Denúncias de violência infantojuvenil crescem quase 100% em cinco anos no Pará
Especialista alerta para impactos psicológicos duradouros e reforça a importância da rede de proteção
As denúncias de violência contra crianças e adolescentes registradas no Pará cresceram quase 100% em cinco anos. Dados da Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) mostram que o número de notificações passou de 2.338, em 2020, para 4.661 em 2025, um aumento de 99%. Neste período, foram contabilizados 22.357 registros no estado, colocando o Pará na 17ª posição nacional em variação percentual dos casos. Especialista alerta para impactos psicológicos duradouros e reforça a importância da rede de proteção.
Os dados reforçam um cenário que já havia sido apontado em levantamento nacional divulgado pela SPDM. Na ocasião, a pesquisa mostrou que a Região Norte acompanha a tendência de crescimento das notificações de violência contra crianças e adolescentes no país, evidenciando a necessidade de fortalecer políticas públicas de prevenção, acolhimento e proteção às vítimas.
Segundo a pesquisa, milhares de crianças e adolescentes continuam expostos a diferentes formas de violência, como agressões físicas, abuso sexual, violência psicológica e negligência. O aumento das notificações reflete o fortalecimento dos mecanismos de denúncia e da rede de proteção.
Violências
Muito além das lesões físicas, a violência pode provocar consequências que acompanham a vítima por toda a vida. Transtornos de ansiedade, depressão, baixa autoestima, dificuldades de aprendizagem, problemas de socialização e transtorno de estresse pós-traumático estão entre os impactos mais frequentes observados por profissionais da saúde mental.
Segundo a psicóloga Thaís Lobato, embora a violência física seja a forma mais lembrada pela população, os danos emocionais podem ser tão graves quanto as marcas deixadas no corpo.
“A gente fala muito sobre a violência física, mas não se pode esquecer que a violência psicológica também deixa marcas muito profundas. A violência não machuca apenas o corpo. Ela pode comprometer o desenvolvimento emocional da criança, afetar a autoestima, a forma como ela enxerga o mundo e como constrói suas relações”, explica.
A especialista destaca que os efeitos variam conforme a intensidade e o tempo de exposição às agressões, mas alerta que as consequências podem acompanhar a vítima por toda a vida.
“A curto prazo, essa criança pode desenvolver ansiedade, depressão e insegurança. Mas, a longo prazo, os impactos podem ser ainda maiores, porque ela está em fase de formação da personalidade. Isso pode influenciar diretamente a maneira como ela se relaciona com outras pessoas e como percebe a si mesma e o mundo ao redor. Muitas vezes, esse sofrimento acompanha a vítima até a vida adulta, formando um adulto emocionalmente adoecido”, afirma.
Conversa
Para Thaís, outro desafio é que a violência nem sempre é verbalizada pela vítima. Segundo ela, crianças costumam demonstrar o sofrimento por meio do comportamento.
“As crianças, geralmente, não falam. Elas se comportam. Por isso, é preciso ter um olhar muito atento e acolhedor. Tristeza persistente, ansiedade, baixa autoestima, choro frequente e medo excessivo são alguns sinais que merecem atenção”, ressalta.
Ela explica que mudanças bruscas de comportamento também devem ser encaradas como um importante sinal de alerta.
“Geralmente, crianças que sofrem violência tendem a se isolar ou, em alguns casos, ficam mais agressivas. Quando uma criança muda completamente o comportamento, isso precisa ser observado, porque não é o que se espera do desenvolvimento infantil saudável”, aponta Thaís.
A psicóloga também destaca que muitas vítimas encontram dificuldades para revelar o que estão vivendo, principalmente quando o ambiente familiar não oferece segurança.
“A criança vai procurar alguém em quem confia. Muitas vezes, ela não consegue falar dentro da própria família, especialmente quando esse ambiente é disfuncional. Por isso, a rede de proteção é tão importante. Ela pode buscar ajuda na escola, com um professor, em outra família ou com qualquer adulto que transmita segurança”, diz.
Suporte
Segundo Thaís, o acolhimento psicológico após a denúncia é essencial tanto para a vítima quanto para os familiares.
“Infelizmente, esse acompanhamento ainda não chega para todas as crianças, mas ele é fundamental para reduzir os prejuízos emocionais. Além de a criança ser acolhida, a família também precisa de orientação para compreender como agir e oferecer o suporte necessário”, fala.
Ela reforça que o enfrentamento da violência depende da atuação conjunta de toda a sociedade.
“Nenhuma criança deve enfrentar uma situação de violência sozinha. A proteção é uma responsabilidade coletiva. Família, escola, serviços de saúde, assistência social, Ministério Público e toda a rede precisam atuar de forma integrada para garantir acolhimento e interromper esse ciclo”, garante Thaís.
Por fim, a psicóloga faz um apelo para que adultos levem a sério qualquer sinal ou relato feito por uma criança.
“A infância é o alicerce da vida adulta. Tudo o que acontece nessa fase repercute no futuro. A violência não educa, ela machuca. Quem acolhe uma criança pode mudar completamente a história dela. Toda criança merece crescer em um ambiente de proteção, respeito e acesso aos seus direitos”, finaliza Thaís.
Sinais
Além das consequências psicológicas, reconhecer precocemente os sinais de violência pode ser decisivo para interromper o ciclo de agressões. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, medo excessivo de determinadas pessoas, queda no rendimento escolar, alterações no sono ou na alimentação, regressão de comportamentos já superados, automutilação e sexualização incompatível com a idade são alguns dos indícios que merecem atenção de familiares, educadores e profissionais da saúde.
Para garantir a proteção de jovens e crianças, uma rede de suporte às vítimas foi montada pela Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa). Por meio de nota, o órgão informou que prepara profissionais especializados para ajudar quando necessário.
“A Sespa capacita médicos, enfermeiros, agentes comunitários de saúde e demais profissionais da rede para identificação, notificação e encaminhamento de casos de violência contra crianças e adolescentes, por meio de ações desenvolvidas no Programa Saúde na Escola (PSE), na Estratégia Atenção Integrada às Doenças Prevalentes na Infância (AIDPI Criança), nos Cuidados de Criação e em capacitações voltadas à vigilância da violência”, apontou.
“Entre os principais sinais de suspeita observados pelas equipes de saúde estão alterações comportamentais, como isolamento, medo e agressividade; mudanças no sono e na alimentação; queda no rendimento escolar; além de lesões sem explicação, hematomas, dores recorrentes, principalmente nas regiões abdominal e genital, infecções urinárias de repetição, corrimento genital e perda de peso sem causa aparente”, declarou a Sespa.
Denunciar
Em casos de suspeita ou confirmação de violência contra crianças e adolescentes, a denúncia é fundamental para interromper o ciclo de agressões e garantir a proteção da vítima. As ocorrências podem ser comunicadas de forma anônima por meio do Disque 100, canal nacional de denúncias de violações de direitos humanos, que funciona diariamente. Também é possível procurar o Conselho Tutelar, a Delegacia Especializada no Atendimento à Criança e ao Adolescente, unidades da Polícia Civil ou Militar e o Ministério Público.
Em situações de emergência ou quando houver risco iminente, a orientação é acionar imediatamente a Polícia Militar pelo telefone 190. Diante de qualquer suspeita, o mais importante é comunicar os órgãos competentes, que serão responsáveis por apurar os fatos e adotar as medidas de proteção previstas em lei.
Palavras-chave