Suspensão de vacina contra dengue do Butantan não registra casos graves no Pará
Estado recebeu 23,8 mil doses do imunizante destinado a trabalhadores da saúde; Belém aplicou 292 doses e afirma não ter registrado reações fora do esperado
A suspensão cautelar da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan (Butantan-DV), anunciada pelo Ministério da Saúde após a notificação de 42 casos de reações adversas graves e duas mortes suspeitas em investigação no país, não teve registros de eventos graves no Pará, segundo informou, nesta quarta-feira (17), a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa). A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) instituiu nesta terça-feira (16) grupo de trabalho para aprofundar a avaliação da segurança da vacina contra a dengue Butantan-DV.
De acordo com a Sespa, o Pará recebeu e distribuiu aos municípios um total de 23.840 doses da vacina, destinadas à estratégia definida pelo Ministério da Saúde. Até a decisão de suspensão, anunciada no dia 8 deste mês, 7.794 doses haviam sido aplicadas.
Em relação à segurança do imunizante, a secretaria informou que foram registrados no estado 35 Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização (ESAVI), todos classificados como leves. “Todos os casos foram devidamente investigados e encerrados, sem registro de eventos graves relacionados à vacina no estado”, destacou a Sespa.
A secretaria também confirmou ter sido oficialmente notificada pelo Ministério da Saúde sobre a suspensão cautelar e informou que a principal orientação repassada aos municípios foi a interrupção imediata da aplicação da vacina Butantan-DV até a conclusão das investigações em andamento.
Segundo a Sespa, a vacina era aplicada exclusivamente em trabalhadores da saúde participantes da estratégia definida pelo Ministério da Saúde. Como o esquema vacinal da Butantan-DV prevê dose única, as pessoas que já receberam o imunizante tiveram o esquema vacinal concluído.
A orientação é que os vacinados não precisam procurar atendimento de rotina em razão da suspensão. No entanto, caso apresentem qualquer alteração clínica ou sintoma que gere preocupação, devem buscar avaliação médica e informar ao profissional de saúde que receberam a vacina contra a dengue.
Entre os sinais de alerta citados pela secretaria estão dor abdominal intensa e persistente, sangramentos, manchas pelo corpo, tontura, vômitos persistentes e outros sintomas compatíveis com formas graves da doença.
A Sespa reconhece que a suspensão temporária interrompe a proteção vacinal de um grupo considerado importante para a assistência à população, mas ressalta que as demais ações de vigilância, prevenção, controle do mosquito e atendimento aos pacientes continuam sendo realizadas normalmente no estado.
“A suspensão cautelar da vacina não altera a principal estratégia de prevenção da dengue, que continua sendo o combate aos criadouros do mosquito Aedes aegypti”, reforçou a secretaria.
De acordo com os dados estaduais, entre 1º de janeiro e 31 de maio de 2026, o Pará registrou 4.833 casos confirmados de dengue e 13 óbitos relacionados à doença.
Situação em Belém
A Secretaria Municipal de Saúde de Belém (Sesma) informou que a vacinação com a Butantan-DV também foi suspensa no município após a manifestação do Ministério da Saúde.
Segundo a pasta, o imunizante era destinado exclusivamente aos trabalhadores da Atenção Primária à Saúde (APS), Agentes de Controle de Endemias (ACE) e Agentes Comunitários de Saúde (ACS). Até a suspensão, foram aplicadas 292 doses.
A Sesma destacou que não houve registros de ocorrências graves relacionadas à vacinação. “Foram aplicadas 292 doses, sem notificação de reações, fora do esperado”, informou a secretaria.
A pasta também esclareceu que a vacina contra a dengue aplicada em adolescentes de 10 a 14 anos na capital paraense é produzida pelo laboratório Takeda e continuará sendo utilizada normalmente.
Além disso, a Prefeitura de Belém ressaltou as ações de enfrentamento à doença realizadas no município. Segundo a Sesma, a capital reduziu em mais de 70% os casos de dengue, resultado que também está relacionado à instalação de mais de 5 mil Estações Disseminadoras de Larvicidas (EDLs), tecnologia utilizada para reduzir a circulação do mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya.
Especialista reforça importância da investigação e da confiança nas vacinas
Para a médica infectologista e professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), Sílvia Nunes Szente Fonseca, a suspensão temporária da vacina deve ser compreendida como uma demonstração de que os mecanismos de monitoramento e segurança estão funcionando adequadamente. “A decisão mostra que o sistema de farmacovigilância brasileiro está atento e atuante. Sempre que surge um evento inesperado após a introdução de uma nova vacina em larga escala, é natural e necessário que as autoridades interrompam temporariamente a estratégia para investigar com profundidade o que ocorreu. Isso faz parte da ciência e da segurança dos programas de imunização”, afirma.
A especialista ressalta que é importante evitar conclusões precipitadas enquanto as investigações estão em andamento. “É fundamental entender que suspensão não significa condenação. Neste momento, o que existe é uma investigação em curso para esclarecer se há ou não relação entre os eventos registrados e a vacina. A decisão de interromper temporariamente a aplicação foi tomada justamente para garantir que todas as análises sejam realizadas com o máximo rigor técnico e científico”, explica.
Segundo a infectologista, esse tipo de procedimento é adotado em diversos países e integra os protocolos internacionais de segurança de medicamentos e vacinas. “A vigilância contínua não termina quando uma vacina é aprovada. Pelo contrário. Após sua utilização em larga escala, os sistemas de monitoramento seguem acompanhando possíveis eventos adversos para garantir a proteção da população. Isso é uma demonstração de responsabilidade e transparência das autoridades de saúde”, destaca.
Sílvia alerta ainda para o risco de que notícias sobre investigações de eventos adversos sejam interpretadas de forma equivocada e acabem estimulando a hesitação vacinal. “As vacinas continuam sendo uma das ferramentas mais eficazes para prevenir doenças graves, hospitalizações e mortes. A população precisa compreender que a investigação de possíveis eventos adversos não enfraquece a vacinação; pelo contrário, fortalece a confiança no sistema porque demonstra compromisso com a segurança dos pacientes”, afirma.
A médica lembra que as evidências científicas acumuladas ao longo das últimas décadas demonstram de forma consistente os benefícios da vacinação para a saúde pública mundial. Ela cita um estudo publicado em 2024 na revista científica The Lancet, que analisou dados de 194 países ao longo de 50 anos, entre 1974 e 2024.
Segundo o levantamento, os programas de vacinação evitaram 154 milhões de mortes em todo o mundo, sendo 146 milhões entre crianças menores de cinco anos e 101 milhões entre bebês com menos de um ano de idade. O estudo concluiu ainda que a vacinação foi responsável por cerca de 40% da redução da mortalidade infantil global observada nesse período e proporcionou um ganho estimado de 10,2 bilhões de anos de vida saudável para a população mundial.
Outro dado apontado pelos pesquisadores indica que, em 2024, uma criança com menos de 10 anos tem 40% mais chances de sobreviver ao próximo aniversário em comparação com um cenário hipotético sem os programas de vacinação implementados nas últimas cinco décadas. “Quando analisamos os números em escala global, fica evidente que poucas intervenções em saúde tiveram impacto tão expressivo quanto as vacinas. Os benefícios acumulados ao longo dos últimos 50 anos salvaram milhões de vidas, reduziram o sofrimento de inúmeras famílias e transformaram a história da saúde pública. Por isso, é fundamental que situações pontuais sejam investigadas com rigor científico, sem comprometer a confiança em uma das estratégias mais eficazes já desenvolvidas para a prevenção de doenças”, ressalta.
Enquanto as investigações seguem em andamento, a recomendação é que a população acompanhe as orientações dos órgãos oficiais de saúde e busque informações em fontes confiáveis. “Quem já recebeu a vacina não deve entrar em pânico. As autoridades sanitárias estão trabalhando para esclarecer rapidamente o que aconteceu e tomar as decisões mais adequadas com base em evidências científicas. O mais importante neste momento é evitar a disseminação de boatos e aguardar os resultados das investigações”, conclui a Dra. Sílvia Nunes Szente Fonseca.
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