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Sobe para quatro o número de mortes por doença de Chagas em Ananindeua

Município monitora 40 casos e Ministério da Saúde investiga surto associado à transmissão oral

O Liberal

Subiu para quatro o número de mortes provocadas pela doença de Chagas no município de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém. A informação foi confirmada, na segunda-feira (26), pela prefeitura do município. A vítima mais recente é uma menina de 11 anos, que estava internada em um hospital particular de Belém e morreu no último dia 23.

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), o município monitora atualmente 40 casos suspeitos da doença. Desse total, 26 foram notificados em dezembro e outros 14 em janeiro. No mesmo período, quatro óbitos foram confirmados, todos registrados neste mês.

“A Prefeitura de Ananindeua, por meio da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), informa que foram registrados 26 casos notificados no mês de dezembro e 14 casos notificados no mês de janeiro. No mesmo período, foram confirmados 04 óbitos, todos ocorridos no mês de janeiro”, diz a nota oficial.

Ainda segundo o comunicado, desde as primeiras notificações, a Sesau intensificou as ações de vigilância, monitoramento e assistência aos pacientes, seguindo os protocolos do Ministério da Saúde. A prefeitura informou também que o município atua de forma integrada com a Secretaria de Estado de Saúde Pública do Pará (Sespa) e o Instituto Evandro Chagas (IEC), garantindo suporte técnico e científico no enfrentamento da situação.

“A Secretaria reforça que segue atenta à evolução dos casos, mantendo o monitoramento contínuo e adotando todas as providências cabíveis para a proteção da saúde da população”, conclui a nota.

Ministério da Saúde acompanha o caso

Também em nota, o Ministério da Saúde informou que acompanha a situação epidemiológica da doença de Chagas em Ananindeua, onde foi identificado um “surto associado à transmissão oral”, que ainda está em investigação. A pasta atua em articulação com a Sespa, secretarias municipais, a Anvisa e os Centros de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde (CIEVS).

Segundo o ministério, estão sendo realizadas ações de investigação, vigilância, assistência e controle, incluindo a avaliação das condições sanitárias na cadeia de produção e comercialização de alimentos. O tratamento, conforme destacou a pasta, é ofertado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Para reforçar as ações, o Ministério da Saúde colocou à disposição do município uma equipe do EpiSUS, que pode atuar conforme solicitação dos gestores locais. A avaliação das condições sanitárias é realizada pela Anvisa, em conjunto com equipes de vigilância.

Especialista afirma que cenário caracteriza surto

O infectologista Alessandre Guimarães afirmou que os casos registrados em Ananindeua caracterizam um surto da doença de Chagas. “Sim. Por definição, a palavra surto é quando há um aumento desproporcional de casos de uma determinada doença numa determinada localidade por um certo período de tempo. Então, está havendo uma proporção anormal, um número de casos muito maior do que o esperado para aquela localidade e nesse período da doença de Chagas é no município de Ananindeua”, explicou.

Segundo o médico, a doença de Chagas é endêmica nas Américas, principalmente na América Latina, e o Pará concentra o maior número de casos no país. “No Brasil, o estado do Pará é o que detém o maior número de casos, sendo considerado, portanto, o epicentro da doença de Chagas no Brasil e, logicamente, por conseguinte, no continente americano”, afirmou.

Ele explicou ainda que, em outros países, predomina a transmissão vetorial, por meio do inseto barbeiro. “O que é a transmissão vetorial? É a transmissão através do inseto barbeiro, que é o invertebrado hospedeiro intermediário do agente causador da doença, que é o Trypanosoma cruzi”, disse. Segundo ele, o inseto vive em áreas de floresta e costuma transmitir a doença a mamíferos silvestres, sendo o ser humano um hospedeiro acidental.

Transmissão oral e sintomas

De acordo com o infectologista, no atual surto em Ananindeua, a transmissão ocorre pela via oral. “Quando a doença é transmitida na forma oral, que é a forma que nós estamos vivenciando no atual surto na cidade de Ananindeua, em cerca de 3 a 20 dias, que é chamado de período de incubação, esse período costuma ser bem curto. Ou seja, com três dias já começam os sintomas relacionados à fase aguda da doença”, explicou.

Ele detalhou que os primeiros sinais costumam ser febre persistente. “Geralmente é um quadro de febre e a característica da febre da doença de Chagas é o que chama mais atenção, porque é uma febre persistente, é uma febre que não passa fácil, é uma febre prolongada”, afirmou.

Segundo o médico, é comum que os pacientes procurem atendimento médico e recebam diagnóstico inicial de virose. “O indivíduo, muitas das vezes, vai na unidade de pronto atendimento, tem um diagnóstico de virose, se pensa até na possibilidade de dengue. É muito comum isso acontecer”, disse. No entanto, ele ressalta que a febre da doença de Chagas pode durar semanas. “A febre da doença de Chagas não vai embora. Ela é persistente por cerca de quatro semanas, oito semanas”, afirmou.

Além da febre, podem ocorrer outros sintomas. “Além da febre, há dor de cabeça, dor no corpo, podem acontecer gânglios pelo corpo e inchaço nas pernas, que é o edema de membros inferiores. Então, esse quadro clínico acontece na fase aguda”, explicou.

Casos graves e formas de transmissão

Alessandre Guimarães alertou que, em casos mais graves, pode ocorrer comprometimento do coração. “Se houver variação de sintomas para mais, pode acontecer o que a gente chama de cardite chagásica aguda. O Trypanosoma cruzi tem predileção por fibras musculares, como as do coração, e acaba causando uma inflamação e uma falência do órgão”, afirmou. Segundo ele, nesses casos, o coração não consegue bombear o sangue corretamente.

O infectologista explicou ainda que a doença de Chagas pode ser transmitida de cinco formas. “A primeira forma é a forma clássica, através do inseto vetor, que é o barbeiro. A outra forma é a forma oral, através de triturar o inseto em alimentos, como o açaí, a bacaba ou o caldo de cana”, disse. Ele também citou a transmissão de mãe para filho, por transfusão de sangue e por acidentes laboratoriais.

Tratamento e cura

Apesar da gravidade da doença, o médico reforçou que há tratamento e possibilidade de cura. “Sim, tem cura. Existe um medicamento. O tratamento é um pouquinho chato, prolongado, mas tem que ser metódico e seguido. Tem alguns efeitos colaterais, mas tem cura e existe tratamento específico para a doença de Chagas”, concluiu.