e média tensão, subestações, aterramento e execução de obras, é necessário que a população entenda que essa prática ilícita pode levar à morte.

“O principal risco elétrico que uma pessoa corre ao fazer ligação clandestina é o de perder a própria vida”, afirma. “Na maioria das vezes, essas ligações utilizam materiais totalmente inadequados, qualquer tipo de condutor metálico, arame farpado, arame de qualquer natureza. As pessoas colocam em risco a sua vida e não usam nenhum tipo de equipamento de proteção individual”, diz.

Ele detalha o porquê de o perigo não se limitar a quem realiza o furto. “Essas pessoas podem causar problemas para terceiros também, porque elas podem fazer um tipo de ligação que dá um ponto quente, pode derreter a rede ou o cabo, pode causar princípio de incêndio e colocar em risco a vida de quem mora ao redor”, alerta.

Impactos

Segundo Barradas, “uma ligação clandestina pode causar curto-circuito e sobrecarga”. “A rede da concessionária não foi tecnicamente especificada para atender aquela ligação clandestina”, aponta. O engenheiro pontua que, sem estudo de carga adequado, equipamentos conectados à rede roubada podem exigir mais potência do que ela suporta, gerando falhas e aquecimento dos condutores.

O especialista aponta que os impactos podem se estender para outras residências. “Um furto de energia instalado na rede de distribuição da concessionária pode ocasionar distúrbios de tensão em outras casas. Esses distúrbios podem causar falhas de tensão, níveis de tensão diferentes e até interrupções no fornecimento”, ressalta.

Acidentes

Além dos danos materiais, Barradas reforça o risco extremo de acidentes. “O furto de energia pode causar até a morte de uma pessoa inadvertida. Muitas vezes, quem faz isso acha que sabe mexer com eletricidade, não tem curso nenhum, não tem instrução. A eletricidade é invisível, a pessoa acha que não está vendo nada e faz por conta própria, muitas vezes vendo vídeos na internet. Mas existe um procedimento técnico rigoroso para se mexer com instalações elétricas”, destaca.

Entre os acidentes mais comuns, Raphael Barradas cita quedas, fraturas e queimaduras. “Os casos mais comuns são choques elétricos com pessoas subindo em postes sem equipamento de proteção, levando à descarga e caindo. Também há riscos de fogo nos condutores, instabilidade na rede e uma série de outras mazelas que esse tipo de ligação clandestina pode causar”, alertou.

Crime

Barradas lembra que o crime também tem implicações jurídicas. “Além dos riscos de morte e instabilidade na rede, existem riscos legais. A concessionária pode multar e pode proceder criminalmente contra quem rouba energia. Ligação clandestina é proibida por lei e, caso alguma situação clandestina seja identificada, a concessionária pode aplicar as penalidades legais”, informa.

O engenheiro faz um alerta direto a quem cogita realizar o “gato”. “Para quem está pensando em fazer uma ligação clandestina: não faça. Existem riscos associados para você e para quem está ao seu redor, além de implicações legais. Procure os canais de atendimento da concessionária, veja em que situação você se enquadra e verifique programas como tarifa social.”

Instalações

Para Barradas, muitas pessoas ainda recorrem ao furto de energia por falta de informação. “Eu acredito que muita gente faz isso por questões financeiras e por falta de fiscalização, mas, principalmente, por falta de informação. A concessionária dispõe de programas sociais com incentivos e faz fiscalizações e atualizações de rede, dificultando o acesso às ligações clandestinas. Então, por falta de informação, as pessoas acabam adotando isso como necessidade.”

Ele também orienta que instalações adequadas só devem ser feitas por profissionais habilitados. “Procure sempre um profissional legalmente habilitado para fazer instalações de acordo com as normas aplicáveis. Não faça esse tipo de ligação clandestina, porque de alguma forma ou de outra você pode prejudicar a sua vida e a de outras pessoas”, finaliza Raphael Barradas.

Denúncia 

Para denunciar furto de energia elétrica no Pará, use os canais da Equatorial Energia Pará (distribuidora local), como o 0800 091 0196, o site (www.equatorialenergia.com.br), ou vá a uma agência. Também é possível informar o furto pelo Disque Denúncia 181 da Polícia Civil, a identidade é mantida em anonimato.