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'Belém vive um deslocamento territorial da criminalidade', aponta pesquisador de segurança pública

Nesta primeira semana de 2025, em menos de 24 horas, três homicídios e uma tentativa de assalto com vítima ferida em diferentes pontos da capital

O Liberal

A sensação de insegurança em Belém é relatada por moradores que comentaram perceber a ‘expansão’ da criminalidade dos bairros periféricos para os bairros antes considerados ‘nobres’. Dados do Anuário de Segurança Pública mostram que a capital paraense figura em 2º lugar com a maior taxa de roubo e furto de celulares do Brasil. Além disso, casos que envolvem letalidade, como homicídios e feminicídios, também ganham destaque na mídia belenense.

De 1º de janeiro a 31 de dezembro de 2024, segundo o anuário 2025, Belém registrou uma taxa de 1.621,4 ocorrências de furto/roubos de celular por 100 mil habitantes. No entanto, além dos crimes contra o patrimônio, são os casos de assassinatos que assustam os moradores. O levantamento da Consulta de Dados Estatísticos Criminais (Codec), do site da Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (Segup), mostra que em dezembro de 2025 foram registrados 13 homicídios em bairros distintos de Belém.

Segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado, no mês de novembro de 2025, a Grande Belém registrou 34 tiroteios e 40 pessoas baleadas apenas. Ao todo, 33 pessoas morreram e sete ficaram feridas. No mesmo período, a cidade acumulou registros sucessivos de crimes violentos. Nesta primeira semana de 2025, em menos de 24 horas, foram três homicídios e uma tentativa de assalto com vítima ferida em diferentes pontos da capital, incluindo bairros como Marco, Maracangalha e Icoaraci. Além desses casos, também teve repercussão na imprensa tentativas de feminicídio, agressão a idoso e uma intervenção policial.

Expansão da criminalidade

A expansão territorial de facções criminosas em Belém tem alterado a dinâmica urbana e ampliado o sentimento de insegurança entre quem circula pela cidade. Segundo o pesquisador Lucas Moraes, membro da Rede de Observatórios da Segurança e especialista em monitoramento de segurança pública, as pesquisas realizadas sobre segurança pública mostram que continuam ocorrendo mudanças no perfil dos crimes praticados na capital paraense. A expansão da criminalidade de bairros periféricos para as chamadas ‘áreas nobres’ aponta uma reconfiguração da violência no espaço urbano.

Segundo ele, o atual cenário não pode ser entendido apenas por índices policiais, mas pelas conexões sociais, econômicas e territoriais que moldam a criminalidade. “O que se vê em Belém é um deslocamento territorial da criminalidade. Bairros como Umarizal, Fátima e São Brás estão próximos de áreas periféricas com histórico de violência, como Guamá e Cabanagem, então existe uma facilidade de circulação entre territórios”, explicou.

Para Moraes, a repercussão de determinados crimes é maior porque atinge áreas tradicionalmente associadas à segurança e tranquilidade. “Quando ocorre um assalto em uma área considerada nobre, a repercussão é maior do que em bairros já associados à violência, então a percepção de insegurança cresce”, avalia.

Ele também observa que parte desse processo se relaciona com políticas sociais que reduziram alguns tipos de crimes violentos em áreas vulneráveis. “Programas sociais reduziram alguns crimes, mas, sem estratégias de prevenção e policiamento também nas áreas centrais, certos delitos acabam se deslocando.”

Mudanças necessárias

Ao analisar o papel da Polícia Militar, o pesquisador afirma que a instituição mantém práticas que não correspondem às necessidades atuais de segurança pública. “Eles ainda empregam estratégias ultrapassadas e baseadas predominantemente na violência armada e psicológica”, destaca. Segundo ele, isso produz “desgaste institucional e mortes sistemáticas, sobretudo da população negra de periferia”. Citando o relatório Pele Alvo: crônicas de dor e luta, da Rede de Observatórios, ele afirmou que “em 2024, o Pará registrou 597 mortes decorrentes de ações policiais, sendo 522 vítimas negras, quase todas homens”.

Para Lucas Moraes, o enfrentamento não tem sido efetivo. “Não há combate estruturado às facções. Há aumento da violência, abordagens seletivas e ausência de presença estatal integrada. Sem policiamento comunitário, o que representa um distanciamento de quem mais precisa”, diz.

Facções

O fenômeno também é observado pelo oficial de justiça e pesquisador Roberto Magno Reis Netto, que investiga o crime organizado e sua expansão territorial. Ele reforça que a atuação de facções em Belém opera por diferentes camadas sociais e geográficas. “O crime tem maior facilidade de se alastrar nas comunidades mais carentes porque políticas sociais se mostram naturalmente ausentes lá. Nesses territórios, a falta dessas políticas públicas básicas cria um ambiente fértil para o recrutamento de jovens”, disse.

Segundo Reis Netto, as facções articulam sua estrutura em duas frentes: “a mão de obra” e “o poder de mando”. Enquanto o primeiro grupo se concentra em regiões periféricas, onde a vulnerabilidade social facilita o aliciamento, o segundo se instala em áreas de maior poder aquisitivo.

“As pessoas que comandam têm poder econômico e capacidade de coordenação, então se situam em áreas mais nobres, nos grandes condomínios. Já quem faz a atividade mais braçal está nas grandes periferias, onde a mão de obra é mais barata”, explicou.

Ele descreveu ainda o uso crescente de condomínios de classe média e alta para estocagem de armas e drogas, o que, segundo ele, exige maior esforço investigativo. “Para entrar em um condomínio, o trabalho da polícia é maior. Então vimos apreensões relevantes nesses locais.” Nesses bairros, segundo o pesquisador, “a criminalidade é mais silenciosa e opera pela lavagem de capital, corrupção e mecanismos de colarinho branco”.

Enfrentamento

Ao tratar sobre o combate aos articuladores dos crimes, Reis Netto avaliou que há reconhecimento do problema e tentativas de enfrentamento, porém com limitações. “O combate tem ocorrido, mas as dificuldades também estão presentes. Existem esforços reais, mas também faltam tecnologia, efetivo e monitoramento constante para impedir que o crime se enraíze nas instituições públicas.”

Ele também analisou o grande contingente policial empregado durante a COP 30, em Belém, onde a forte presença policial diminuiu os casos de crimes na capital paraense. Para explicar essa questão da segurança, ele citou o chamado “efeito balão” ou “efeito barata”.

“Quando se concentra um aparato policial muito grande em uma área, o crime não desaparece; ele só se desloca. É como apertar um lado do balão: o ar vai para o outro. Ou como no efeito barata: quando você acende a luz, elas correm para outra direção. Com o crime urbano acontece a mesma coisa.”

Insegurança

A onda de insegurança citada pelos pesquisadores encontra respaldo em dados recentes. O levantamento do Instituto Fogo Cruzado também chama atenção para a violência contra adolescentes na capital paraense: dois jovens entre 12 e 17 anos foram baleados e mortos em novembro, ambos em ações policiais. Desde janeiro, foram nove adolescentes baleados na região metropolitana, sendo seis em ações ou operações policiais. Os bairros que concentram mais tiroteios foram Pratinha, Terra Firme e Telégrafo.

Moradores

No cotidiano, moradores relatam estar moldando suas rotinas para evitar situações de risco. Em entrevistas feitas pela reportagem em diferentes pontos da cidade, a sensação de insegurança apareceu tanto em bairros centrais quanto em áreas periféricas.

“Acho que ninguém em Belém está seguro. Falta segurança nas ruas. A gente anda e não sabe se volta, porque tem muito assalto e gente drogada que pega qualquer um.”

Abraão Azuelos, 82 anos, aposentado.

“A segurança em Belém depende do bairro. No centro você vê mais viaturas, mas na periferia, em lugares como Guamá e Jurunas, é outra realidade. Falta política pública e investimento social para tratar a causa do problema.”

Augusto Lima, 47 anos, advogado.

“Hoje me sinto mais seguro que anos atrás. Eu trabalho no Ver-o-Peso há 40 anos e já foi bem pior. Mas ainda falta muita inteligência na polícia. Não adianta só colocar viatura, tem que saber onde e como agir.”

Zuilo Gama, 53 anos, feirante.

“Quando a gente passa por certas ruas, já sabe onde vai ter assalto. Falta guarda municipal, falta policiamento, falta tudo. Sai de casa e pode ser assaltado na esquina.”

Rosa Trindade, 70 anos, dona de casa.

“Toda hora é assalto, principalmente de moto. Para dar jeito nisso, tinha que prender e não soltar mais, porque do jeito que está não tem segurança para ninguém.”

Patrícia Galvão, 51 anos, dona de casa.

“Belém não é segura. Mesmo com policiamento, tem muito criminoso circulando livre. A gente anda com medo, escondendo o celular e segurando a bolsa. No Ver-o-Peso, então, é pior ainda.”

Érica Reis, 31 anos, administradora.

A Redação Integrada de O Liberal solicitou um posicionamento para a Segup e Guarda Municipal de Belém, e aguarda o retorno.